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PESSOAS E CRIATURAS

Ciro, olhando bem nos olhos de Adamastor, diz: Ora, ora... para dormir, meu senhor, é preciso apenas, ter sono. Consciência limpa? Tá... Essa é a ideia de felicidade de quem a possui. Só pra quem tem a consciência limpa isso importa. E saiba: são esses mesmos que perdem o sono enquanto os outros são agraciados pelos braços de Morfeu.

Liz admite que tudo é poesia. E ela poema o que transparece aos olhos dos outros. Escreve e pensa: Se ele viesse até mim, de que maneira seria? Telefonaria avisando? Irromperia virando a chave da porta? Não me importa. Estou pronta. Por mais que me custe não custa mais do que resignar-me.

Janaína pula as ondas do mar e oferece uma flor para Iemanjá. Que minha vida seja algo como meus cabelos. Um alvoroçado que permeia e conforma. E quando me dizem que estou diferente, eu digo: É que estou grávida. Estou prenha. Sou bicho que carrega um bicho dentro. A vida é um salto e o encaracolado é minha forma de estar doente.

Pedro diz que o sentimento que traz essa noite no peito é feito cachorro do mato acossado, bicho perseguido no encalço. Ele se submete à caçada com a única perspectiva de ser devorado. Absorve a adrenalina de estar prestes a ser engolido. E se precipita. Incita o predador. É uma forma de suicídio que eu desejo, ele diz.
 
Indira escreve poemas mergulhada e banhada de ausência. Dessa vez eu voltei para ficar até o final. Eu sempre tive que desaparecer subitamente. Agora eu descosturei os pontos que deram para mim. Costuras inteiras. Bordados com as mais ricas tramas. Conforme eu descosturava e soltava os pontos, lá onde o tecido é a trama que o fez, eu ia me vendo, célula por célula. Eu ia aprendendo a encaixar meu desejo no desejo do momento. Sei uma a uma as várias que sou. Os detalhes. Eu saco as mulheres de mim. Arranco. Eu preciso explicar que não se trata de falsidade? Eu preciso. Não é falsidade.

Adriana tenta em vão recolher as roupas do varal que ameaçam alçar vôo pelo feio da tempestade que se arma, e diz: eu tento segurar e livrar as roupas da tempestade. Eu tento segurá-las. Tento me segurar por que as coisas ventam em mim. Ventam.

Jéssica sonha dias de sol e não preocupações. Alinhava cuidadosamente seus afazeres e regorjita o que não transpassa. Tem estofo para mais dois meses. Os bolsos da casaca quase vazios e tantas contas ainda para acertar. Pensa nos truques que traz na cartola (devem andar a pensar que já não sou capaz de trazer mais novidades). Mas ainda pulsam nela devires. Todas as noites uma piada nova, sorrisos que ainda surpreendem. Jéssica traz tanto em si que desliza. Pensa se no fundo há algum estremecimento. Um medo que as luzes se apaguem. Que não haja aplausos no final. Nem todo o porvir.

Pois é, leitor. Eu pouco sei do que se impõe e me atravessa e divido isso com Dona Didi, uma amiga querida de Fortaleza. Sabiamente, ela diz que “Assim como são as pessoas, são as criaturas.” Arremata com um “Perfeitamente”. Perfeitamente, eu repito.

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AH O AMOR. O TAL AMOR... É MINHA LEI, MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

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 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bo…

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.