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ABSORTO EM ABSURDOS


Dia desses acordei por volta de 5 da manhã. Como estava num hotel e a televisão bem na minha frente, liguei. Estava passando uma daquelas aulas do Telecurso 2° grau. Aula de desenho técnico em mecânica. Projeção Ortogonal e rotação. Comecei a olhar aquilo. O pensamento cheio de nós. Rodando perdido numa imagem insistente. Eu estava tão absorta. Acho que nada ali fazia sentido, mas por estar tão absorta, deixei meu olhar ali. Lembrei de algumas aulas do curso de Arquitetura. Desenho Industrial. Comecei a enxergar alguns cortes possíveis e consequentemente, a visão da peça por aqueles pontos de vista. Olhando assim um detalhe parece estar distorcido. Você então deve fazer a rotação desse trecho para visualizá-lo melhor. Sinapses ocorrem e começo a transferir essas informações para a vida. Para as coisas da vida. Pois não é verdade que certas vezes as coisas da nossa vida ficam com, digamos, uma alteração na sua imagem? É verdade. Dependendo dos óculos com que vemos certas coisas, descontadas as patologias e alterações do pensamento, do juízo e do diabo a quatro, certas vezes o que vemos é pura distorção. Aproveitando a técnica busquei a imagem insistente. Olhei-a bem de frente. Observei o que, esteticamente, me pareceu em desalinho. Acho até que meu inconsciente quis me impedir esse olhar. Parecia tudo tão perfeito. Tão convergente. Quase me absorvendo. Chacoalhei a cabeça, os neurônios e fixei o olhar. Depois distanciei para ajeitar o foco. Foi então que eu vi. Ali. Quase escondida embaixo da ilusão de ótica estava enunciada a distorção. Aí parti para a aplicação da técnica. Rotacionei aquele trecho em relação ao eixo para enxergá-lo melhor. Ajeitei o ângulo para melhor visualização. Fiz elevações frontais, laterais. Explodi o detalhe. E então fiz o corte. Agora eu podia olhar aquele trecho por dentro. Examinar suas partes. Entender a “peça” em perspectiva, suas diferentes visões e os possíveis cortes. Um show de pontos de vista complementares. Aí percebi as maravilhas da ciência. Com técnica ela faz a gente ver poesia onde há apenas uma peça. Descolada da sua realidade. Poderia ser desentendida inclusive por isso. Por despertencer. Mas dependendo dos olhos que você põe sobre ela, você a localiza no tempo e no espaço, enxerga seu movimento e ela vai deixando de ser peça para ser componente de algo. De algo que tem uma função. Entender a peça no seu contexto é amá-la e amar uma coisa é perceber isso. Perceber que sem o contexto, a coisa é simplesmente acúmulo de átomos. Contextualizada ela passa a ser um acúmulo organizado. Tem função. Tem razão de ser. Eu idem. De certos pontos de vista sou somente acúmulo de átomos. Mas olhando a coisa desse jeito eu ganhei contexto. Virei pessoa que manipula a peça e enxerga seu bonito. Tudo isso porque eu estava tão absorta. No mais, continuo por aí. Como se eu pudesse tocar alguém com a palma da minha mão, com a superfície dela e a alma, e ampará-la caso caísse. Mas certas vezes nada pode ser feito. Há um silêncio por demais grande e desmedido. Há planetas e peças e pessoas e coisas que orbitam em diferentes eixos e jamais se comunicarão. Cada um absorto no seu absurdo. E então a gente canta. É como diz aquela música: “pois cada um é cada um, no desejo e no sonhar”.

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