sexta-feira, 12 de março de 2010

O ESPORTE, UM MENINO, UM SONHO

O ESPORTE, UM MENINO, UM SONHO


Na tarde do último sábado o programa “caldeirão do Huck” mostrou um pouco da história e do sonho de um menino: surfar no Havaí ao lado de Kelly Slater. O menino Naamã, morador da favela do Morro do Cantagalo no Rio de Janeiro, segue em sua aventura até chegar ao Havaí; o contato com a beleza e o encontro com o astro mundial do surf. Ele se joga no abraço emocionado seguido de conversa e admiração e finalmente os dois no mar. Bonito de se ver. O garoto tem força na expressão, no gesto. Tem um imperativo dentro dele. De volta ao Brasil, Luciano o leva para um passeio de helicóptero pelo Rio. Ele tudo vê lá do alto: a baía da Guanabara, o Pão-de-Açúcar, o morro do Cantagalo onde ele mora, o Cristo. Eu pensava nele vendo sua própria vida de um outro plano. Sobrevoando a própria vida após uma experiência que transformou sua percepção. Seguiram depois para a casa do garoto. Os pais esperavam ansiosos entre paredes sem reboco e a falta de uma geladeira. A família não tinha geladeira. Não tinha sofá. Luciano sentou-se na cama ao lado de Naamã. Os pais, Sr. Estevão e Sra. Janete, sentaram-se também. A mulher desculpou-se pela ausência de móveis, pela pobreza. Sorriu um único dente num largo de se admirar. Luciano, ainda todo metido na emoção, pediu que o menino falasse um pouco da experiência para os pais. E ele falou que não iria mais faltar às aulas. Que iria estudar, aprender inglês, para voltar ao Havaí e conversar com Kelly. O pai espremia o rosto em lágrimas a cada palavra do menino. Repetia: que bom, meu filho! É bom poder ver que o mundo é grande, não é? Fico muito feliz, muito feliz. Atrás deles uma bolsinha preta de crochê com barrado cheio de flores coloridas enfeitava a parede; a camiseta vermelha que a mãe usava, igualmente tinha uma flor nela. Emocionei-me vendo aquilo tudo. Ah! É difícil não ser piegas numa hora como essa! Um germinar de oportunidades. Naamã realizou seu sonho e de quebra várias outras coisas aconteceram e acontecerão. No final da reportagem, os letreiros vão subindo sobre as imagens de Kelly e Naamã surfando juntos. Caetano vai cantando: “O Havaí, seja aqui, o que tu sonhares, todos os lugares”. E é isso Naamã. “Hot stuff”. Mas quero falar do que está por trás de tudo isso: o projeto Favela Surf Clube, que há 14 anos trabalha para que crianças dos morros cariocas possam escolher entre um fuzil AR-15 e uma prancha 6′5′. Além de aulas de surf, os 53 garotos que fazem parte da ONG ainda aprendem uma profissão e produzem pranchas de surf. Mais de 400 garotos já passaram pelo projeto que está aberto para meninos de qualquer morro que queiram surfar e não tenham condições financeiras. Foi daí que surgiu Naamã. Um representante desses mais de 400 garotos. Então eu pensei na nossa cidade, cheia de garotos cheios de sonhos. E pensei no esporte como catapulta para o desenvolvimento deles. Nos projetos sociais que envolvem o esporte e as dificuldades todas que permeiam esse dia a dia. Joinville fez 159 anos. Merece “parabéns” por muitas coisas. Inclusive por seus cidadãos. Sim, uma cidade é seus cidadãos. E aniversários trazem o sentimento de pensar a vida, o futuro. O maior presente que uma cidade pode dar a seus cidadãos é essa perspectiva de crescimento para suas crianças; investimento na educação e no esporte. O sonho de Naamã mora em muitas crianças e adolescentes daqui. Vamos ter olimpíadas no Brasil. Por que não aproveitar esse espírito olímpico, incentivar e dar condições às crianças e adolescentes? Joinville tem uma grande força econômica, desponta em algumas frentes do esporte e certamente há muitas pessoas que conhecem seu potencial e trabalham arduamente na construção de seus cidadãos. É um presente que a cidade não negue incentivos para esse caminho desenvolver-se. É um presente que nossas crianças possam atravessar as fronteiras de suas próprias dificuldades amparadas por projetos como o da Favela Surf Clube e que possam, a partir disso, sonhar suas próprias vidas de um jeito diferente. Olhar a vida de um outro plano e criar imperativos dentro deles. Como aconteceu com Naamã. Parabéns ao programa do Luciano Huck por trazer isso à baila. Parabéns para Joinville e para aqueles cidadãos que acreditam nessa possibilidade e trabalham para que ela vire realidade.

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