sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

PARA FALAR DE AMOR

Jornal A NOTÍCIA, 04 de fevereiro de 2010. Caderno ANEXO p.03

Para falar de amor é preciso falar de saco de sal e de limão. Lembro de minha avó dizendo que só sabe o que é amor quem já comeu um saco de sal juntos. Roda por aí que amor é quando alguém te dá um limão e você faz uma limonada. É engraçado. Eu posso dizer que amor é quando a gente faz um poema para alguém. Quando alguém faz uma música para alguém, dizem que é amor. Quintana disse: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi cantou o amor. “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. Dizem também que amor é tirar da sua boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. Mas o que é o bem, não é? Sabe lá. Amar é discórdia. Lacan dizia: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Concepção irresistível de tão linda. Eu amo.Tu amas. Ele ama. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. E dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Amar é sofrer. Amar é quando se ri junto e então um olha dentro do olho do outro, e ri mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bola. Incrível! Dar um tapa na cara por vezes é amar. Morrer de ciúme. Escrever. Lavar uma pia cheia de louças. Cozinhar. Tirar um cisco do rosto de alguém. Um bichinho, uma folhinha. Até um cabelo teimoso que entra na frente do olho. Matar uma barata. Sair de cena. Entrar em cena. Abrir a janela e jogar as tranças. Eu te amo Rapunzel! Tomar veneno como os meninos de Shakespeare. É partir. É ficar. É cantar. Esconder coisas para alguém achar. Como um anel de brilhantes no meio de uma truffa? Pode ser. É escrever “Eu te amo, Sara” num outdoor daquela avenida onde ela sempre passa. É passar na frente da casa de quem se ama. Olhar. Divagar. Amar é divagar. Mas também é manter os pezinhos no chão, bem juntinhos de quem se ama. Amar é fazer e não deixar pegadas. É ver o rosto de quem se ama em outros rostos. É só pensar na pessoa. É se sentir uma pessoa. Amar é assustar a passarada no meio do caminho e se rir disso. Amar é apreciar o vôo de quem voa. Tremer enquanto o outro voa. Amar é tremer quando ela chega. Quando ele chega. É ficar sem palavra nenhuma na boca. Amar é beijar o rosto, a testa. É transcender o beijo que voa. É fazer a outra pessoa sentir que voa. Amar dá vontade de dar beijo na boca. É liberar a boca para dizer: Eu te amo. Amar é andar num metropolitano. É dizer, sou sim soteropolitano! Que me diz, Coriolano? Amar é fazer graça com as coisas, até com ideia de amar. Que é sim, apenas uma ideia que é sua e que é diferente da ideia de quem você ama. Mas são ideias de amor. Ideias de amar. E valem. Amor é não colocar preço. É colocar as cartas na mesa. É esconder o jogo. Amar é entrar no jogo. Abandonar o barco. Amar é dizer: Eu vou nadando. Sambando. Cantando. Eu vou com você. Amor é “eu & você” escrito no tronco da árvore. Ou na areia, que depois a água do mar lambe e é testemunha disso para sempre. Amar é testemunha que se cala. É um grito, de repente, no meio da sala. É colocar as roupas todas da mala e dizer: Adeus. Dizer Ah! Deus! Como eu amo! É, diante do tanto que nos assombra, lembrar coisas como o andróide que salva seu caçador em Blade Runner ( se você não assistiu, assista) e cantar de peito aberto como Maria Bethania, que tão lindamente cantou a música “Sonho Impossível”: “Sonhar, mais um sonho impossível”... Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz... E o mundo vai ver brotar uma flor do impossível chão”. Salve a força disso, que afinal, é amor também.

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