quinta-feira, 22 de outubro de 2009

SOBRE ESPAÇOS, AUSÊNCIAS E COISAS PARA SE FAZER







Espaço. Um pedaço de margem branca depois que acaba o texto. Entre um texto e outro também pode ser. Espaço pode ser grande, mas é bom você delimitar. Espaço numa fita para gravar músicas. Como as cassetes de outro dia (porque o espaço entre hoje e o tempo das fitas cassete é muito pequeno). Agora é o espaço do CD, ou do pen-drive e outras tecnologias. É engraçado lembrar das fitas cassetes. O gravador fazendo aquele barulho para rebobinar. E quando a fita enroscava? Ah, era engraçado. Espaço é o que pode haver entre as pessoas quando elas estão com humor alterado. É o que você dá para as pessoas quando permite que entrem na sua vida. Espaço é onde os astronautas flutuam; os planetas todos orbitam no espaço. Espaço é um lugar que você precisa ocupar pra fazer algo melhor. E diz: -

me dá mais espaço, por favor. Espaço é o branco do papel, qualquer branco que se queira ou precise vencer. A tela do artista em branco ou não, é espaço. A casa inteira é espaço para a criança correr. Quarto é um espaço onde alguém pode morrer. Espaço é qualquer fresta por onde a luz entra no tubo de revelação e queima o filme fotográfico. Espaço é um lugar numa cama para uma pessoa. Mas pode caber mais de uma também. Espaço é algo para onde as coisas vão: pessoas também. - Foi pro espaço! No espaço as coisas desintegram. Espaços são outros endereços, novos endereços onde podemos morar. Espaço é um tempo que você arruma para alguém: - assim que possível. Espaço é um lugar onde você guarda idéias impossíveis. Um lugar onde moram nossas interpretações. É o que há ou não no freezer quando você quer colocar lá uma bandeja para fazer gelo, ou uma vasilha com feijão pra você comer daqui a 15 dias. É o que há de vazio no seu guarda-roupa quando você olha e diz: não tenho roupa para ir! Espaço é algo que se pode ocupar com letras. Espaço de alguém que você usa para escrever. Como esse. Um espaço onde cabem aproximadamente 3.500 caracteres, um título e uma ilustração. Cabe também a propaganda de ar condicionado logo abaixo. Espaços vendidos. Espaços comprados, cedidos, que podem ser tirados e oferecidos. Espaço é um lugar que a gente ocupa. Toda a gente. Os objetos também. Como os jornais, que ocupam um espaço sobre a mesa, um espaço na vida dos leitores de jornal; e as pessoas dizem que com tantas novas mídias o jornal nessa forma que conhecemos um dia vai acabar. Não acho. Espaço é um trecho que os corredores de fórmula I percorrem de 0 a 300 Km em menos de 10 segundos. É um lapso de tempo onde você olha para o seu parceiro enquanto trabalham cada um no seu computador e ele te olha com um sorriso maroto e você pergunta: - Que tá me olhando? Você ama nós dois trabalhando juntinhos ou quer um pedaço da minha pizza? É o tempo que ele leva pra dar a resposta que vem na forma de um sorriso. Espaço é o que se cria de bom quando alguém sorri. É tudo que cabe no reflexo dos olhos. É o tempo que alguém precisa pra ficar sozinho e também com outro alguém. É um tempo que se leva até que a gente possa estar com alguém que a gente muito quer. E é tudo que a gente faz enquanto isso não acontece. É também o que a gente não faz. O que a gente não faz ocupa um espaço muito grande, por isso temos a sensação de ser insuportável. O que a gente faz às vezes torna as coisas bem pequenininhas e então a gente quer fazer outras coisas para encher o espaço que ficou vazio. Espaço é um lugar que a gente enche de fumaça quando a gente fuma. O pulmão é um espaço que fica cheio de fumaça quando a gente fuma. E o pulmão ocupa um espaço grande dentro do corpo da gente. Quando se deixa de fumar se abre espaço para outras coisas e o pulmão tem mais oxigênio para respirar. Espaço é a prova de redação que alguém deixou em branco e lá no final escreveu: “o que o lápis escreveu, a borracha apagou”. E dez tirou. Espaço ocupado com 3.774 caracteres é o que tenho até agora. É melhor parar. Espaço é o tempo que tenho que dar antes de surtar. Até semana que vem, querido leitor.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS CHEIROS








Crônica publicada no Jornal a Notícia em 06 de agosto de 2009.

Eu realmente tinha planejado falar de raviolli, mas desde a publicação da crônica de Adália e Quasar venho recebendo mensagens que me fizeram mudar de idéia. Muito bacana saber das histórias envolvendo cheiros de várias ordens. De perfume, de comida, de lembranças, de fatos. Esse negócio de cheiro dá mesmo o que falar. E embora cheiro de raviolli seja muito bom e traga junto cheiro de amigos em torno da mesa, trabalhando juntos, preparando a massa e comendo, me pus a pensar em outros cheiros. Porque cheiro é um modo de a gente se “orientar”. Também pode ser um modo de a gente se perder. Mas se a gente pode se perder, também dá pra se achar. Como “cheiro da casa da gente”. É bom esse cheiro. Dá conforto. Dá aconchego. Cheiro de beijo na boca quando começa a pegar fogo. Cheiro de roupas limpas secando no varal (nem precisa usar amaciante pra cheirar gostoso). Cheiro da roupa de alguém com restinho de perfume. Cheiro de mar. Cheiro do crepúsculo no mar. Alguns cheiros me marcaram. Como o cheiro do pão de queijo que minha avó fazia e escondia num tacho de cobre no armário do quarto. Pode? Era uma diversão. A gente chegava e ia fuçando, comendo pelas bordas. Ela dava bronca quando via o tacho quase vazio mas no fundo devia adorar o fato de a gente “adorar” os pãezinhos que ela fazia pra gente. Tem cheiro inesquecível. Como o cheiro da Ilha de Páscoa. Aquele pedaço de terra no meio do pacífico. Lembro de lá e já sinto um odor de terra virgem, de pura descoberta. E cheiro de café? De pão quentinho? Você coloca um pouco de manteiga e junto com o café fresquinho isso vira a porta do céu. Cheiro de “eu consegui! Eu consegui!”. E também cheiro de lugar errado. De hora errada. Isso sem contar o cheiro das situações que nos colocam em alerta: Cheiro de gás, de “acho melhor a gente se mandar”, “eles brigaram”, “que arapuca!”, “acho que isso pode nos prejudicar”, “aí tem armação”... E por aí vai. Ás vezes coisas que cheiram bem escondem ciladas. E tem cheiro que a gente sente que dá até náusea. Outros são apenas ruins, outros ainda, são tóxicos. Tem cheiro difícil de esquecer. Cheiro de gente dormindo na rua. Cheiro de gente cheirando crack. Cheiro de gente “se acabando” por dificuldades de todas as ordens. Cheiro de quando se passa em trechos de estrada que abrigam determinadas indústrias. Típico de fábrica de celulose. Cheiro de indústrias que jogam seus esgotos nos rios que temos, cheiro de residências que fazem o mesmo. Cheiro de falta de saneamento básico. De rio poluído. Cheiro de esgoto a céu aberto. Cheiro de descaso político. De falta de vontade política e falta de “panelaço” de uma sociedade civil não organizada. Esses cheiros a gente pode associar às coisas. Ou a gente deveria! Para o cheiro vir junto e ajudar a gente e todo mundo a não esquecer. Porque tem cheiro que definitivamente não é bom esquecer. É bom guardar na memória que chamam de não-declarativa ou de procedimentos. Aí na ocasião propícia, do voto, por exemplo, a gente lembra, associa e pode tentar uma opção que cheire diferente. Um cheiro que não cheire a pizza.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

DOIDA OU SANTA?




Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 08 de outubro de 2009.

Maria Angélica, que já completou 40 anos há algum tempo, sentada diante de um espelho, fica parodiando Adélia Prado. De tanto ler o poema já nem precisa mais do livro apoiado sobre suas pernas. Mas ele lá está. Olha mansamente a imagem instalada, invertida. Respira e diz o trecho do poema: “Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa”. Pensa no que Adélia teria pensado ao escrever aquilo. Em quem teria se inspirado? De todo modo é uma temática semelhante à que sente agora diante do espelho. Uma inquietação. Um desassossego diante da vida que se apresenta na mais absoluta impermanência. Sabe lá em que situação imagina o amor a arrebatá-la e ela mesma suspensa pela vida que não para. E ela envelhece enquanto pensa. E envelhecendo é arrebatada pelas dúvidas que não a habitavam antes. Pensa de que maneira poderá sucumbir ao amor que sente se não é mais jovem. Olha o livro sobre suas pernas. Não precisa dele, mas de algum modo quer subtrair a energia das palavras ali estampadas. Tem tudo dentro. Mas quer. Pensa de novo na poeta, nas palavras. Olha o desenho das letras. Inspira e repete: “De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?” No meio da idade quer definições. Sorri achando isso o retrato da adolescência. Sorri o caminho que andou até onde está. Todo ele. Com tudo que houve no meio. Sorri por tudo que há mais à frente e ela não conhece. Mas conhece outras coisas. Sabe que se quiser colocar toda essa impermanência à prova, terá que se deixar devastar por tudo o mais que vier junto com isso. Será doida. Se ao contrário, preferir evitar desilusões, optará pela abstenção. Será santa. Haverá algo no meio disso? Maria Angélica olha o sorriso no espelho. Olha o livro mais uma vez. Lê e declama num tom que não é outro senão a sua impermanência, a de Adélia, de Cristina, Luciana e outras.
“Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa. Eu que rejeito e exprobo o que não for natal como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão. Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua, os gerânios e ele serão os mesmos - só a mulher entre as coisas envelhece. De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?”
Pensa: Não sou doida nem sou santa. Sou poeta. Não há condições de não abrir a janela, escancarar a porta. Beijar quando ele me beijar. Sou assim mesmo exagerada, delirante, apaixonada. Fecha o livro e sorri mais uma vez. Adélia é porreta. E eu? Ora, sou por um triz a cada instante. Sou Maria Angélica. Filha de Augusto e Izabel. Mãe de Guilherme. Se quiser falar comigo, experimente bater na janela. Veremos como se resolve essa equação.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

S.O.S. RIO CACHOEIRA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 01 de outubro de 2009.

Sábado último, depois de voltar do Mercado Municipal com friozinho e chuvisco intermitente, no aconchego de casa dormi um soninho gostoso e sonhei. Sonhei com a capivara que tínhamos visto na margem do Cachoeira e que tanto nos impressionou; ela não era sobrevivente em meio a um esgoto a céu aberto; era sim habitante de um rio despoluído que cortava a cidade, margeado por calçadões, decks, árvores e jardins. Uma Cidade-Parque, onde natureza e seres humanos conviviam em harmonia. Andava sozinha e por vezes em pequenos bandos. Os filhotes a se engraçar na mata ciliar. E lá na parte de trás do mercado, onde os carros se juntam, era um outro espaço voltado para o rio vivo, para o desfrute. Mesinhas espalhadas e convívio. Muita gente ali, joinvilenses e turistas. E falando em esgoto e gente, dois conjuntos de banheiros, masculino e feminino, lá estavam para os usuários. Uma beleza, leitor! Banheiro limpo, papel higiênico, sabão líquido nas saboneteiras e papel para enxugar as mãos. O básico e elementar, não é? Mas no meu sonho eles estavam lá. Eu passeava por todos os espaços; o comércio de verduras, legumes, grãos e afins, que ocupava o térreo, era de uma beleza fotográfica. Lá se encontravam donos de restaurantes e cozinheiros de plantão buscando de um tudo. E tinha. A seção de pescados e carnes era de um movimento sem igual. Em cima, num novo mezanino construído sobre parte da área interna, a banda de chorinho encantava mais frequentadores, e dois ou três botecos serviam iguarias de tirar o ar. Gente falando alto, cheiro de vidas misturadas; uma atração. No espaço externo, no lado que faz face para a Beira Rio, muitas mesas ocupadas ao livre, nas sombras das árvores e também ao sol, o espaço repleto de gentes e gentes escutando rock, MPB e no outro palco, teatro, dança, poesia, estórias, performances e outras atrações. Nem havia espaço no estacionamento... Mas para quê, não é? As pessoas vinham mesmo caminhando pela Beira Rio e desfrutando o sábado na cidade-parque. Aliás, lá onde ficam as figueiras que na vida real um dia foram objeto de dúvida, elas lá estavam. Pois não é que decidiram mantê-las e criaram uma alternativa para a questão dos bueiros e tubulações? Fizeram contenções naquele trecho e tudo ficou bem? De modo que o calçadão estava repleto de pessoas caminhando no trecho “Alameda” da Beira Rio. Um orgulho da cidade. Em bancos espaçados alguns sentavam, tomavam picolé e ficavam a namorar a vida. Uns faziam cooper, outros passeavam de mãos dadas e alguns da caminhada já esticavam para uma comprinha no mercado, um instantinho de música, papo e encontro com amigos e mais desfrute, olhar o rio de perto, e as capivaras. Mostrar aos filhos o rio que passava sem gritar sua dor, sua falta de oxigênio, seu terrível odor, e contar como era bem o oposto há um tempo atrás. Agora as mesas repletas, o rio vivo e capivaras, garças e até o famoso jacaré desfrutavam. Vez por outra passava algum barquinho. Espiavam o movimento do mercado e seguiam... Foi então que comecei a escutar algo, como uma espécie de uivo, que foi ficando mais perto e eu percebi que era choro. Capivaras choravam as mazelas humanas, o rio chorava detritos, poluentes químicos e emanava um odor pútrido. As pessoas choravam. Choravam Joinville que chorava seu rio que chorava oxigênio que chorava descaso. Acordei incomodada com o úmido do travesseiro. Foi um sonho leitor. Era eu que chorava. Enxuguei o molhado do rosto e sentei para escrever esse texto. Alguns de vocês certamente sonham como eu. Vamos fazer virar verdade? Quem se habilita?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

DOMINGO EM JOINVILLE

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 24 de setembro de 2009.

Bom dia Joinville! Bom dia Flor do dia! O último domingo de inverno na cidade foi um domingo pré-primavera, de sol nascendo um pouquinho antes das 7 horas, e que eu tive a oportunidade de aproveitar por inteiro. Saí para fazer uma caminhada e entre tantas pessoas também caminhando, não é que passou uma senhora com dois botões de rosa nas mãos e me disse: Bom Dia! Feliz respondi: Bom Dia! Caminhei pela Rua Dr. João Colin desde a Rua Benjamin Constant até chegar ao Shopping Müeller e então segui até o Batalhão, contornei, andei um pedaço da Jacob Eisenhuth e retornei ao Shopping Müeller, onde parei para tomar um café. Sentei numa mesinha com sol no aconchegante espaço do Empório e me pus a pensar Joinville. Pensar a ideia dos parques. Joinville poderia ter um parque. É, poderia. Mas pensando nas pessoas que vi caminhando junto comigo, voltei a pensar na minha velha ideia da cidade feita em parque (já falei sobre isso em outras crônicas). Imagine o leitor a Rua Dr. João Colin arborizada! As pessoas tradicionalmente caminham lá. Muitas pessoas. Aposto que se sentiriam muito melhor num caminhar arborizado. Pensei isso especialmente quando voltava com o sol já quase a pino. João Colin, a rua que corta Joinville de Norte a sul mudando de nomes. A rua-parque com ciclovia. Estudantes, trabalhadores e passeadores presenteados. Lindo. Na volta encontrei uma amiga e fomos almoçar em casa. Comidinha, papinho bom e lá pelas três mais uma passeio ao sol. Ela precisava comprar umas coisinhas e paramos então o carro no BIG. Saímos do mercado a pé para antes das compras, tomar um cafezinho. Mais um pouco do sol a nos aquecer. Voltamos ao mercado e compras feitas, já quase cinco horas da tarde, lá mesmo no BIG, paramos para tomar um chopp no Quiosque Chopp Brahma. Escolhemos uma mesinha alta no lado que fazia frente para o sol que ia começar a se pôr. De novo pensei: Joinville não tem parques. É, não tem. E bem poderia ter! Mas enquanto isso não acontece, insisto: um novo olhar sobre a cidade é o que conta para transformá-la num grande parque. Cidade das Flores. Cidade das bicicletas. Cidade parque. Inicialmente é só plantar árvores nas vias. Não é possível ciclovia em algumas ruas? Que se possa circunscrever linhas para bicicletas nas calçadas ou deixá-las, como em Amsterdã, a circular livres por elas. Na rua é que não podem estar! E trabalhar os espaços públicos como espaços de lazer também. No nosso caminho para o café vimos o pátio do Centreventos Cau Hansen repleto de crianças e adultos. Andavam de skate, patins, empinavam pipas. Lembrei da minha infância no Parque Ibirapuera, eu mesma de patins a rodar no pátio do saguão de exposições. Não tem parque? As pessoas usam o espaço disponível! Por que então não trabalhar tais espaços com esse viés? Veja, terminei meu domingo no quiosque do BIG. Vista para o estacionamento. Carros por todos os lados. Mas tinha gente pegando filme na locadora, tomando lanche no BIG, namorando em baixo das árvores do estacionamento; e virando a cabeça a gente via aqueles que caminhavam na Beira Rio e as árvores da Beira Rio, e de frente pra gente, lá na frente, vendo o sol deitar ao fundo do skyline das montanhas, dando adeus ao último domingo do inverno. Poderia ter um parque? Poderia sim. Estamos aguardando por ele. Mas pode haver qualidade de vida enquanto isso, durante isso, depois disso.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

IDALINA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 17 de setembro de 2009.

Idalina, agora que vai completar 64 anos, pretende começar a trabalhar. Sempre viveu com os ganhos do marido e depois que ele se foi, vítima de um câncer na próstata, passou a viver da aposentadoria dele. O dinheiro - se não permite excentricidades como pagar a escola dos netos e ajudar um pouco a filha que sempre diz: Ah mãe. Eu queria era mais dinheiro. Aí eu seria feliz – tem permitido a tintura que recobre o branco dos cabelos, um ou outro presentinho para os netos e os filhos, e pagar as aulas de dança de salão que frequenta todas as quartas e sextas-feiras. Também o supermercado. Os remédios para a pressão e um dinheirinho que coloca todo mês em uma caderneta de poupança para fazer uma viagem à Itália. Um dia eu vou. Diz sorrindo. Enquanto isso tudo não acontece ela preencheu com cuidado a ficha para a vaga de emprego. Maria Idalina Silveira Castagnetti. Esteja em paz meu italiano amado. Ela pensa pensando no marido. Viúva. 63 anos. Sexo feminino. Casa própria. Obrigada meu Deus. Obrigada. Dois filhos. C.P.F., R.G. O espaço do número da carteira de trabalho fica vazio. Não por muito tempo. Todos os papéis foram providenciados e o moço de rosto surpreso, que é contador, e está preparando tudo, vem à mente de Idalina. Ele prometeu tudo pronto em dois dias. Depois disso ela entregaria na Escola ali perto de sua casa para finalizar o contrato de trabalho. Ela sorriu. Pensou que ainda poderia surpreender. Respirou. Não escondeu de si mesma os receios que sobrevieram. À sombra do marido por tanto tempo e os vazios que foram aumentando de tamanho. Aumentando até que ela não se enxergasse mais. Então um dia Francisco se foi e o espelho desceu no meio do quarto em que ela chorava sentada na cama. Bem à sua frente. E ela se viu como há muito não se via. Idalina se viu. Viu até as roupas que cobriam seu corpo. O pálido delas. Entregou a ficha para a diretora da Escola. Sorriram as duas. Nos vemos em duas semanas. Prepare-se. A tarefa será árdua. Sorriram outra vez. De volta a casa lembrou mais uma vez do dia do espelho. Do pálido. Foi até o armário e abriu todas as portas. Colocou tudo na cama. Separou, vestiu, olhou no espelho muitas vezes. No início da tarde tinha uma pilha de roupas para doar. Levaria até um Lar de Idosos que ela conhecia. Sobre a cama poucas coisas restaram que ela decidiu manter. Dia seguinte iria comprar roupas novas. Iria agora afinal. Tomou um banho que a encheu de mais vigores e foi. Já na rua sinalizou para o táxi que passava. Boa Tarde. Shopping Muller, por favor. Falaram do tempo como é de hábito nas conversas dentro de um táxi. Falaram da chuva incessante e do verão que viria afinal. Ah! Viria sim. Ela nem contou ao taxista, mas já estava dentro dela o verão que ainda ia chegar. E foi no meio do caminho, ou quase isso, na esquina das Ruas Visconde de Mauá e Benjamin Constant, que toda essa perspectiva iluminou eternamente Idalina. Ali mesmo o coração parou. Na alegria de tanta perspectiva, o peso da carreta sobre o táxi e muito vidro estilhaçado. No preto do asfalto, diante da multidão que se alvoroçou, o sangue que ela verteu caminhou indiferente, desceu até a Rua Blumenau e seguiu insistente até o Shopping. Em frente à escada rolante rodamoinhou junto com vento que soprava. Agora, nesse 13 de outubro que se avizinha, Idalina faria 64 anos. Táxi, táxi. Boa Tarde. Shopping Muller, por favor.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

TEMPORADA DE ALCACHOFRAS

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 03 de setembro de 2009


Eu gosto de rituais. De modo que nessa primeira crônica de setembro, mês onde, pelo menos em tese, vamos entrar na primavera, quero falar de um jantar especial, um jantar de ritual que fizemos nessa noite do dia 01. Um dia antes fomos ao supermercado. Compramos alcachofras. Como são “flores”, deixamos num vaso com água. Enfeitaram a cozinha por quase dois dias inteiros. Pertencem à mesma família dos girassóis e das margaridas, e formam campos lindíssimos em várias regiões da Europa. Dizem que na época do Império Romano era uma iguaria na mesa dos nobres logo depois do inverno. E é mesmo uma iguaria. Primeiro por sua beleza. Depois por tudo que contorna o saboreá-la. Há diversas formas de preparo, mas nesse dia optamos pelo modo mais simples e tradicional. Uma receita do sul da Itália que aprendi com meu sogro. Primeiro tirando seu caule e abrindo bem as pétalas para ficarem algum tempo de molho na água com vinagre. Depois aferventando num caldo aromatizado até que as pétalas possam ser descoladas suavemente. Então é só preparar um molho feito de vinagre, azeite, alho, sal, pimenta do reino e iniciar a festa. Pétala por pétala você vai tirando, passando a parte carnuda nesse molho. As brácteas. Descascamos folha a folha o rigoroso do inverno, os dias gelados, e mesmo ainda um pouco distantes da primavera, adiantamos o calendário ao menos nessa noite. O clima que envolve esse saborear as alcachofras é delicado como a própria flor. Até quando você tira uma pétala, passa no molho e oferece. Até os olhares trocados nesse despetalar. Depois de todas as pétalas você chega à parte fibrosa. Vale o trabalho de extrair com cuidado para chegar ao fundo da flor. Ao coração. Uma base feita do mesmo conteúdo das pétalas. Mas envolve você de um jeito diferente agora. O ar tomado pelo perfume dela. Saboreamos a inflorescência. As propriedades nutritivas e medicinais despertam a atenção: vitaminas do complexo B, potássio, cálcio, fósforo, magnésio e ferro. O sabor um tanto amargo que estimula as secreções digestivas além das características diuréticas. As alcachofras foram trazidas para o Brasil por volta de 100 anos atrás. É uma planta de clima temperado a frio e de áreas úmidas. Até vegeta bem em regiões quentes, mas não forma os botões florais. São 4 as variedades mais encontradas: Violeta de Proença, Roxa de São Roque, Verde Lion e Verde Grande da Bretanha. É formada por quatro partes: o fundo fibroso e a parte superior das folhas (não comestíveis), a base das folhas e o fundo ou “coração”. Os talos também podem ser apreciados, tirando-se bem as fibras externas e cozinhando junto ou preparando a base para um delicioso espaguetti ao molho com talos de alcachofra. Dizem que lá por volta do século XVI na França, o consumo da alcachofra tornou-se proibido para as mulheres. Parece que Catarina de Médicis adorava a iguaria e andou dando algum trabalho para o Rei Henrique II. Talvez venha daí a lenda do fruto ser afrodisíaco. De qualquer modo, afrodisíaco mesmo é você pensar em degustá-la, trazê-la para casa, seguir os procedimentos do preparo e pétala a pétala ir descascando essa iguaria. Esse poema. Pétala a pétala encravada. Taquicardia lá dentro.

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SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

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