quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Inês e a Concha

Inês doura ao sol. Recostada no barco fecha os olhos para ver as coisas de outro jeito. Escuta as vozes que se misturam e procura ler através do som das vozes. Mais ao fundo tem o som do remo cortando a água e que ao fim de cada movimento resvala no barco. Resvala nela. Lembra da concha do mar que ficava sobre a lareira da casa dos pais quando era criança. Do barulho que havia dentro da concha e o pai mostrava para ela. Era mágico escutar o mar tão lá dentro daquela concha. Tão longe e tão lá dentro. Todinho em suas mãos. Com as mãos ela pegava e levava bem pertinho do ouvido. O mar então molhava e salgava Inês deleitada. Reverberava lá dentro da concha e também dentro dela. Agora, assim recostada ela lembra disso. Lembra do som que escutava na concha (onde estará?) e que agora reverbera nela. Inês é concha e sente o mundo ecoar dentro dela. O dia quente de sol, os sons das vozes que escuta, o roçar do remo no barco. Tudo roça nela. Roça e reverbera. Ela própria a estrutura da concha. Interior semelhante a um labirinto em espiral que concentra e amplifica os sons, produzindo um efeito parecido com o barulho do mar. Inês é caixa de ressonância. É o próprio mar e a soma do que reverbera. É a soma de ecos e ecos produzidos dentro da concha. Dentro dela. Que vêm de fora e penetram nela. Como a concha, Inês capta tudo que é residual no ambiente, até os sons que se propagam em todas as direções e, se é possível dizer isso, passam direto pelo ouvido. Ela é concha e capta. E dentro dela as ondas repercutem, refletem-se nas paredes. Concha. Caverna. Voz e o som da voz. Remo e o som do remo. Reverberam em Inês e Inês reverbera. Talvez. Talvez se a voz que escuta não falasse ela reverberaria? Não sabe. E se na verdade não é possível se ouvir o som do mar na concha? Se é uma associação humana com o barulho do vento transitando pela parte interna e que então vira marulho ecoando na parede da concha? Talvez seja tudo uma grande bobagem e Inês escutasse o mesmo mar encostando uma xícara no ouvido. Apenas uma xícara. Nem quer saber. Sabe que o som que vem de fora (uns mais que outros), entra na concha e se envolve naquele espaço, naquela espiral e nas paredes . E reverbera. Como criança, sabe ler as coisas assim e quer escutar as coisas reverberarem nela. O som das vozes. O som do remo que resvala e todo tipo de contato. Como criança, num instante vai descobrindo o momento certo de dobrar o corpo para aumentar a amplitude do que deseja dentro dela. Dentro dela. Sabe que se balançar na freqüência certa, na freqüência do que lhe parece tão natural, logo vai chegar à ressonância e obter grande amplitude de oscilação. É física e Inês nada entende disso. Intuitivamente sabe. Talvez, como se seu corpo fosse um instrumento musical. Um violão? E as vibrações do dedilhar as cordas entrando em ressonância dentro da caixa de madeira que ela é. Do instrumento que ela é. Amplificando o som e dando o timbre. Percebendo as diferentes freqüências. Girando e girando o dial para sintonizar o que escapa. Para sintonizar o que quer dentro. Variando as correntes elétricas (se existem) e captando aquela energia. Talvez por isso Inês prefira o estômago vazio. Nada que possa alterar a frequência natural de seus órgãos internos e quebrar a ressonância. Inês é mulher que quer as coisas por inteiro. Por inteiro. Até mesmo se o dedilhar durar meio segundo. Respira e reverbera.

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