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SOBRE SONHOS E INÍCIO DE OUTONO
crônica publicada no Jornal A Notícia em 16/04/2009





Olhando da minha sacada, do outro lado da rua, tem uma área verde de talvez uns 1000 metros quadrados. Muitas árvores vivem lá. Vejo palmeiras, flamboyants, um limoeiro, vejo um cactus. Arbustos, pequenas touceiras e bancos de madeira bruta para sentar e desfrutar. Não tem cara de um espaço projetado para, por exemplo, um jardim japonês ou moderno, tropical ou contemporâneo, com espécies de ponta e preço – parece fruto de uma idéia simples, da vontade simples de ter árvores lá, sombra lá. E isso há muito tempo atrás, já que estão pra lá de frondosas - são árvores de 12, 15 metros de altura. Algumas copas atingem 6, 7 metros e tem umas palmeiras imiscuídas dentro. Agora, nesse início de tarde de outono ensolarado de Páscoa, uma brisa constante as faz movimentar numa cadência que me eleva, e as vejo, cada qual, como pulmão de si, inspirando e expirando, e com o olhar mais dentro, as vejo como pulmão do jardim, inspirando e expirando num compasso conjunto, e mais: esse conjunto como meu pulmão, que desfruta da cena e bombeia mais oxigênio. Meus pulmões trabalham com o que há no quintal do vizinho, do outro lado da rua. Se abro o espectro, no que meu olhar pode avistar, abaixo dos picos dos dois morros que se elevam aqui, os telhados das casas são como estrelas em meio ao verde que se desdobra. Ipês carregados de amarelo nas flores, chorões, bananeiras, fícus, amendoeiras e tantas outras que não sei identificar. O céu é de vida verde que dança ao ritmo do vento, sombreia, cria um microclima e me permite respirar melhor (a despeito dos meus pulmões enfraquecidos pela forte gripe eu respiro o que entra pela janela dos meus olhos). Penso nos parques que Joinville terá. Caminhos sinuosos que se desdobrarão debaixo das árvores, clareiras onde se poderá deixar o sol esquentar o corpo, sombras que olharão piqueniques, toalha xadrez, pessoas trocando palavras e formigas querendo seu quinhão. Penso também em arquiteturas... meus tempos de menina sonham um lindo planetário em meio ao parque numa conversa com o sinuoso dos caminhos e quem sabe um grande lago, como no Parque do Ibirapuera em São Paulo. Ou quem sabe, ao invés de um parque circunscrito num lugar determinado, um parque que traga embutida um pouco da idéia do Paseo de La Castellana em Madrid ou do projeto de Burle Marx para o Aterro do Flamengo no Rio de Janeiro: pistas paralelas de automóveis entremeadas de jardins e calçadões. Entre eles arquiteturas erguidas e vivificadas. O espaço recheado de vivências e perspectivas. Poder passear por entre os volumes de vegetação, sentir as florações criando ritmos variados nas diferentes épocas do ano: ritmos cromáticos, auditivos e de silêncio incorporados às margens do Cachoeira. Toda a sua extensão tomada de árvores, arbustos, touceiras e um paralelismo entre os edifícios, o parque e a cidade. Pedestres e motoristas desfrutando de um novo olhar para esse centro, essa gema; e uma perspectiva diferente de chegar e sair dos lugares. De ter um rio-parque que atravessa a cidade. E Centro e Saguaçú seriam então, conexão direta com as peças da cidade, (ilhas dentro do parque) – o Museu do Sambaqui, a casa da Cultura e o acesso ao morro das antenas (o Morro Boa Vista), com toda a vista de Joinville que de lá se pode ter – inclusive o mar e os rios que deságuam nele. E em toda a extensão do seu percurso, no desdobramento dos bairros que lhe margeiam, o Cachoeira dignificado dentro do grande parque, protegido e respaldado pelo parque e por essa idéia atravessada na cidade. Ainda não temos parques, mas sonhamos ter. E quem sabe como no lindo livro de Ítalo Calvino, “As cidades Invisíveis”, teremos a maior cidade do Estado formando um grande desenho abstrato. E assim como estou agora, aqui na minha sacada, a cidade terá desenhada nela a poesia que hoje ouço em todos os poros. Joinville será pulmão, será regra subvertida na maneira de encaminhar seus desejos.

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