domingo, 21 de março de 2010

4 MINICASOS FANTÁSTICOS

1. O chocolate está na minha boca. Doce. Você sorri enquanto me olha. Sabe do gosto e das propriedades. Eu engulo. Também a vontade de sorrir de volta. O chocolate, eu, você, tem uma química estranha. Então mesmo assim eu sorrio. Eu nem sei se é o gosto, a química ou seu sorriso. Por dentro eu queria voar no seu pescoço. Queria cantar bem baixinho no seu ouvido: “Você não me provoca nem quando me toca”. E você pega o chocolate, me oferece mais um pedaço e sorri com esse olhar que pensa que me seduz. Não seduz. É só o chocolate que se espalha na minha boca. O marrom que fica entre os dentes e na língua. E o gosto. No mais me sobra o frouxo do seu abraço em cada encontro. Tão frouxo.

2. A cereja que ele me dá está em mim, nos órgãos e glândulas. O olhar é injeção de glicose que sorvo e dissolvo na papila tingida de sabor. O líquido me percorre, depurando, fomentando outras reações, enquanto seu olho me olha. Tudo é vermelho. Enquanto isso ele enxerga a contradição que sou e fica me variando entre seus dedos. Ora um, ora dois, ora cinco. Como saquinhos de veludo ele me varia. Uma a uma as fichas vão me caindo no estômago. Uma a uma eu sinto a dor. Os sininhos balançam no teto e fazem um barulho incomum. É o chão que está ruindo. Tudo é erupção: prazer e medo, susto e alívio. Falta tão pouco para tudo ser um amontoado de imagens lá longe. Falta tão pouco. Ele ri e brinca com os saquinhos de veludo. Vou me prender nos sininhos para não morrer à toa. Ou vou pegar a corda e me jogar, chegar de olhos arregalados no Japão. Eu prefiro minha parte em dinheiro. Vou pegar o pouco que tenho e comprar tudo em cerejas. Quando ele estiver me variando entre os dedos, vou surpreendê-lo. Esparramar todas elas bem no meio da sala, da cozinha, onde for, e pisar devagarzinho em cada uma. Esmagar uma a uma sob meus pés. Então vou rir do espanto dele. Vou rir até ele dizer pra eu parar. Então vou perguntar: Que foi meu amor? Você queria as cerejas?

3. Pense. Naquela rua tinha um moço sentado na soleira de uma porta. Cotovelo sobre os joelhos, dizia para uma moça que sonho como aquele nunca tinha sonhado não. Que nunca, desde os tempos em que saiu de Caruaru, tinha sonhado mais. Antes sonhou sim, muitas vezes. Mas nunca um sonho como aquele. A moça espiava de soslaio. Mexia a cabeça e olhava para a soleira em que eu estava. Olhava bem dentro dos meus olhos. E o medo estampado do moço que falava escorria pela calçada, pelas pedras, e caminhava até o bueiro. E então não escorria para dentro. Ficava. Da minha soleira eu tudo espiava. De lá mesmo me assenhorei da situação e atirei a marreta. Bem no meio do medo. Não é que o danado riu de mim? Rodamoinhou em riso e frevo e então escorreu. Êita que acontece cada coisa!

4. Um tapete de concreto forrava a cidade. O céu de numerados cinzas cobria o oeste e prédios erguiam-se feito arbustos sobre o árido da terra. Espalhadas aqui e acolá, casas. Em nenhum canto cor. Em nenhum canto flor. À esquerda, no fio mais elaborado da sombra que atingia em diagonal o pequeno rosto, a menina partia formigas entre os dedos.

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