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BÁRBARA

BÁRBARA

Bárbara descobriu o pior de si. É dissimulada. Mentirosa. Gosta de ter as coisas sob seu controle. Isso dá a ela algo muito valioso: segurança. Gosta do poder que a segurança lhe dá. Gosta de ver a movimentação das pessoas em torno do seu halo. Ela é o sol. Irradia luz e capta para si íons, nêutrons e prótons que gravitam em torno. Gosta de fazer alquimias. Misturar essa química toda para ver no que dá. E como ela se sente grande! Não é má. Bárbara não é má. Apenas arma estratégias, estratagemas, esquemas, cenas, cenários e aprecia o desenrolar. Por isso sempre admirou manipuladores de marionetes. Ela manipula. Os outros se encantam. Deslindam pelas teias que tece. Bárbara é aranha e prefere o devaneio ao sonho. No devanear ela está no controle. No sonho, quem sonha Bárbara? Por isso sai todas as tardes. Observa outras personagens femininas. Passeia por cada mulher. Cada uma um mundo que ela descortina. E vai ganhando tamanho. Por isso se identificou com a gorda do escritor. Ela própria a gorda. Gorda de tantas mulheres em si. Agora que tem consciência sabe que tem todas dentro dela. E assim ela passeia. Por isso lhe ficou na mente a frase da amiga: eu duvido um pouco de quem passeia bem por todas as esferas. Era a imagem de si própria. E a outra frase dela: você se veste e se porta de um jeito que não é bem o que lhe vai por dentro. É isso. Bárbara falseia e passeia por outras mulheres. Por seus íntimos, suas superfícies. Pelo que está contido e pelo que transborda. É por isso que as admira. Um pouco de cada uma delas a compõe. Pensa qual delas deverá assumir. Ela precisa se assumir. Precisa? Ela não sabe ainda. Por isso anda quieta. Fala apenas pelas palavras que escreve no caderno verde. Um dia amadurecerá? Ela não sabe se quer amadurecer. Para que? Que cobrança é essa? Quem está cobrando? Ela própria, decerto. Mas ela se ama do jeitinho que é. Diverte-se. Aprecia os desdobramentos de suas palavras, de seus atos. Observa e entende. Reflete. Confirma. Pensadora e cientista de si e do mundo. Às vezes pensa no que lhe escapa. Não sabe. Talvez seja o próximo passo depois da diversão. Competitiva. Reconhece-se a cada dia e apaixona-se. Tal qual Narciso. Adora espelhos e personagens. Ela mesma personagem do grande teatro que é a vida. Desliza suave. Talvez por isso não sinta dores, sequer o peso da vida. Adora a coxia onde tira peça por peça de roupa e de novo é ela. Nua. Depois veste outras e mais uma vez, sai. Exercita outras. Bárbara é sempre outra. Tiradas as roupas esvanecem os papéis. Então ela se tatuou. Agora é inscrita por ela mesma. Nua, inscrita e assinada. E assim segue brincando com a vida que alguns chamam de madrasta. Bárbara não acha. Só a mãe é capaz de desajustar seus entendimentos. Confunde-a sua mãe. Por isso gosta de máscaras. Chapéus. Mantos e véus. Esconde-se de si. Das mulheres tantas que é e de outras que não pode ser. Chora comovidamente. Olha no espelho os olhos vermelhos e aguados. Perde-se e já é outra. Pergunta a si mesmo se é uma fraude. Sorriem os olhos molhados.



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