quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

PESSOAS E CRIATURAS

Ciro, olhando bem nos olhos de Adamastor, diz: Ora, ora... para dormir, meu senhor, é preciso apenas, ter sono. Consciência limpa? Tá... Essa é a ideia de felicidade de quem a possui. Só pra quem tem a consciência limpa isso importa. E saiba: são esses mesmos que perdem o sono enquanto os outros são agraciados pelos braços de Morfeu.

Liz admite que tudo é poesia. E ela poema o que transparece aos olhos dos outros. Escreve e pensa: Se ele viesse até mim, de que maneira seria? Telefonaria avisando? Irromperia virando a chave da porta? Não me importa. Estou pronta. Por mais que me custe não custa mais do que resignar-me.

Janaína pula as ondas do mar e oferece uma flor para Iemanjá. Que minha vida seja algo como meus cabelos. Um alvoroçado que permeia e conforma. E quando me dizem que estou diferente, eu digo: É que estou grávida. Estou prenha. Sou bicho que carrega um bicho dentro. A vida é um salto e o encaracolado é minha forma de estar doente.

Pedro diz que o sentimento que traz essa noite no peito é feito cachorro do mato acossado, bicho perseguido no encalço. Ele se submete à caçada com a única perspectiva de ser devorado. Absorve a adrenalina de estar prestes a ser engolido. E se precipita. Incita o predador. É uma forma de suicídio que eu desejo, ele diz.
 
Indira escreve poemas mergulhada e banhada de ausência. Dessa vez eu voltei para ficar até o final. Eu sempre tive que desaparecer subitamente. Agora eu descosturei os pontos que deram para mim. Costuras inteiras. Bordados com as mais ricas tramas. Conforme eu descosturava e soltava os pontos, lá onde o tecido é a trama que o fez, eu ia me vendo, célula por célula. Eu ia aprendendo a encaixar meu desejo no desejo do momento. Sei uma a uma as várias que sou. Os detalhes. Eu saco as mulheres de mim. Arranco. Eu preciso explicar que não se trata de falsidade? Eu preciso. Não é falsidade.

Adriana tenta em vão recolher as roupas do varal que ameaçam alçar vôo pelo feio da tempestade que se arma, e diz: eu tento segurar e livrar as roupas da tempestade. Eu tento segurá-las. Tento me segurar por que as coisas ventam em mim. Ventam.

Jéssica sonha dias de sol e não preocupações. Alinhava cuidadosamente seus afazeres e regorjita o que não transpassa. Tem estofo para mais dois meses. Os bolsos da casaca quase vazios e tantas contas ainda para acertar. Pensa nos truques que traz na cartola (devem andar a pensar que já não sou capaz de trazer mais novidades). Mas ainda pulsam nela devires. Todas as noites uma piada nova, sorrisos que ainda surpreendem. Jéssica traz tanto em si que desliza. Pensa se no fundo há algum estremecimento. Um medo que as luzes se apaguem. Que não haja aplausos no final. Nem todo o porvir.

Pois é, leitor. Eu pouco sei do que se impõe e me atravessa e divido isso com Dona Didi, uma amiga querida de Fortaleza. Sabiamente, ela diz que “Assim como são as pessoas, são as criaturas.” Arremata com um “Perfeitamente”. Perfeitamente, eu repito.

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