Pular para o conteúdo principal
Manoela e a beleza das coisas

Manoela olha as coisas tão bonitas e pensa se são bonitas realmente ou ela é quem assim vê. Tem os olhos tão acostumados que ultimamente tem se debruçado sobre esse costume. Sobre a inocência. Que inocência? Se eu pudesse parar de escrever eu perguntava para Manoela. Perguntava isso para ela. Que inocência? Outro dia mesmo uma voz lhe soprou nos ouvidos essa dúvida. Edgar é tão bonito. Uma alegria que sobe da boca para a linha do nariz e enverga os olhos. O olhar que ele tem fica bonito. Fica ou é? Eu grito daqui: Ora, ora, Manoela. Não vê que é apenas seu olhar? Como a letra de música: “A tristeza de um olhar, vem de tanto olhar, vem do outro olhar”. A alegria também. Não vê? “Como assim?”. Eu queria cantar para ela: “pelo olhar pode haver um motim”. Nada. Manoela sequer me escuta. Como poderia? Está tão absorta. Isso começou a acontecer, precisamente, quando ela não quis usar os óculos. Para quê essa bengala? Para quê me pendurar num foco que não é meu, mas dos óculos? Vejo o que me é dado ver. Ajeito a posição, meneio a cabeça, afasto e aproximo. Eu aproximo o que existe ao que imagino e quero enxergar. Há algum mal nisso? Há Manoela, há sim, digo baixinho. Ela retruca: outro dia eu caminhava e ao longe, bem distante, vi um cavalo. Era muito digno o animal. Tinha pose. Tinha tino e atitude. Tinha tônus. Conforme fui me aproximando, vi que não passava de um pangaré. Um lindo pangaré. As dores e o cansaço debruçados sobre a fronte e o lombo. A pele e o pêlo escamados. Mas era tão bonito no seu descansar. O olhar derramava uma sabedoria eqüina. Enquanto escrevo quero que ela veja onde desliza. Onde exatamente é o ponto onde deriva. Sai da visão para a imaginação. Mas Manoela capta grafite, bico de pena e a rapidez da esferográfica. Capta até mesmo o toque dos dedos sobre as teclas. Capta o desejo da escrita e se antecipa ao que penso para ela. E nesse existir vai me impressionando. Sou autor ou retratista? Sou autor e ela me dirige. Estou entregue ao olhar de Manu e repenso minha própria dinâmica. Estar imiscuído no intenso da solidão é o que propicia que Manoela tenha esse impulso. Esse pulso sobre mim. Eu aqui, tão confortavelmente instalado, acato. Manoela é Manu e eu vou deixando ela expor para mim coisas que não posso enxergar. Então Manu mostra. Ela mostra e eu acato porque ela é dona do meu tempo e escreve a mim, que estou tão absorto. E a realidade dela vai fixando a minha e o meu olhar. Vai mostrando a insensatez disso tudo. Mas de que outro modo eu daria voz ao que está submerso? O quê está submerso? Sei que a solidão, Manu e eu nos necessitamos. Um outro eu do meu próprio eu que é múltiplo se apresenta através dela, se cristaliza nela. Eterniza-se, eternizando a mim e minhas aflições. E eu sou mais. Sou outro.

Postagens mais visitadas deste blog

AH O AMOR. O TAL AMOR... É MINHA LEI, MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bo…

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.