sábado, 21 de janeiro de 2017

EU SOU O MEIO ##

ilustração: Cy Claudel
um ponto de vista obtuso: salto e me derramo sobre o vão. sou argamassa. cal e cimento, os ferros amarrados e depois, tijolo sobre tijolo. sou o vento que bate no rosto, o sol sobre a cabeça, a pinga no final do dia e quem sabe isso tudo mais meus erros de cálculo, meus destroços e a tentativa de formar um cômodo. um cômodo apenas onde eu possa me abrigar, inclusive de mim mesma, e criar tubulações pra ver a água jorrando da torneira e enxaguar o rosto ou tomar um copo dela ou mesmo meter a cabeça embaixo dela. trago em mim trincas e fissuras estruturais; mas há pilares, vigas e um enorme baldrame para a inconstância e  as movimentações a que estou sujeita, embora os efeitos de um sorriso desatem em vértebra depois um solavanco ou beijo de supetão, e deve ser por isso que sob determinados ventos eu desabo inteira no meio da sala de estar. sim. ainda assim sou tijolo sobre tijolo dos sonhos da casa inteira e suas partes, da torneira e da água jorrando sobre minha nuca e meus olhos enxergando o ralo da pia e meus ouvidos escutando a água cair sobre um tanto de silêncio e vontade.

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