Pular para o conteúdo principal

DA SÉRIE CARTA ENTRE AMIGAS: COISAS QUE NOS ACONTECEM




DA SÉRIE CARTA ENTRE AMIGAS: sobre coisas que nos acontecem 

A outra carta da minha amiga veio, segundo ela, com um componente hormonal (TPM e abstinência sexual), que somado à sua tendência patológica à melancolia resulta numa fossa que não tem tamanho. Louca que é, vasculha possibilidades em todos os fluidos e elementos corporais e no consultório, diante do médico, solicita a bateria de exames mais completa possível. Resultado: Saúde de ferro! É que ela resolveu inventar um novo modo para se posicionar frente à vida. Não ser mais tão orgulhosa, egoísta e durona. E se derreteu, declarou seu amor em prosa e verso, perdoou traições e sentiu o amor à flor da pele. Diz que deu em nada. Diz que deu em desrespeito. Em dor. E quer saber, diante do médico, que remédio tomar para os tremores que vem sentindo, que impeça o coração de doer enquanto bate. Que possa cessar essa alternância de dias de depressão intercalados com dias de euforia. Ela diz que é psicose. Ela diz que precisa treinar ser diferente. Veja você. Isso vai acontecendo enquanto ela tenta se adaptar à escala de Santarém. E enquanto desfruta do encontro das águas dos Rios Negro e Solimões (seis quadras da casa dela). É uma espécie de mar, ela diz. Não é lindo isso? Estar em frente a um rio onde não se vê a margem oposta. É um mar doce.  Fora esses dois, os maiores leitos de água doce que ela conhece são a Garganta Chinesa e junto do Nilo... (Pesquisei e terminei por descobrir que para muitos geógrafos o Nilo já perdeu o posto de maior rio do mundo para o Amazonas, com 6.992,06 km de extensão). Minha amiga se perde nessa malemolência e eu num texto do Arnaldo Antunes que diz: “As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz”. Aliás, também podem ser surpresas pra gente. Que nem os amigos e as coisas que eles às vezes nos dizem - as lágrimas nos atravessam e todo o mais vira fumaça sem cheiro... As coisas também têm ritmo. Isso tudo que ele diz, também é música. O Arnaldo canta as palavras e então nos surpreende com isso, que nem as palavras dos amigos. Ele diz que a música, através de um uso específico da língua, vai restaurando a integridade entre o nome e a coisa, restituindo aquilo tudo que o tempo e as culturas do homem civilizado separaram no decorrer da história. Que nem a poesia. Esse texto – “As coisas”, traz isso pra mim. Me devolve para um estágio lá no começo, lá onde a poesia mora em tudo que se diz. Eu acho que minha amiga mora lá. Eu acho que eu moro lá quando leio as cartas dela. Talvez o exercício de escrever poesia traga isso de gerar significados novos para os signos usuais. Talvez traga junto com isso um gosto de inocência. Talvez por isso as lágrimas. De todo modo, sempre me arrebata ler os textos do Arnaldo Antunes. Me conectam com a surpresa.

Postagens mais visitadas deste blog

AH O AMOR. O TAL AMOR... É MINHA LEI, MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bo…

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.