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EU IA FALAR DE RAVIOLLI

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville.

Eu realmente tinha planejado falar de raviolli, mas desde a publicação da crônica de Adália e Quasar venho recebendo mensagens que me fizeram mudar de idéia. Muito bacana saber das histórias envolvendo cheiros de várias ordens. De perfume, de comida, de lembranças, de fatos. Esse negócio de cheiro dá mesmo o que falar. E embora cheiro de raviolli seja muito bom e traga junto cheiro de amigos em torno da mesa, trabalhando juntos, preparando a massa e comendo, me pus a pensar em outros cheiros. Porque cheiro é um modo de a gente se “orientar”. Também pode ser um modo de a gente se perder. Mas se a gente pode se perder, também dá pra se achar. Como “cheiro da casa da gente”. É bom esse cheiro. Dá conforto. Dá aconchego. Cheiro de beijo na boca quando começa a pegar fogo. Cheiro de roupas limpas secando no varal (nem precisa usar amaciante pra cheirar gostoso). Cheiro da roupa de alguém com restinho de perfume. Cheiro de mar. Cheiro do crepúsculo no mar. Alguns cheiros me marcaram. Como o cheiro do pão de queijo que minha avó fazia e escondia num tacho de cobre no armário do quarto. Pode? Era uma diversão. A gente chegava e ia fuçando, comendo pelas bordas. Ela dava bronca quando via o tacho quase vazio mas no fundo devia adorar o fato de a gente “adorar” os pãezinhos que ela fazia pra gente. Tem cheiro inesquecível. Como o cheiro da Ilha de Páscoa. Aquele pedaço de terra no meio do Pacífico. Lembro de lá e já sinto um odor de terra virgem, de pura descoberta. E cheiro de café? De pão quentinho? Você coloca um pouco de manteiga e junto com o café fresquinho isso vira a porta do céu. Cheiro de “eu consegui! Eu consegui!”. E também cheiro de lugar errado. De hora errada. Isso sem contar o cheiro das situações que nos colocam em alerta: Cheiro de gás, de “acho melhor a gente se mandar”, “eles brigaram”, “que arapuca!”, “acho que isso pode nos prejudicar”, “aí tem armação”... E por aí vai. Ás vezes coisas que cheiram bem escondem ciladas. E tem cheiro que a gente sente que dá até náusea. Outros são apenas ruins, outros ainda, são tóxicos. Tem cheiro difícil de esquecer. Cheiro de gente dormindo na rua. Cheiro de gente cheirando crack. Cheiro de gente “se acabando” por dificuldades de todas as ordens. Cheiro de quando se passa em trechos de estrada que abrigam determinadas indústrias. Típico de fábrica de celulose. Cheiro de indústrias que jogam seus esgotos nos rios que temos, cheiro de residências que fazem o mesmo. Cheiro de falta de saneamento básico. De rio poluído. Cheiro de esgoto a céu aberto. Cheiro de descaso político. De falta de vontade política e falta de “panelaço” de uma sociedade civil não organizada. Esses cheiros a gente pode associar às coisas. Ou a gente deveria! Para o cheiro vir junto e ajudar a gente e todo mundo a não esquecer. Porque tem cheiro que definitivamente não é bom esquecer. É bom guardar na memória que chamam de não-declarativa ou de procedimentos. Aí na ocasião propícia, do voto, por exemplo, a gente lembra, associa e pode tentar uma opção que cheire diferente. Um cheiro que não cheire a pizza.

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