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FRACTAIS E ROTINA
Maria da Penha, que concluiu seu curso de matemática em 1991, adora brócolis. E não é só para comer. O que Maria gosta, sobretudo, é a forma como ele se apresenta. Um maço verde de flores verdes. Flores de brócolis. Gostava muito quando via sua mãe prepará-lo para o almoço do sábado depois da feira. O maço por cima das outras coisas. Todo o cuidado para não amassar. Despetalava com cuidado separando os pequenos buquês. Colocava-os debaixo da água corrente e depois numa imersão de água e vinagre. Depois iam para o vapor por 2 a 5 minutinhos para ficarem “al dente” e salteava-os em alho e óleo. Acha que sente esse perfume agora adentrando a janela da cozinha. Será sua lembrança ou o vizinho? Torna para o maço de brócolis em suas mãos e se lembra das aulas do professor Aurélio: um bom exemplo de fractal é o brócolis. Fractal vem do latim “fractus” que quer dizer fragmentado, fracionado. A parte está no todo e o todo está na parte. Como as células que contém a nossa história.  As principais características dos fractais são: Extensão infinita dos limites; Permeabilidade dos limites e Auto-similaridade das formas e características. É um olhar qualitativo sobre as coisas. Agora ela torna de novo ao cheiro que entra pela janela. É realmente o vizinho quem cozinha. Será que está preparando espaguetti ao alho e óleo? Pensa que se fosse brócolis, teria sentido o cheiro do cozimento. A parte ruim do preparo. Já cruzaram seus olhares algumas vezes desde que mudou para o prédio. Outro dia subiram juntos no elevador quando ele voltava do mercado. Na boca da sacola um maço de brócolis chamou a atenção de Maria. A verdura chamou a conversa. Chamou o olhar que se estendeu até ele saltar. Torna para o maço em suas mãos. A rotina é uma sucessão de momentos que se repetem e compõe o todo que é a vida. Como cada flor de brócolis compõe o maço. E o resultado do maço todo, que é o conjunto das partes, é igual a cada flor. E forma um desenho. Como a vida. Pensa que olhando desse jeito a rotina ganha dimensão. A rotina é um fractal. Ri. Todas as vezes que encontrou com Vítor no prédio são partes de um encontro que se ensaia. E agora ele está na cozinha. Espaguetti ao alho e óleo combina perfeitamente com brócolis. Assim como ele combina com ela e os dois combinam com brócolis. Num átimo suspende da mesa com o maço nas mãos. É um buquê. Atravessa a sala, a porta e o hall. Desce um andar pelas escadas e encosta o dedo na campainha do 304. Quando Vítor abre a porta ela está com o coração na boca e o buquê nas mãos. Ele sorri. Ela sorri. Exatamente como se olhasse um fractal, confere a unidade de medida contida no largo do sorriso dele que se espelha no canto da boca. Quase enxerga o infinito. Percebe a permeabilidade dos limites e o intercâmbio de dados. Observa a semelhança nas formas e características. Fraciona o sorriso e vê a semelhança de cada parte que se estende na boca e toca nela. Lembra Anaxágoras: “mesmo na menor das partes existe um pouco de tudo”. Existe vida. O todo é a soma das partes. Ou não. De qualquer forma, tudo isso faz parte dessa história. Que começou antes e agora atravessa a soleira pelas mãos dele. Eu que nem sabia disso tudo, estou aqui a sentir o aroma que vem do 304. E talvez por isso, pego as chaves do carro e me dirijo ao mercado. Uma súbita vontade de apreciar brócolis, fractais e vida.

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