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FELIPA E O FIM DO ANO
Felipa está de aniversário. No dia 30 de dezembro, um dia antes do último dia do ano, ela muda sua idade e sua vida. Todo ano assim. Moça cheia de simbologias que é, desde cedo decidiu que essa era uma data para transformações. E diz: sempre, a cada fim de ano, tenho dois motivos para mudar. Duas razões. Pensa que motivo é coisa de menor importância. Razão é a preponderância de algo sobre ela. Pensa em maçãs. Em Adão e Eva. E na serpente. Escapa das contingências e torna à maçã. Que alivia dores de estômago. A maçã do amor. O afrodisíaco da fruta. Seu casamento atingiu a maioridade e ela pensa no ridículo disso. Afinal, maioridade não vem com data marcada. Aliás, nada. Mas é simbologia de novo. De todo modo Felipa sabe que a maioridade vem quando se investe nela. Percebe pequenas mudanças. Agrega coisas. Manda coisas embora. Dribla asteróides que caem por cima. Ela às vezes se recupera de bombas e coquetéis molotov e pensa o quanto a convivência é uma espécie de mistério. Tudo que se troca. Pensa em Quintana dizendo “Amor é quando a gente mora um no outro”. Ela nem sempre sabe ser sábia assim. Teme e teme a não existência de garantias. Para nada. Sabe que nada é para sempre. Sabe? Logo já vai dando um jeito de reordenar o pensamento que lhe escapa. Tem medo da ideia de que nada é para sempre. Mas o que é pra sempre? Cada fase sua dura um ano e logo vem o aniversário e o ano seguinte pedindo-lhe que seja outra, que esteja em outro lugar, que viva outra. Tem coisas que são para sempre, não tem? Duvida. Acredita que para sempre é enquanto se quer e se trabalha as coisas. Modificando, criando novas tramas para se enrolar. Aprendeu a olhar o em volta bem de perto e sem ansiedade. Se continuar assim vou existir “para sempre”. Ou até quando Deus quiser. Até quando eu acreditar. Assim é o para sempre. Tudo isso porque a vida é uma obra e Felipa constrói e pinta sua arte. Tijolo por tijolo e as cores na palheta. Pincela daqui e dali e vai construindo a vida que é dela. Põe um tanto de azul e desenha um infinito. Põe amarelo, laranja e vermelho e tem um sol sem tamanho que lhe doura e aquece. Ponto por ponto ela desenha e pinta. Constrói, reforma e faz pequenos ajustes. Só não gosta de quebrar paredes. Elas existem, afinal. Então vai dando possibilidades de serem mais. Felipa sabe que paredes podem sempre mais. Para a mudança deste ano preparou algo que a está surpreendendo. Mandou instalar na parede da sala pinos de escalada. Começam na parte inferior e vão subindo até atingir a parede perpendicular, onde está o aparador com a travessa de morangos frescos, e dali para o teto. Felipa olha os pinos e olha para seus pés com sapatilhas especiais para escalar. Usa também uma roupa própria, preta e colada ao corpo. Preta. Esse fim de ano serei gata. Mulher-gata. A meia-noite desliga todas as lâmpadas deixando apenas o pisca da árvore de natal. Coloca as luvas e inicia a subida. Concentrada. Pino por pino ela sobe. Atravessa a primeira parede e depois a outra. A da perpendicular. Prepara-se então para adentrar os 90 graus do teto e esborracha-se no pufe marrom. Ri uma sonora gargalhada.

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