sábado, 16 de janeiro de 2010

SOBRE GAVETAS

Olá leitor! Mais um ano termina e outro começa. Esse ano eu caí com a crônica de Natal e do reveillon. Sendo uma pessoas fácil-fácil de enxergar o sub-texto das coisas que me acontecem (inclusive é verdade que muitas vezes enxergo o que não existe), logo pensei: isso quer me dizer alguma coisa... Dias assim nos chegam como possibilidade de organização que se apresenta e que a gente então aproveita para olhar melhor papéis e coisas que fomos amontoando. Organizar a vida e as gavetas. E aí me lembrei de uma crônica muito bacana do Antonio Prata, chamada GAVETA, onde ele fala dos pensamentos que surgem em meio à sua arrumação (precisa ganhar mais dinheiro, terminar seu romance, ler Proust, procurar um analista, arrumar uma secretária...), e que termina de modo surpreendente. Lembro um poema que fiz com o mesmo nome e, como ele, penso que somos sim o conteúdo de nossas gavetas. Elas nos definem e declaram de nós. Minha mente viaja rapidamente para a ideia do funcionamento cerebral organizado como arquivo de pastas suspensas, e daí (romântica que sou), começo a pensar não em arquivos e pastas, mas em gavetas. E tudo começa a tomar um sentido poético. Nós mesmos como lindas cômodas. Daquelas antigas, rococós, cheias de gavetas, gavetinhas e gavetões. Com pátina ou verniz, mas de madeira de lei, de tutano. Talvez pela carga de final de ano, talvez por romantismo, salto das expectativas futuras para desejos tão guardados que até cheguei a esquecer no decorrer dos anos. Vejo chamazinhas crepitarem e caio no presente. Porque o passado será o que eu fizer hoje e o futuro também. E as gavetas todas estão em mim. Uma porção delas. Umas eu abro todos os dias, outras eu tranco e jogo a chave fora, ou perco. Tem aquelas que eu queria caber dentro. Trancar por dentro e engolir a chave. Tem gavetas que guardam segredos e outras que são lindamente escancaradas ou desvendadas. Algumas são abertas sem que eu perceba, e então sou obrigada a olhar o que está lá dentro. Outras até nos esquecemos delas. Um dia abrimos e lá está a surpresa. Podemos jogar fora, ou quem sabe, descobrir um uso novo para aquele conteúdo. Certas gavetas ficam sempre tão aparentemente fechadinhas. Só os amigos especiais sabem que elas estão abertas. E então mostram pra nós o lá dentro. Tem também as que a vida abre. A gente até tranca e engole a chave. Mas a vida coloca explosivos... E elas começam a abrir e a gente começa a ver. Tão bom isso. Poder esquecer, lembrar, trancar, arrombar a fechadura, ver. Poder arrumar isso de vez em quando, ou toda semana, todo ano. Ou manter em ordem para evitar complicações. Ou virar tudo de cabeça para baixo – em cima da mesa da sala. Então, em meio à minha bagunça de 2009, repito a fala de Antonio Prata: “2010 que venha”! Gaveta não há de faltar! Além do que, caso resolva aguardar mais um tempo sem mexer nisso - eu adoro baús e cômodas cheias de gavetas – jogo tudo lá dentro. Quando possível eu abro. Deixo aqui o meu poema. (Ano que vem nos vemos.)  Que todos tenhamos um lindo início de ano. Nós e o conteúdo de nossas gavetas.


Gaveta

vasculho a gaveta do apartamento da rua boa vista

o fio retorcido envolve a lâmpada

quem sabe aquela que iluminou um dia escuro aqui na praia

depois que fizemos amor à luz de velas

um resto de fio para varal – aquele que te pedi

lembro das roupas que ainda esperam por ele

pregos, parafusos, tomadas,

se confundem com o pó de madeira

chaves, cadeados

um resto de veda rosca

não pode conter esse fluxo

duas luvas esquerdas, restos de fita isolante colados em

pedaços de papel

sacos plásticos, extensões

tento soltar, desfazer nós

mal posso distinguir nossa vida amalgamada.

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