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SOBRE ANIVERSÁRIOS E PRESENTES

Crônica publicada no caderno ANEXO do jornal A NOTÍCIA de Joinville em 21 de janeiro de 2010.

Na terça-feira, fiz 44 anos. O inusitado da condição desse ano me fez pensar sobre presentes. Não do tipo objetos, mas presentes “virtuais”. Pois são mesmo coisas “não palpáveis”. Falo de coisas que conectam mundos, pessoas, pensamentos, numa espécie de vida paralela. São coisas que nos chegam e nem podemos medir o quanto são “reais”, são canais e fluxos diversos e a interpretação do que podem representar é nossa. Não que eu normalmente não pense nessas coisas. Penso muito. E sou feliz com isso. Mas tirar o dia para ver assim é um pouco diferente. Meu marido viajando, minha família morando em São Paulo, e foi surgindo uma possibilidade em torno da ideia de, dessa vez, não fazer alvoroço com a coisa. Experimentar a sensação de estar só e estando só, ser. Estar na praia fez isso ser ainda melhor. Acordei e coloquei um CD que não escutava há muito tempo. Ouvir a voz da Fernanda Takai foi algo que desejei quando comprei. Ouvi então sua linda voz. Amo vozes femininas. Amo canções, amo cantar. E vi nisso um presente. Falando em música, na sequência ouvi um CD que uma amiga me deu semana retrasada, “KAIA N’GAN DAYA” do Gil. Dancei, curti. Presente. As duas coisas. Enquanto escrevia a crônica, o celular vez por outra tocava ou sinalizava mensagem: presente bom que indica pessoas lá longe conectadas com a gente. De súbito lembrei de uma amiga dos tempos do colégio que aniversaria exatamente no mesmo dia que eu. Ano passado ela me ligou após anos sem a gente se ver e se falar. Esse ano eu liguei. Ela ficou tão feliz! Foi presente pra mim a felicidade dela. Só pra não dizer que nenhum “presente efetivo” se apresentou, meu marido ligou logo cedo e perguntou se eu já tinha ido ver o cachorrinho que eu tanto que queria e que uma amiga avisou que tinha vindo uma ninhada. Ele, que não quer cachorrinho, sinalizou um desejo de partilhar comigo o meu desejo. Disse: vai lá, dá uma olhada neles, se gostar de algum você pega. Nem sei se vai dar certo, mas o desejo dele de partilhar isso comigo foi um presente. Outro presente foi estar presente no aniversário de minha afilhadinha, Beatriz, na semana passada. Que delícia de momento ver a alegria dela cantando parabéns e enamorada da mãe, olhando-a com doçura, entendimento. E ver a mãe, minha amiga querida, emocionada até a raiz dos cabelos com isso. Um presente esse amor. Um presente poder estar lá, partilhar isso, ver e sentir isso. Outra coisa que pensei, em meio à paz e dois dias de sol seguidos em São Chico, foi o quanto desejei durante a correria do ano passado, estar na praia, cuidar da minhas plantinhas, dormir na rede, ler os livros que separei pra ler, organizar as idéias, o material da faculdade. Descansar e me preparar para outro ano de informações, correrias, trabalhos... E finalmente, depois do alvoroço “fim de ano” tive essa oportunidade. Presente sem precedentes. E falando em presente sem precedentes, sem preço, sem tamanho, lembro da oportunidade que tenho toda semana, de partilhar com tanta gente um pouco sobre minha ideia das coisas aqui nesse espaço do jornal. Com esse de hoje, são 50 textos onde tive a rara oportunidade de experimentar, toda semana, a angústia e o encantamento de escrever. De fazer isso com compromisso, com dedicação, com amor e felicidade. Que presente é receber mensagens dos leitores e vê-los partilhando comigo algumas coisas que permeiam a vida da gente. Ter o leitor sempre na minha cabeça. Porque não há escritor sem leitor, não há cumplicidade sem compromisso, jogo sem troca. Esse contato é coisa sem preço. É presente. E eu agradeço enamorada. Bem, vou zarpando continuar essa “aventura presente” que é viver. Gil tá lá rodando no CD: “Dont worry about a thing, cause every little thing is gonna be alright”.

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