quinta-feira, 3 de junho de 2010

CONVERSA DE AMIGAS

CONVERSA DE AMIGAS

Ela que sorri por detrás do amarelecido dos dentes agora movimenta as mãos sobre a mesa e me sorve com os olhos. O esmaecido do esmalte nas unhas e o dourado dos anéis crepitam. Semírames sorri embaixo dos dentes que carecem de tratamento e um bom aparelho ortodôntico. Mas suas prioridades agora são outras. Pagar a faculdade dos filhos e vê-los encaminharem-se bem. E versa sobre o mundo de ambos, seus sonhos e aptidões. Não ama um homem já tem muito tempo e diz não se importar com isto agora. Um dia se dedicará. Quando tudo estiver encaminhado, ela diz. Assim capturada, diante do pé de manjericão que se desdobra sobre si mesmo ela diz triunfante: “A sorte é que decidirá”. Diz que faltam alguns dias para que tudo se equalize. Diz em seguida “Para que tudo se desestabilize” e sorri. Digo que uma vez li algo sobre um espaço que ocupamos entre o terminar de dormir e o acordar. Thetaville. Lá só há espaço para quem domina o medo de continuar dormindo. Eu não tenho, ela diz. E pensa no seu amor, no espaço que um dia ele ocupará (um espaço tão grande que ela flutua). E então ela abre a torneira e fala. E tem muita água represada lá dentro. Semírames é assim. Como o pé de manjericão, ela se desdobra sobre as palavras que escapam da boca e que por vezes a surpreendem. E fala: “Eu disse isso”? Desejo mesmo ela tem de sair de dentro de si por 15 dias, desparafusar boa parte das roscas e deixar somente as essenciais. Apagar todas as luzes, todo abajur, lamparina e também soprar as velas. Ver o que pode enxergar só com a luz da lua (quando houver) e aprender a tatear seus escuros, seus silêncios. Vencer todas as camadas do cérebro, atravessar camadas do córtex, meninges e a camada dura. Vencer o osso. E o que pode haver de falha no duro dele. Procurar a ausência de cálcio. As porosidades. Desestabilizar os gradientes de concentração. Achar novas combinações. É como diz a letra da música que ela cantarola: “É preciso estar silêncio para eu não ficar aflito, mas dentro de mim tem um grito que não posso mais calar. Estrelas me respondam como eu posso descansar?” Diz que bom seria se “ausentar” e não mais através da palavra, mas da ausência dela, se desinstalar de antigos postos, de antigos pontos de vista. Até mesmo das miragens. Das fantasias. Do que pode haver de mistério. Se perder no trajeto, no que pode haver de imaterial, de rastro dissolvido no ar. De barroco. E olhar bem dentro de cada imperfeição. Amar cada falha. Ela fala e eu penso que “somos nelas”. Derivamos em como isso acontece. Aceitar as falhas. Os vazios. O que não é objeto de desejo, de consumo. O que tira de nós a própria possibilidade de ser. Ela queria estar mais calma, mas tem um rebuliço lá dentro. Diz: “Minha vida é um filme. deus? Ah, deve estar na primeira fileira, ao lado do diabo. Os dois rindo minhas angústias. Se eu não parar de acalentar os sentimentos que me invadem vou ficar invadida, inchada. Eu vou engordar de sentimentos! E não haverá remédio que me faça emagrecer depois. Vou explodir como a mulher daquela novela antiga. Mas agora não. Não é hora de divagar. E repete que um dia se dedicará. Quando tudo estiver encaminhado, ela diz. Eu sorrio sua força. Reluzimos nessas trocas.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

SOLIDARIEDADE: há em mim, há em ti

SOLIDARIEDADE: há em mim, há em ti
No último dia 18 comemorou-se o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Este ano, com a realização da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, que acontecerá entre os dias 27 e 30 de junho e cujo tema dá título a esse texto, pretende-se discutir e traçar novos rumos para a área. Na luta diária por uma sociedade sem manicômios, muitos são os desafios e as resistências a enfrentar. O Conselho Federal de Psicologia (CFP) defende a substituição do modelo manicomial pelo tratamento em liberdade e a perspectiva da participação social. Para tanto, apóia a Lei da Reforma Psiquiátrica (nº 10.216/2001) e luta pela efetiva implementação dessa política que exige a transformação de muitas outras políticas. Convoca a sociedade ao olhar e à ação solidária que possam garantir igualdade na diversidade e cidadania plena a todos os sujeitos. A Reforma Psiquiátrica propõe a substituição do atual modelo hospitalocêntrico de reclusão por alternativas como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), Residências Terapêuticas e Centros de Convivência, pondo fim ao enclausuramento sistemático. Eu me uno a essa luta e faço aqui uma singela homenagem a um grande homem que passou por essa vida e deixou um legado de riqueza, singularidade e amplitude. Essa homenagem segue também para Augusto, João, Matias, Isaor, Maria, Laura, Estamira....

Para Antonio Bispo do Rosário

Dizem que sou esquizofrênico. Dizem porque eu falo. Eu utilizo a palavra que para mim é ferramenta. Entende? A palavra é ferramenta. Expressa imagens, expressa códigos, expressa. E eu tenho muita coisa na minha cabeça. Dentro e mais dentro ainda. Querem me dopar para que eu silencie. Mas eu não aceito. Querem impedir em mim o que é alimento, substrato. Eu nego. Então eu produzo e mostro para eles. Eu mostro toda a potência. Eu mostro toda a intensidade e digo quem é meu mestre. Digo sobre a missão. Eu vim para revelar. E tudo que se coloca como barreira, eu salto. Eu salto as impossibilidades. A minha obra eu crio porque é necessário multiplicar. Eu conto as histórias para eles. Eu digo tudo. Mostro meu sistema, as coisas que interferem nas outras coisas e nelas mesmas e coisas novas que vão surgindo. É um processo. Só quem compreende pode penetrar. E é por isso que eu sempre exijo que respondam a pergunta: “De que cor você vê a minha aura?” É um código de acesso e eu tenho a senha. Alguns eu permito que entrem. Convido para participar comigo daquilo que vejo e sei. Mas eu dirijo. É como um ritual de adentramento. Tudo que eu tenho para dizer eu escrevo. Escrevo nos rótulos das embalagens variadas que faço. Escrevo nos meus bordados. Sim. Eu bordo nos tecidos as histórias que conheço e os lugares onde estive e vou. Eu bordo fazendo uma seleção de coisas e pessoas que devem ir também. As pessoas e coisas assim bordadas existem de uma maneira diferente. São nomeadas e são decorativas. E eu reflito sobre isso e sobre as coisas. Reflito sobre o fato de me nomearem e atribuírem. De me trancarem aqui nesse lugar. Mas eu decido ficar. Querem-me? Eu decido ficar. As vozes que ouço e posso distinguir eu recrio, assim como recrio a condição em que estou aqui. Eu vim para inaugurar outros mundos e tudo que me move é a fé. A fé e a voz que ouço e que transformo em palavras. Transformo nas palavras que escrevo. Pintado ou bordado eu escrevo. E escolho morar aqui onde estou. Eu moro num manicômio. Eu escolho estar aqui. Eu escolho o azul. E tudo que faço é para Deus. Por isso registro as coisas. As coisas desse mundo. Pois foi isso que ele me pediu quando enviou a mensagem: “Reconstrua o universo e registre sua passagem aqui na terra”. É o que faço. É por isso que utilizo o lixo que recolho do hospital. Utilizo restos. Inclusive panos e trapos. E bordo. Porque o universo só pode ser reconstruído a partir do que existe nele. Do que os homens utilizam. E das mulheres. Fiz mantos para elas. Mas é preciso deixar claro que tudo que faço não faço para os homens, mas para Deus. E as vozes que vêm lá de longe e que eu ouço me ajudam e orientam a retomar com intensidade essa construção, essa imprevista experiência onde os outros todos estão convidados a discursar comigo. Porque estou submetido e retratando o dualismo deles. Que é meu também. Mas eu mostro. Jogo a pedra e não escondo a mão. Minha mão é azul. Assim como o rastro que fica atrás. E a senha. Azul.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

PRESENTE, PASSADO E FUTURO

PRESENTE, PASSADO E FUTURO

Nos últimos dias, o assunto FUTURO foi a tônica de conversas ao sol, à sombra, desfrutando da beleza do mar de um lado, do rio do outro e de pássaros desfilando seu voar. Já é passado. Mas a sensação mora em mim ainda. Bem perto. E foi futuro, quando segui para São Francisco esperando passar momentos assim. Do que se trata o futuro, afinal? E “aonde” mora esse surpreendente cavalheiro que açoita nossos pensamentos e brinca com nossas expectativas?


Para uns o futuro está logo aqui, esmurrando a porta e pegando de surpresa:


- mas já! Puxa... eu achei que teria tempo de me arrumar, de guardar dinheiro, de gastar dinheiro! Mas eu nem arrumei a casa, nem comprei o adaptador para tomada trifásica. Mal tive tempo de instalar o fio terra! Ah... Se eu soubesse. E agora, meu Deus! O que faço?


Para outros a visita nunca chega. São minutos, horas, dias, anos inteiros de espera e o dia a dia da mesma constatação:


- Não, ainda não. Estou esperando uma estiada no trabalho. Aí eu faço. Nas férias eu farei: vou ler isso tudo. Assim que ela chegar eu direi o que está entalado aqui dentro há anos. Quando eu me aposentar vou cuidar disso. Se eu nascesse de novo eu iria...


E ainda há os que ignoram o futuro:


- Futuro? Eu não penso nisso. Minha vida é agora e amanhã sabe lá! Preservar o planeta pra quê? Nem filho eu tenho! Quero é meu banho diário de meia hora. Isso sim. Guardar dinheiro não! Para quê? Para pagar meu caixão? Quando acontecer o pessoal se vira... Quero é aproveitar tudo!


É engraçado. A mim parece que passado e futuro são coisas relativas a um mesmo ícone. Ao Presente. Ao desejo que nos move aqui e agora. Pra lá, pra cá. Pra ficar parado também!


O que será o passado, senão o que fizermos hoje?


O que será o futuro, senão o que fizermos hoje?


Absolutamente ambos referem-se às nossas ações hoje. O que fazemos hoje transforma-se em “ontem” 5 minutos depois. Aliás, numa fração de segundo já vira passado. O que desejamos agora e nos move, em segundos também já é futuro. Ontem e amanhã. Ambos maravilhosos e impalpáveis. Tudo que temos é o desejo que nos move nesse exato segundo. É o hoje. E o nome do hoje é “Presente”.


O que é o presente senão algo que nos dão ou vamos lá pegar e transformamos, lemos, odiamos, amamos, exploramos, doamos? O que é “Presente” senão algo que nos surpreende quando tiramos o laço e abrimos a caixa? E daí choramos, corremos para o abraço, sorrimos, cantamos?


Gostamos de pensar de onde viemos e para onde vamos. É assim desde que o mundo é mundo. A grande dúvida que move o homem em sua trajetória pelo presente. Isso não significa que não devemos considerar o passado, olhar para ele com desmedido amor. Não significa também que não devemos sonhar, pensar o futuro, trabalhar por ele. Mas o presente é a única realidade possível. Uma realidade onde podemos dar voz à nossa vontade para escrever o que um segundo depois será passado e desenhar o futuro antes mesmo que ele aconteça. Desenhar o futuro que depois será escrito. E o maravilhoso dessa mistura, é que pensar no futuro, fazer planos, se preparar, o que quer que seja, além de alterar nosso presente, muda a imagem de passado que podemos prever caso as coisas não se alterem... Não é assim o cuidado com o meio ambiente? Você pensa o que pode significar a falta de água no planeta (perspectiva bem provável!), então procura economizar um pouco no seu presente. O que acontece? Talvez tome banho todos os dias até seu derradeiro dia! Será esse o futuro. Porque desenhamos desse jeito no presente. Não é?


Então... Façamos lindo nosso presente. Cada segundo já passou. Não vê? Passou nesse instante. Então, se você vem sentindo o tempo escorrer por suas mãos, só por hoje, sorria, cante, abrace, fale mais baixo, mais alto. Coma direito, tome água. Adote um animal. Uma criança. Uma causa. Lute. E ponha pra tocar Raul e cante com ele em frente ao espelho, sorrindo pra você mesmo: “Tente! Levante sua mão sedenta e recomece a andar! Não pense que a cabeça agüenta se você parar! Não, não, não, não. Há uma voz que canta, há uma voz que dança, há uma voz que gira bailando no ar”. Queira!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

CARTA DE EMA PARA GERTRUDES

CARTA DE EMA PARA GERTRUDES

Querida Gertrudes,


Na última carta você me perguntou sobre as palavras que escrevi para aquela pessoa. Não sei se poderei explicar, mas tento. Queria muito mesmo falar com ela, e como não houvesse possibilidade, comecei a escrever. Foi tomar a caneta em minhas mãos e as palavras começaram a riscar o papel - como a formar desenhos que me antecipavam – diziam de mim e eu mesma não sabia. Não saberia dizer como elas nasceram. Se de mim, se da caneta ou mesmo se já habitavam algum espaço antes de estamparem o papel. De tanto não poder afastar de mim esse sentimento, talvez as palavras tenham resolvido me criar. As palavras me criando. O texto me percebendo logo que a caneta riscou as primeiras palavras e outras foram surgindo, se encadeando como uma grande corrente. Elas me criando e eu seguindo por caminhos que ora eu advinhava e ora advinhavam a mim. Me antecipavam as palavras.... Você acredita? Você me perguntou que sentimento é esse? Oh, eu não direi que é amor! O que é o amor afinal, não é minha amiga? Digo apenas que tenho me ocupado disso. De vivenciar esse sentimento. Se prefere, de amar. Dionísicamente. E vou me perdendo e me encontrando em meio às pinturas que crio. Me perco em meio às tintas. Tantos azuis, laranjas e outras que se misturam. Me perco em meio à minha própria imaginação e lá vou me achando. Li que Einstein dizia que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Estou bem, então, não acha? Parece ser essa a lógica. Pensamentos e imagens vão se formando a partir dos devaneios e quando vejo está lá tudo escrito. É uma forma de, quem sabe, sonhar acordada. Sim, porque a consciência nunca me escapa. Mas deixemos disso por ora. Quero saber de você. Como andam as arquiteturas? Anda poetizando essa cidade com seus desenhos? A arquitetura é um jeito de fazer poesia em três dimensões, não acha? Uma obra. Se bem filosofada vira arquitetura, se bem construída vira poema. Lembro de alguns dos seus desenhos. Da força que imprimia no traço. Eu olhava e via pura poesia. Preciso confessar algo. Promete que guarda junto com os outros? Vendi todos os livros da Isaura e usei o dinheiro para pagar o débito com o cartão de crédito. Acha justo ela me impingir esse peso? Eu cansei de carregar essa menina sobre os ombros. Não mereço isso, não é verdade? Mas não diga nada. Quando ela se dignar a me fazer uma visita e perguntar por eles, eu digo. Não lia aquilo tudo quando estava aqui, não é agora que vai ler. Quem leu fui eu nesses anos todos da ausência dela. Se não é você para dividir meus destemperos eu teria enlouquecido. Se ela quiser saber de algo, que me pergunte, não é? A biblioteca de Isaura mora em mim  agora. Quem sabe é um meio para ela conversar um dia comigo. Tudo que estava nos livros agora trago tudo dentro. Inclusive os pensamentos de Nietzsche. Também “O Príncipe”, de Maquiavel. Conte quando pretende vir. Vamos arquitetar as palavras e poetizar a vida. Sua sempre amiga, Ema.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A BATUTA DO MAESTRO

A BATUTA DO MAESTRO

Dias atrás eu vi na TV Senado, no programa “Conversa de Músico”, o bolero de Ravel numa apresentação da Orquestra Filarmônica de Viena no Palácio de Schönbrunn. A regência era feita por criatura belíssima. A alma toda à mostra. O sorriso, o olhar e as expressões arrebatavam a orquestra que vibrava sob sua batuta. Vez por outra um deles solava e os outros silenciavam. Era um espetáculo de compreensão. Reviveram juntos Ravel e depois Strauss. Confesso que vibrei. O maestro belíssimo, os cabelos feitos em muitas trancinhas que escorriam sobre o terno impecável. Barba e cavanhaque grisalhos preenchiam o sorriso de cadência. Elegância e sutileza de gestos, conduzindo o grupo, e todos juntos arrebatando a platéia que tomava os jardins do palácio. Um grande espetáculo. Diverso, genuíno. Bem humorado. Sem fronteiras ou divisas territoriais, étnicas ou políticas. Sem fronteiras para tocar a alma. Quem conhece talvez saiba de quem estou falando. Um homem-banda, como costumam dizer. Com a voz ele produz algo que não é, senão, poesia pura. A melodia, a linha de baixo por onde a música passeia, o tema, o ritmo – tudo passa por ele e pelo corpo que canta junto. É um nome de peso do jazz contemporâneo. Discos, shows, performances e diversos prêmios. Alguns: melhor performance vocal masculina de jazz por Another Night in Tunisia (1985), Round Midnight (1986), What is this thing called love (1987) e Brothers (1988), melhor arranjo vocal para duas ou mais vozes por Another Night in Tunisia (1985) e melhor gravação para crianças, por The Elephant´s Child (1987). Improvisa sobre obras musicais com genialidade e encanto. E faz essas escolhas, como li num texto da assessoria de comunicação da TCA, “randomicamente” a partir de seu universo de canções. E parece ser mesmo assim. O homem traz em si um universo. Inglês radicado em Nova Iorque, filho de Robert McFerrin, barítono operístico e o primeiro cantor negro de prestígio na ópera. Com a música Don´t worry, be happy, o artista recebeu o Grammy de 1988: música do ano, melhor performance vocal pop masculina e disco do ano. (Recentemente a cantora Mart’nália fez uma preciosidade de trabalho em sua versão para a mesma música: acrescentou a ginga brasileira e uma outra forma de delírio sobre a bela canção). Ele brilha como maestro e compositor. Brilha nas performances e improvisações. E é um engajado porta-voz em prol da educação musical nas escolas. Como disse o The Los Angeles Times, “O maior presente de Bobby McFerrin para seu público talvez seja o fato de transformá-los de espectadores em celebrantes e mudar a sala de concerto em playground, um centro de aldeia, um espaço alegre.” Quem entende diz que ele possui alcance de quatro oitavas. Entender eu não entendo... mas sinto o delírio que ele imprime e que contagia. Explora com propriedade a poesia que há no mundo e faz misturas, alquimias com a imensa variedade que recolhe da vida. Como maestro é outro assombramento. Seja na dança da batuta, em suas expressões, ou no movimento do corpo; ele transporta a música de dentro de si para a orquestra que vibra em sintonia, comunga com o público arrebatado. Nessa apresentação com a Orquestra de Viena os músicos sorriam, captavam, entravam na viagem de descobertas e improvisos de Bobby. Uma surpresa boa que tive. Sei lá quanto tempo passei ouvindo aquilo tudo. Sentindo aquilo reverberar sem pré-conceber ou julgar. Simplesmente me deixando levar pelo entusiasmo dele, por sua entrega visível. Se já escutou, sabe do que estou falando. Mas se não, tente. Escute a regência dele para o Bolero de Ravel, caminhe por aquele “crescendo” hipnotizador. Deixe-se render por esse assombro e depois... Don’t worry, be happy.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PONTOS DE CULTURA EM SANTA CATARINA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville. caderno ANEXO pag.03 em 08 de abril de 2010.

Olá, leitor. Depois do contato emocionado que tive com diversos Pontos de Cultura espalhados pelo país e vi de perto a teia por onde um grande cordão de cultura viva se estende, volto aqui para falar um pouco mais do programa Cultura Viva do Governo Federal. Fiz uma pesquisa para saber um pouco como isso acontece em Santa Catarina.

Atualmente são em torno de 60 Pontos divididos entre Xanxerê, Vargeão, Passos Maia, Jaguaruna, Fraiburgo, Seara, Campo Erê, Formosa do Sul, Palmitos, Laguna, Joinville, Maravilha, Araquari, Sombrio, Rio do Sul, Penha, Barra Velha, Pinhalzinho, Joaçaba, Canoinhas, Tubarão, Lages, São Francisco do Sul e Florianópolis. Há disponível na internet uma relação dos Pontos conveniados: “Multiplicando Talentos” em Criciúma, “Música no Planalto” em Curitibanos, “Fotografia para Todos” em Blumenau, “Dança Folclórica Alemã” em São Bonifácio, “Formas Animadas” em Itajaí, “Guerreiros do Amanhã” em Braços do Trombudo, “Cultura Solidária” em Fraiburgo, “Consciência Negra” do Vale do Itapocu e muitos outros. Associações de apoio à Criança e ao Adolescente, de apoio aos Idosos, Teatro, Arte Carijó. Isso estabelecido e já em andamento.

E cada um de nós sabe que há muita demanda nesse país tão rico. Parodiando a fala do secretário da Cultura eu diria: vamos desesconder o sul? Tem muita coisa boa por aqui que necessita ampliar-se e cruzar fronteiras. O Brasil não é só São Paulo e Rio de Janeiro. A capital de Santa Catarina não é Curitiba. Há isso e muito mais e certamente muita coisa acontecendo que ainda não foi listada. Isso dá uma dimensão da demanda existente no estado e no país.

O ministro Juca Ferreira esteve em Florianópolis e na ocasião conversou com artistas e produtores no sentido de discutir políticas públicas para o setor e também as demandas existentes. Um círculo de fortalecimento cultural no Brasil. Temos talentos no país – como os do mundo animação, citados pelo Ministro. Talentos que inclusive exportamos para outras partes do mundo. Alegria de viver, inteligência corporal, capacidade de lidar com a diversidade – características que interessam ao mundo todo. A alegria e a força do nosso fazer potencializa nossas ações e temos de tirar proveito disso ao invés de copiar cartilhas e manuais americanos e europeus. Eles mesmos querem aprender conosco. Descobrir de onde extraímos “nosso jeito”. Mas é preciso pensar nesse sistema como algo mais complexo. A institucionalização da cultura com infra-estrutura dada pelo Estado para garantir a continuidade das atividades que se vêm implementando. Sempre lembrando que a coisa deve ocorrer sem paternalismo.

A base deve estar no talento e o apoio é alavanca para tirar da inércia. Há que se trabalhar com parcerias entre os municípios, os estados, a federação e a sociedade civil para expandir e garantir a continuidade desse objetivo. Não é só votar.

Como disse Juca Ferreira, há mecanismos de participação da sociedade que devem ser acionados. Ele coloca que nessa questão da cultura há três dimensões: uma de Cultura enquanto fato simbólico, criando condições para ganho de significado pleno, legitimada; a segunda se refere ao direito de cidadania e acesso à cultura e a terceira é a cultura como economia, a que mais cresce no mundo, não polui, é democrática e não tem no Brasil reconhecimento necessário. E é uma economia que se desenvolveu espontaneamente. Tem potencial. Tem demanda. Tem mercado. Um incentivo à economia da cultura está lançado. Tem muita gente já trabalhando nisso aqui em Santa Catarina. Vamos nos juntar a eles atrás de “desesconder” o potencial catarinense? Vamos acreditar e ter otimismo. E trabalhar. Além de todo o bem inerente, ainda melhoramos nosso sistema imunológico. E tiramos os véus. Por isso o Secretário de Cultura Célio Turino, autor do projeto, fala em potência e afetividade como base do movimento. Porque é um movimento que nasce do povo e é potencializado pelo Município, pelo Estado, pelo País. E aí ninguém segura mais a gente. Somos um.

A roda de prosa “Pontos de Cultura e Gestão compartilhada: um outro mundo possível na gestão cultural” teve espaço em Porto Alegre no Fórum Social Mundial. O Pontão Digital Ganesha, de Santa Catarina, instrumento de promoção de intercâmbio e difusão de cultura brasileira, também participa da ação e tem feito sua parte para a continuidade do projeto e a transformação das ações em política pública permanente. Também a UFSC é um Pontão. Isso é troca. É envolvimento. É o Sul se ampliando. São atuações para um mundo possível. Na costura das diversas redes espalhadas a cultura terá então o poder de transformar e fazer isso de forma sustentada. A partir de agora o Ministério da Cultura deve lançar novos editais. Vamos ficar de olho nisso e nesse movimento? Só temos a ganhar. Nós e o Brasil.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

TEIA 2010 - TAMBORES DIGITAIS

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville. caderno ANEXO pag.03 em 01 de abril de 2010.

Caro leitor, depois de meu vôo escalar sobre São Paulo e Brasília, finalmente cheguei em Fortaleza; de onde escrevo para contar as novidades da Teia 2010 – Tambores Digitais.

O Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania – Cultura Viva é um programa do Ministério da Cultura, do Governo do Brasil, e que de acordo com seu idealizador, Célio Turino, Secretário de Programas e Projetos Culturais, nasce do desejo de desesconder o Brasil, conhecendo fenômenos em ebulição e construindo conceitos que se moldem em contato com a realidade viva. E desesconder é coisa linda, não é? Carrega tudo dentro.

Funciona assim a ideia de Célio, posta em prática na gestão de Gilberto Gil , agora continuada pelo Ministro Juca Ferreira, e que envolve o trabalho de muita gente pra continuar dando frutos por esse Brasil: através de editais cada região vai elegendo as entidades sem fins lucrativos para serem conveniadas como Pontos de Cultura; então, se você tem uma ideia, um trabalho que desenvolve, quer propagar isso e ampliar seu trabalho, há nesse projeto um caminho. Se selecionado, terá apoio para pulverizar seu trabalho, sua luta, sua causa, seu desejo.

Essa parceria entre Estado e sociedade civil é o Ponto de Cultura. Ao lado deles, o Programa Cultura Viva integra ainda: Cultura Digital, Agente Cultura Viva, Interações estéticas, Ação Griô Nacional, Escola Viva e outros. Projetos irmãos que ampliam esse desejo. O entusiasmante é a grande TEIA que se tece em torno de desejos diferenciados, mas que no fundo são um só: difusão e fruição de cultura onde os parceiros são agentes culturais, artistas, professores, militantes e todos que enxergam na cultura um modo e uma filosofia de vida. O desenvolvimento e a aproximação entre os Pontos de Cultura propiciam compartilhamento e troca, onde um Ponto apoia e auxilia outro Ponto; e assim vai se configurando uma rede sem demarcações hierárquicas ou geográficas, onde os contatos ocorrem através de ações pautadas a partir das necessidades e ações locais na busca de sustentabilidade e emancipação. Uma ideia de “menos receitadores e mais educadores”.

Tem muita coisa para falar desse projeto. Muito ainda a se conhecer. Quem quiser maiores informações pode visitar os sites http://culturadigital.br/teia2010/ e http://www.cultura.gov.br/culturaviva/. Aqui importa relatar a importância do feito, a beleza e amplitude da ideia. Como bem colocado por Célio numa coletiva à imprensa, o Cultura Viva é, acima de tudo, potência e afetividade. E na TEIA 2010 isso ficou muito claro: generosidade intelectual e trabalho colaborativo. Todos agentes de um processo, tecendo o grande organismo pulsante que é a Nação, visualizada no cortejo que desfilou pela beira-mar em Fortaleza: um cordão de CULTURA VIVA que atravessou os sentidos dos presentes ecoando em outros que serão levados para casa e ampliando um pouquinho mais essa ideia. Mas, como nem tudo são flores, a coisa é política: demanda envolvimento e comprometimento da sociedade. As administrações mudam e é preciso que se vá além de uma política de Estado.

É preciso transformar o Cultura Viva em política pública permanente para que o germe dessa ideia se propague. Para que efetivamente se construa vivência e modo de fazer de acordo com a diversidade que permeia nosso país. Buscar microsoluções que fortaleçam as redes sociais e sedimentem esse germe que fez e faz disparar tantos corações. É assim que se dará o mergulho para “desesconder” o Brasil e seus talentos, de norte a sul, de leste a oeste e também no meio.

Isso tudo destaca, que entre os diferentes tipos de discursos que podemos localizar no nosso dia-a-dia, a grande ação possível refere-se à ampliação de nossas falas e ações, no sentido não dos indivíduos serem pensados e falados, mas o contrário. Porque quando se cria um saber para além daquilo que é proposto e dado como legítimo, quando se colocam dúvidas e questionamentos sobre saberes e fazeres propostos, abre-se a possibilidade para novas lógicas. Para novos discursos. Criam-se rachaduras por onde podem romper novas falas, vindas de atores sociais até então desconhecidos, que dizem respeito ao saber concreto do cotidiano vivido e trazem a possibilidade de mudança e de novas descobertas. Procure saber mais sobre o projeto.

Em São Francisco do Sul há um Ponto de Cultura. E tem muita gente gravitando em torno dessa ideia germe. Trabalhando por ela. Fazendo acontecer. Porque a ideia morre na praia se não trabalhamos por ela. Vamos “tomar a palavra” e criar fissuras no sólido. Vamos ser agentes desse país tão diverso. É um caminho repleto de contradições e de dificuldades como tempo, dinheiro e principalmente do exercício de participação, mas, ao invés da reclamação vazia, é realmente preciso construir novos saberes, novas práticas e novas consciências que possam gerar ações mais instrumentalizadas. Porque só assim a gente pode mudar de faixa. Só assim a gente rompe com as couraças e introduz o novo. Onde quer que seja e haja vida. É preciso criar fissuras. Daí derivam as ações que nos transformam em agentes, que configuram e modificam nosso “ao redor”. Vamos ser agentes?

Postagem em destaque

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

http://metropolitanafm.uol.com.br/novidades/entretenimento/imagens-incriveis-mostram-a-realidade-das-bailarinas-que-voce-nunca-viu...