segunda-feira, 29 de março de 2010

CENAS DE ADALGIZA

O olhar é algo que acontece no olho. Tudo que entra por ele quando olhamos para alguém. Mesmo quando olhamos no espelho. O olhar desperta coisas. Muda o olhar de quem olha e de quem é olhado. É como diz aquela música, leitor:

“- como é triste seu olhar.
- como assim? A tristeza de um olhar vem de outro olhar, vem de tanto olhar.
- como assim?
- pelo olhar pode haver um motim.
- Não entendi, mas senti que era o fim”.

O olhar também pode vir por detrás de óculos. Óculos trazem para perto o que está longe. Definem o que está embaçado. Também tem o olhar que vem por detrás dos óculos escuros. Óculos quando são escuros escondem os olhos de quem olha e despertam em que quem é olhado “um não saber como se é olhado”. Óculos escuros são cinematográficos e as pessoas quando usam ficam cinematográficas. Olham as outras pessoas de um lugar chamado palco – que é uma espécie de tablado mais alto onde uns ficam distintos dos outros – e as coisas são vistas dessa perspectiva. O palco também pode ser de vários tipos. Mas não importa. Quem está lá está em destaque. E olha desse lugar. E também tem o não-lugar. Que é o lugar onde não se está. Onde não se é. Adalgiza, que é tão adoravelmente feminina, pensa sobre meninos e meninas. Pensa na escrita das palavras vertida em atos, gestos e expressão de olhos. Através do azul por onde enxerga o mundo e as coisas, ela lê e interfere. Ela que às vezes repete o que lhe disse uma amiga entre risos:

“Pra quem poderia ter morrido aos dois anos, estar aqui faz uma grande diferença!” E solta seu texto nos ensaios de teatro duas vezes por semana:

“espero que você não se importe
que eu expresse em palavras
como a vida é maravilhosa
depois que você está no mundo;
embora nada poderá nos manter juntos
podemos roubar um tempo para ficar juntos”

E quando olha para o seu amor, pensa que olhar é propagar incêndios. E me conta que nem conhece a planta dos lugares por onde se embrenha, o local onde ficam os extintores. Pensa em portas corta-fogo. Pensa em roupas feitas desse material e óculos. Deveriam inventar óculos assim, ela diz. Pois se as janelas são os olhos da casa, os olhos são a janela da pessoa. Por onde você, fora do corpo, espreita o mundo dos outros e por onde eles olham o seu dentro. “Alguém já disse, Jim Morrison disse: “ver implica sempre uma violação da privacidade”. Os outros desvelando nosso dentro. Ele que falou sobre os olhos e ser olhado, sobre o toque e ser tocado, disse: “Que fazem os olhos durante o sono? Movem-se como espectadores de teatro. Os olhos são genitais da percepção e também instauram sua tirania. Usurpam a autoridade de outros sentidos”. Ela pergunta o que deve fazer diante disso. Desespera. Diz: “Eu? Pobre de mim! Por quanto tempo mais arrastarei as feridas narcísicas dos homens? Não sou o centro do universo, não sou divina e tão pouco dona de minha própria casa! E ainda tenho que aturar essa violação de privacidade? ”.

Adalgiza proclama palavras na sua vida-palco. Eu aplaudo. De pé.

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