sexta-feira, 19 de março de 2010

SOBRE RIOS, POESIA, AS CIDADES, OS HOMENS E OS PINGUINS

SOBRE RIOS, POESIA, AS CIDADES, OS HOMENS E OS PINGUINS


crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville.





Outro dia lia uma revista e vi uma citação: “Não resta dúvida de que o nosso conhecimento começa pela experiência”, de Emmanuel Kant. Comecei a pensar sobre experiências. A princípio, a experiência envolve uma complexidade de coisas, de possibilidades - mas penso: nossa experiência? Ou a experiência do outro, ou daquele grupo, ou da nossa espécie, ou de outra? Desse mundo e também de mundos distantes, hipotéticos, mitológicos? Do mundo animal? Poderia ser também. Aliás, experimentamos através dos animais muitas coisas: testamos medicamentos, reações, implantes... Penso no quanto necessitamos de cobaias. Não só nós. Li outro dia que já foi demonstrado em observações a pingüins-imperadores da Antártida, um comportamento tipificadamente egoísta. Querem lançar-se na água, mas ficam hesitantes com medo das focas... então existe um movimento para ver quem vai primeiro! Descartado o perigo, os outros mergulham. Mas fica claro que nenhum deles quer ser cobaia. Às vezes empurram uns aos outros! Caindo um e sesaindo ileso, então os outros saltam. Não é incrível? Quantos de nós vemos isso recorrentemente em nossos grupos? E observamos as coisas acontecerem, depois usamos a experiência alheia. Isso é de certo modo inteligente, certo? É egoísta também? Usar a experiência alheia para nos “verificar”. Isso pode ser de uma amplitude absurda. Com todas as coisas. Todas. Os rios que cortam as cidades, por exemplo. Também o ponto em que, tecnicamente, uma cidade com menos de 500 mil habitantes pode ainda ser controlada, modificada, revista e ampliada. Vemos tantas cidades e rios que passaram do ponto. Nesse aspecto se pode aprender com a experiência alheia e usá-la a nosso favor? Quando passo de carro pela Beira Rio (o Cachoeira agonizando) penso isso. Quando passo a pé, aí perco o controle, é a idéia disso que me pensa. Isso dá pano pra manga, leitor. Muitas mangas. Inclusive as que dão no pé. Como disse João Cabral de Neto sobre o Capibaribe lá em Recife:



“(...) E neste rio indigente,

sangue-lama que circula

entre cimento e esclerose

com sua marcha quase nula,

e na gente que se estagna

nas mucosas deste rio,

morrendo de apodrecer

vidas inteiras a fio,



podeis aprender que o homem

é sempre a melhor medida.

Mais: que a medida do homem

não é a morte mas a vida”.



Difícil não se embrenhar no contexto dos lugares onde vivemos, nascemos, e onde, afinal, estamos. Não viemos ao mundo a passeio. Viemos pra fazer diferença, acrescentar, subtrair, dividir. Multiplicar também. Viemos para possibilidades matemáticas. Para entrar nas equações e resolvê-las, subvertê-las. Sabe lá. Viemos para atuar. O universo das palavras em qualquer instância na poesia e na literatura possibilita significados e coerência ao mundo. Possibilita a experiência. E João Cabral arremata:



“... Pensei que seguindo o rio

eu jamais me perderia:

ele é o caminho mais certo,

de todos o melhor guia...”

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