Pular para o conteúdo principal

CRÔNICA DE ESTRÉIA NO CADERNO ANEXO DO JORNAL A NOTÍCIA EM FEVEREIRO DE 2009


Olho no olho 


ilustração: PAULO GERLOFF



Sentada em frente ao computador tento extrair de mim a crônica inicial. Aquela que me representará, iniciará o contato com você, leitor, e me colocará definitivamente, de frente para o pelotão – olho no olho, sem véus. Tanto preâmbulo me coloca, incontestavelmente, muda. Assim que assinei o contrato, fui ao café que habitualmente frequento, sentei e saquei o laptop. Procedimentos iniciais, abertura de pasta e o silêncio se derramando pela mesa. Todas as quintas – se eu conseguir escrever uma por semana terão sido 44 em um ano. E toda semana falarei de algo: sapato, carrapato, poesia ou aquele grampeador do banco – sempre sem grampos. Peço um café. Sacar o tema, escrever, burilar, lapidar. Toda semana este processo se dará antes que ela possa nascer, antes que ela possa ser – a crônica.

E toda quinta alguém abrirá o jornal e dará com meu texto. Outros abrirão para ler o meu texto. Alguns me farão críticas, outros irão me elogiar, partilhar comigo sobre o grampo do grampeador dos bancos (ou da falta deles). Vou errar, dar bolas fora, acertar no alvo, vou quase chegar lá... e você leitor, estará sempre na minha cabeça. Como alguém já disse, simples e simplesmente porque não há escritor sem leitor, não há cumplicidade sem compromisso e não há jogo sem a troca – você vai pensar no que terei escrito, eu irei pensar no que você desejaria ler. Eu vou ter que cativar você – e como disse Saint-Exupery, ser eternamente responsável por esse ato.
Confesso que sou assolada pelo fácil: uma desculpa qualquer e me livro da obrigação cotidiana de observar para contar. Digo não e volto a observar só pra mim, para os meus devaneios e para meus livros. E não é que mal o pensamento me assola e já é você que está na minha cabeça? Sentado no sofá da sala, no escritório na hora do almoço, chacoalhando no ônibus, no café folheando este caderno exatamente a procura do que terei escrito, lendo meu texto para alguém. Estou irremediavelmente comprometida. Sem você já não sou, porque já sonho com nosso encontro. Então, leitor amigo, façamos assim: Tem aqui o meu email - clozingali@gmail.com - Escreva-me. Critique. Elogie. Xingue. Mostre seus dentes (no sorriso ou no grito), mas não deixe não de se revelar. O editor do jornal estará de olho, junto com você – e eu estarei lá, lembra? De frente para o pelotão – olho no olho, sem véus. Confesso que estou passada dos avessos!

Postagens mais visitadas deste blog

AH O AMOR. O TAL AMOR... É MINHA LEI, MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bo…

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.