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A MATURIDADE

No dia 15 de fevereiro completei 18 de casamento. Há 3 dias. A gente fez uma festa bacana lá na praia. Nada demais. Alguns amigos que partilham da nossa amizade boa parte desse tempo, peixinho na brasa e um espumante para coroar. Ah, também uma torta de maçã que adoro: Tart Tartin. Já falei aqui sobre simbologias e o quanto isso faz parte da nossa vida. Até a maçã. Aquela das histórias de Adão e Eva. Da serpente. Que alivia dores de estômago. A maçã do amor. O afrodisíaco da coisa. Pouco antes da gente se casar, quando meus pais comemoravam 25 anos de casamento, eu escutei minha mãe comentar com uma amiga: “Se eu não tivesse ficado casada por 25 anos, não teria vivido para sentir a felicidade que estou sentindo hoje”. Na época eu não entendi. Esse preâmbulo é para dizer que hoje eu entendo. É uma espécie de reparação do meu próprio pensamento e entendimento das coisas. Porque quem está junto durante anos sabe que o dia-a-dia não é feito só de flores (como eu disse semana retrasada, é feito também de saco de sal, de limão, limonada e tanta coisa!). Meu casamento atingiu a maioridade. 18 anos. Isso é ridículo porque maioridade não vem com data marcada. Aliás, nada. Mas é simbologia de novo. A maioridade vem quando a gente investe nela. Percebe pequenas mudanças. Agrega coisas. Manda coisas embora. Dribla asteróides que caem por cima. Às vezes se recupera de bombas e coquetéis molotov. É uma espécie de mistério a convivência. Tudo que se troca. E vai constituindo um e outro. “Amor é quando a gente mora um no outro”. Sábio Quintana. É certo que não há garantias e nada é para sempre. Mas o que é pra sempre? Estou com Vinícius: que seja eterno enquanto dure. Djavan canta: “Só eu sei, os desertos que atravessei”. Foram e são muitos no decurso de uma convivência. Às vezes mais de um por dia. E quando eu me esqueço dos oásis que existem pelo caminho, algo me lembra. E então eu vejo. E vejo também as ilhas. Feito uma que tem lá na praia e demos um upgrade nela pra comemorar e simbolizar isso tudo. Eu quis colocar uma mesa na ilha. Bem embaixo da palmeira. Até o marcineiro abriu uma brecha na agenda e fez o serviço porque era para comemorar aniversário de casamento! As pessoas se encantam com o amor. Mas quero falar da mesa. Resolvi pintar nela uma reprodução da tela “A Dança” de Matisse. Uma imagem que me agrada há muito tempo e que representa tanto a vida. E partimos para a empreitada. Eu tracei as primeiras linhas. Fui esboçando o desenho e aos poucos o desejo de ter ele lá foi se concretizando. Enquanto isso ele adornava a churrasqueira com pinturas rupestres. Depois das tintas, os contornos, o verniz e o desejo estampado. A mesa em volta da palmeira família que plantamos quando chegamos aqui em Santa Catarina. Duas hastes tão pequenas que agora atingem uns 7 metros talvez. A gente vai crescendo juntos. Acomodando nossos desejos nessa vida-fagulha. Um dia de cada vez e um depois do outro. Para sempre e enquanto a gente quiser a gente vai talhando as coisas. Sobrevivendo à elas e ficando cada vez mais amigos. E amantes. E a gente vai olhando o em volta bem de perto. Sem medo. Vai crescendo que nem a palmeira. Até quando Deus quiser. Até quando a gente acreditar. Porque é também uma questão de crença numa intenção. Num desejo. Foi bacana nós e os amigos em torno dela. Em torno do desejo cristalizado. Da mesa e dos 18 anos de convivência. De ter os amigos queridos juntos da gente e desse desejo. Depois eu li um relato sobre a obra. Engraçada coincidência. Ele pintou o quadro em 1910. Nossa reprodução foi em 2010. Exatos 100 anos. Isso sim é maioridade. É beleza que transcende o tempo. Mas a gente segue ensaiando os passos do artista e o desejo de eternizar nossas construções. A vida é uma obra. A gente pincela daqui e dali. Joga um tanto de azul ali. Vai desenhando nosso infinito. Ponto por ponto. A gente dá para ele o tamanho que quiser.

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