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ESQUISITICES HUMANAS. publicado no jornal AN em 04 de março de 2010.

Humanos são seres esquisitamente maravilhosos, maravilhosamente esquisitos. Apaixonada que sou por essa espécie, me vejo por diversas vezes nesse enamoramento. Tudo chama minha atenção. Até as sandices. Os olhares que tudo olham. Examinam com avidez as tragédias. Vivenciam. Geram infortúnios, e igualmente, paciência, arroubos, doações. O olhar que observa a beleza e a fragilidade de seus iguais. Inveja e admira. Deseja o desejo. O próprio e também o dos outros. E nem sabe se, de fato, quer o que deseja. O olhar de um pescador para o mar. Dos surfistas examinando o movimento das ondas, dos ventos. Dos músicos quando cantam suas canções. E sentem. E se vivem outros. Vivem nas palavras. Nas cadências. Também nas pausas. O olhar do cirurgião para um órgão que pulsa em suas mãos. O olhar de uma mãe para o seu bebê. Do bebê para sua mãe. O olhar de um animal à espreita. Olhar de predador. E o olhar de uma presa. Olhar de medo. Olhar que faz outro olhar sorrir. Olhar que vira música. Amo ver o que determinadas pessoas conseguem captar e arrancar dos outros. Sorrisos. Crises de choro. Paixão desenfreada. Amor. Olhar de quem se veste em armaduras. Olhares de defesa. Posturas de defesa. O olhar que se enamora de outros olhares. Inclusive dos animais. Os olhares tantos de um cachorro para seu dono. Um cachorro no colo de seu dono. O olhar que espreita você fazer algo e sabe que está errado. Entende que você está errando, mas não interrompe seu momento. Porque não quer. Porque não sabe como interferir. Porque quer que você erre. Porque odeia você. Porque ama você. O olhar de pessoas que riem e se olham e então riem juntas. É o olhar sorrindo. Olhar que por vezes também chora. O vermelho do olhar. O triste que fica estampado. E as rugas. Os sulcos que cortam as faces como navalhas finas e afiadas, precisas. O olhar que acredita que depois da tempestade vem a bonança. A ingenuidade. A maldade. A vingança. O olhar que transparece não estar “nem aí” para o que você fala e nem percebe o contrário da postura instalado no olhar. Delatando. Olhar de quem não faz a menor ideia que os olhos denotam mensagens. Mensagens que podem reiterar ou invalidar aquilo tudo que sai pela boca e reverbera. O olhar que empurra o ar que chega até você. E então você respira. Quantas vezes vemos isso na fagulha do tempo que é a nossa vida. Fagulha é palavra-navalha que corta nosso rosto e nosso olhar. E não é incrível que seres humanos deixem tanta coisa escapar nesse tempo? É e não é. Porque a vida é rara e farta. E de fato, não dá para ter tudo, fazer tudo, querer tudo. Não dá para pegar duas estradas ao mesmo tempo, dá? É leitor, é como ouvi certa vez de alguém em Alagoas, quando paramos para pedir uma informação e o homem disse: “Você segue em frente e quando a estrada abrir, você deixa a direita e pega a esquerda”. É lindo isso. Entender essa pérola. Pra pegar um caminho, vem implícita a ideia de deixar outro. Se não a gente não chega onde pretende. Pode ser que algumas vezes duas saídas diferentes levem ao mesmo lugar por caminhos diferentes. Tem isso também. Mas é maravilhosamente humano estar na encruzilhada. Porque as escolhas que moram dentro das pessoas são aquelas que metem medo e obrigam a seguir a fala do homem alagoano. Deixar algo. E isso acontece o tempo todo nessa fagulha-vida. A gente pode fechar os olhos e dar os passos, tirar cara ou coroa ou usar qualquer outra metodologia. Mas as escolhas acontecem. Com ou sem nosso consentimento consciente. É daí, desse posicionamento nessa hora, que nascem as estátuas. É daí que os homens viram ou não, pedra. E então se podem ver outras coisas esquisitamente humanas.

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