sábado, 12 de fevereiro de 2011

Manoela e a beleza das coisas

Manoela olha as coisas tão bonitas e pensa se são bonitas realmente ou ela é quem assim vê. Tem os olhos tão acostumados que ultimamente tem se debruçado sobre esse costume. Sobre a inocência. Que inocência? Se eu pudesse parar de escrever eu perguntava para Manoela. Perguntava isso para ela. Que inocência? Outro dia mesmo uma voz lhe soprou nos ouvidos essa dúvida. Edgar é tão bonito. Uma alegria que sobe da boca para a linha do nariz e enverga os olhos. O olhar que ele tem fica bonito. Fica ou é? Eu grito daqui: Ora, ora, Manoela. Não vê que é apenas seu olhar? Como a letra de música: “A tristeza de um olhar, vem de tanto olhar, vem do outro olhar”. A alegria também. Não vê? “Como assim?”. Eu queria cantar para ela: “pelo olhar pode haver um motim”. Nada. Manoela sequer me escuta. Como poderia? Está tão absorta. Isso começou a acontecer, precisamente, quando ela não quis usar os óculos. Para quê essa bengala? Para quê me pendurar num foco que não é meu, mas dos óculos? Vejo o que me é dado ver. Ajeito a posição, meneio a cabeça, afasto e aproximo. Eu aproximo o que existe ao que imagino e quero enxergar. Há algum mal nisso? Há Manoela, há sim, digo baixinho. Ela retruca: outro dia eu caminhava e ao longe, bem distante, vi um cavalo. Era muito digno o animal. Tinha pose. Tinha tino e atitude. Tinha tônus. Conforme fui me aproximando, vi que não passava de um pangaré. Um lindo pangaré. As dores e o cansaço debruçados sobre a fronte e o lombo. A pele e o pêlo escamados. Mas era tão bonito no seu descansar. O olhar derramava uma sabedoria eqüina. Enquanto escrevo quero que ela veja onde desliza. Onde exatamente é o ponto onde deriva. Sai da visão para a imaginação. Mas Manoela capta grafite, bico de pena e a rapidez da esferográfica. Capta até mesmo o toque dos dedos sobre as teclas. Capta o desejo da escrita e se antecipa ao que penso para ela. E nesse existir vai me impressionando. Sou autor ou retratista? Sou autor e ela me dirige. Estou entregue ao olhar de Manu e repenso minha própria dinâmica. Estar imiscuído no intenso da solidão é o que propicia que Manoela tenha esse impulso. Esse pulso sobre mim. Eu aqui, tão confortavelmente instalado, acato. Manoela é Manu e eu vou deixando ela expor para mim coisas que não posso enxergar. Então Manu mostra. Ela mostra e eu acato porque ela é dona do meu tempo e escreve a mim, que estou tão absorto. E a realidade dela vai fixando a minha e o meu olhar. Vai mostrando a insensatez disso tudo. Mas de que outro modo eu daria voz ao que está submerso? O quê está submerso? Sei que a solidão, Manu e eu nos necessitamos. Um outro eu do meu próprio eu que é múltiplo se apresenta através dela, se cristaliza nela. Eterniza-se, eternizando a mim e minhas aflições. E eu sou mais. Sou outro.

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