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A BATUTA DO MAESTRO

A BATUTA DO MAESTRO

Dias atrás eu vi na TV Senado, no programa “Conversa de Músico”, o bolero de Ravel numa apresentação da Orquestra Filarmônica de Viena no Palácio de Schönbrunn. A regência era feita por criatura belíssima. A alma toda à mostra. O sorriso, o olhar e as expressões arrebatavam a orquestra que vibrava sob sua batuta. Vez por outra um deles solava e os outros silenciavam. Era um espetáculo de compreensão. Reviveram juntos Ravel e depois Strauss. Confesso que vibrei. O maestro belíssimo, os cabelos feitos em muitas trancinhas que escorriam sobre o terno impecável. Barba e cavanhaque grisalhos preenchiam o sorriso de cadência. Elegância e sutileza de gestos, conduzindo o grupo, e todos juntos arrebatando a platéia que tomava os jardins do palácio. Um grande espetáculo. Diverso, genuíno. Bem humorado. Sem fronteiras ou divisas territoriais, étnicas ou políticas. Sem fronteiras para tocar a alma. Quem conhece talvez saiba de quem estou falando. Um homem-banda, como costumam dizer. Com a voz ele produz algo que não é, senão, poesia pura. A melodia, a linha de baixo por onde a música passeia, o tema, o ritmo – tudo passa por ele e pelo corpo que canta junto. É um nome de peso do jazz contemporâneo. Discos, shows, performances e diversos prêmios. Alguns: melhor performance vocal masculina de jazz por Another Night in Tunisia (1985), Round Midnight (1986), What is this thing called love (1987) e Brothers (1988), melhor arranjo vocal para duas ou mais vozes por Another Night in Tunisia (1985) e melhor gravação para crianças, por The Elephant´s Child (1987). Improvisa sobre obras musicais com genialidade e encanto. E faz essas escolhas, como li num texto da assessoria de comunicação da TCA, “randomicamente” a partir de seu universo de canções. E parece ser mesmo assim. O homem traz em si um universo. Inglês radicado em Nova Iorque, filho de Robert McFerrin, barítono operístico e o primeiro cantor negro de prestígio na ópera. Com a música Don´t worry, be happy, o artista recebeu o Grammy de 1988: música do ano, melhor performance vocal pop masculina e disco do ano. (Recentemente a cantora Mart’nália fez uma preciosidade de trabalho em sua versão para a mesma música: acrescentou a ginga brasileira e uma outra forma de delírio sobre a bela canção). Ele brilha como maestro e compositor. Brilha nas performances e improvisações. E é um engajado porta-voz em prol da educação musical nas escolas. Como disse o The Los Angeles Times, “O maior presente de Bobby McFerrin para seu público talvez seja o fato de transformá-los de espectadores em celebrantes e mudar a sala de concerto em playground, um centro de aldeia, um espaço alegre.” Quem entende diz que ele possui alcance de quatro oitavas. Entender eu não entendo... mas sinto o delírio que ele imprime e que contagia. Explora com propriedade a poesia que há no mundo e faz misturas, alquimias com a imensa variedade que recolhe da vida. Como maestro é outro assombramento. Seja na dança da batuta, em suas expressões, ou no movimento do corpo; ele transporta a música de dentro de si para a orquestra que vibra em sintonia, comunga com o público arrebatado. Nessa apresentação com a Orquestra de Viena os músicos sorriam, captavam, entravam na viagem de descobertas e improvisos de Bobby. Uma surpresa boa que tive. Sei lá quanto tempo passei ouvindo aquilo tudo. Sentindo aquilo reverberar sem pré-conceber ou julgar. Simplesmente me deixando levar pelo entusiasmo dele, por sua entrega visível. Se já escutou, sabe do que estou falando. Mas se não, tente. Escute a regência dele para o Bolero de Ravel, caminhe por aquele “crescendo” hipnotizador. Deixe-se render por esse assombro e depois... Don’t worry, be happy.

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