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CONVERSA DE AMIGAS

CONVERSA DE AMIGAS

Ela que sorri por detrás do amarelecido dos dentes agora movimenta as mãos sobre a mesa e me sorve com os olhos. O esmaecido do esmalte nas unhas e o dourado dos anéis crepitam. Semírames sorri embaixo dos dentes que carecem de tratamento e um bom aparelho ortodôntico. Mas suas prioridades agora são outras. Pagar a faculdade dos filhos e vê-los encaminharem-se bem. E versa sobre o mundo de ambos, seus sonhos e aptidões. Não ama um homem já tem muito tempo e diz não se importar com isto agora. Um dia se dedicará. Quando tudo estiver encaminhado, ela diz. Assim capturada, diante do pé de manjericão que se desdobra sobre si mesmo ela diz triunfante: “A sorte é que decidirá”. Diz que faltam alguns dias para que tudo se equalize. Diz em seguida “Para que tudo se desestabilize” e sorri. Digo que uma vez li algo sobre um espaço que ocupamos entre o terminar de dormir e o acordar. Thetaville. Lá só há espaço para quem domina o medo de continuar dormindo. Eu não tenho, ela diz. E pensa no seu amor, no espaço que um dia ele ocupará (um espaço tão grande que ela flutua). E então ela abre a torneira e fala. E tem muita água represada lá dentro. Semírames é assim. Como o pé de manjericão, ela se desdobra sobre as palavras que escapam da boca e que por vezes a surpreendem. E fala: “Eu disse isso”? Desejo mesmo ela tem de sair de dentro de si por 15 dias, desparafusar boa parte das roscas e deixar somente as essenciais. Apagar todas as luzes, todo abajur, lamparina e também soprar as velas. Ver o que pode enxergar só com a luz da lua (quando houver) e aprender a tatear seus escuros, seus silêncios. Vencer todas as camadas do cérebro, atravessar camadas do córtex, meninges e a camada dura. Vencer o osso. E o que pode haver de falha no duro dele. Procurar a ausência de cálcio. As porosidades. Desestabilizar os gradientes de concentração. Achar novas combinações. É como diz a letra da música que ela cantarola: “É preciso estar silêncio para eu não ficar aflito, mas dentro de mim tem um grito que não posso mais calar. Estrelas me respondam como eu posso descansar?” Diz que bom seria se “ausentar” e não mais através da palavra, mas da ausência dela, se desinstalar de antigos postos, de antigos pontos de vista. Até mesmo das miragens. Das fantasias. Do que pode haver de mistério. Se perder no trajeto, no que pode haver de imaterial, de rastro dissolvido no ar. De barroco. E olhar bem dentro de cada imperfeição. Amar cada falha. Ela fala e eu penso que “somos nelas”. Derivamos em como isso acontece. Aceitar as falhas. Os vazios. O que não é objeto de desejo, de consumo. O que tira de nós a própria possibilidade de ser. Ela queria estar mais calma, mas tem um rebuliço lá dentro. Diz: “Minha vida é um filme. deus? Ah, deve estar na primeira fileira, ao lado do diabo. Os dois rindo minhas angústias. Se eu não parar de acalentar os sentimentos que me invadem vou ficar invadida, inchada. Eu vou engordar de sentimentos! E não haverá remédio que me faça emagrecer depois. Vou explodir como a mulher daquela novela antiga. Mas agora não. Não é hora de divagar. E repete que um dia se dedicará. Quando tudo estiver encaminhado, ela diz. Eu sorrio sua força. Reluzimos nessas trocas.

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