sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

MERGULHO (O segredo de Eugênia)

Em frente ao quiosque do chaveiro, em meio ao movimentado da cidade e o calor, o rapaz diz para Eugênia que chaves antigas, daquelas de quarto, têm que ser feitas à mão. O artesão tem que desenhá-las à mão. Eugênia pensa na palavra esculpir. Pensa em chaves e segredos que podem ser esculpidos. Detém-se nos segredos. É preciso que o artesão se detenha também sobre eles. Que segredo? A moça, com alguns anos de estrada e forte senso de observação, pensa o que desconhece sobre segredos. O que é o segredo que o esculpir pode desenhar? O que o homem talha no metal? Dentes. Pensa que dentes cravados na carne são segredos. Dentre os segredos que uma chave pode conter está o formato. Há que ter um perfil. E mais. Ser colocada na posição correta. Toda uma conexão de pinos e reentrâncias. Quando eles se alinham adequadamente, a trava consegue se encaixar nelas e liberar o gancho. Quando inserida na fechadura, a chave empurra os pinos de trás até à posição correta, permitindo que se gire a chave e destranque a porta. Sabe lá desde quando trancam-se as portas e como isso era feito. Mas os segredos, estes existem desde sempre. Ela está certa disso. Eugênia, que não sabe de nada, mas desconfia de muita coisa, sabe apenas que São Pedro é o chaveiro do céu. E que entre o sim e o não tem um vão. Um grande vão. Ela está nele. Edgar, Luis e Eleonora também. Até o menino recostado em seu silêncio está. Pensa nas coisas por detrás. O que sustenta um segredo? O rapaz ao seu lado pergunta para ela com os olhos esgarçados. O que está escondido pode sustentar um segredo? Não sei. Os enigmas sim podem sustentá-los. Nada se sabe deles. É preciso muita arte e maestria para abrir essas portas e descobrir. É preciso esculpir no metal e depois girá-lo lentamente na posição correta. Tanta insistência nesse pensar faz Eugênia derrapar num todo que a atravessa. Perfura. O todo quer descobri-la e ela precisa esculpir as pedras do seu caminho. Talhar. Mesmo que seja inútil. Melhor fazer, ela pensa. É por isso que aprendeu e não cansa de fazer curativos no vazio. Nos vãos que são a falta daquilo tudo que aparece e que não é. O que é escorre dos olhos que disfarçam o que não tem disfarce. O indisfarçável. Mas não são todos que percebem esse escorrer. Esse caldo que esvai pela sarjeta, pela areia da praia e se mistura às águas. Eugênia vê. Talvez Edgar, talvez Pedro e Eleonora. Talvez o menino silencioso que observa tudo. Talvez Eugênia esteja prenha de mistérios e enigmas. Prenha de segredos que quer guardar. Quer? Escuta o poeta Antonio Cícero dizer que “em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa vista”. Por isso ela quer dizer. “Para guardar-se o que quer guardar”. E ela quer guardar todos os vôos. Todos eles. Só a morte pode escancarar o desenho das chaves e os segredos. Ela pensa que enquanto estiver viva, vai preferir sentir a dor. Qualquer dor. Sabe que captar e guardar segredos gera mais segredos. Outros segredos. Segredos que guardam segredos. Guardam enigmas. Como as palavras. É por isso que Eugênia mora na fronteira e exibe o silêncio debaixo do sorriso. O indizível que a habita.


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