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Mostrando postagens de Junho, 2010

FLUXO DE IN-CONSCIÊNCIA

FLUXO DE IN-CONSCIÊNCIA

Eu escrevo sobre coisas que não sei para saber delas. Descobrir. Também a mim. Porque daí “A gente não escreve um livro. A gente se livra dele.” Então eu escrevo e vou me livrando daquilo tudo. Até de mim. Daquela que escreveu e já não é mais. É outra. Penso isso descascando uma tangerina. Espirra na minha pele o perfume com fixador made in natura. É bom. Mas preciso lavar as mãos muitas vezes depois. De todo modo, vou soltando um a um os gomos e pensando na herança. Na genética. Vou sendo enquanto escrevo e então vou deixando de ser, afinal, está escrito. Eu me livro disso e posso me escrever outra. Falsear. Nesse fingimento que nunca se acaba vou me vendo furo. Cheia de abismos. Uma fraude. Uma ficção que crio e onde me enredo. Sou DNA e sou livro. Sigo sendo a partir dos olhos que me olham, das mãos que me folheiam e me tiram da estante. Me colocam de volta ou me largam sobre a mesa. Quando tornam a mim já sou outra. Cada vez uma. Gosto ou não de ir até o fim…

BÁRBARA

BÁRBARA

Bárbara descobriu o pior de si. É dissimulada. Mentirosa. Gosta de ter as coisas sob seu controle. Isso dá a ela algo muito valioso: segurança. Gosta do poder que a segurança lhe dá. Gosta de ver a movimentação das pessoas em torno do seu halo. Ela é o sol. Irradia luz e capta para si íons, nêutrons e prótons que gravitam em torno. Gosta de fazer alquimias. Misturar essa química toda para ver no que dá. E como ela se sente grande! Não é má. Bárbara não é má. Apenas arma estratégias, estratagemas, esquemas, cenas, cenários e aprecia o desenrolar. Por isso sempre admirou manipuladores de marionetes. Ela manipula. Os outros se encantam. Deslindam pelas teias que tece. Bárbara é aranha e prefere o devaneio ao sonho. No devanear ela está no controle. No sonho, quem sonha Bárbara? Por isso sai todas as tardes. Observa outras personagens femininas. Passeia por cada mulher. Cada uma um mundo que ela descortina. E vai ganhando tamanho. Por isso se identificou com a gorda do escritor. El…

QUE TAL UM RAVIOLLI?

QUE TAL UM RAVIOLLI?Já tem alguns anos (muitos anos) preparamos raviolli. É sempre um acontecimento. Começa quando decidimos que vamos fazer. Cada vez é um de nós que lembra, os outros se estimulam e acontece. Tudo começou com meu sogro: quando íamos pra São Paulo vê-lo, pedíamos: vamos fazer um raviolli? Ele olhava pra gente com um sorriso maroto e pronto – estava decidido. Fazíamos juntos a massa, o molho e o recheio de ricota e espinafre enquanto ele contava suas histórias e canzoni italiane de fundo nos embalavam. Um dia resolvemos fazer para nós mesmos. Meu marido e eu. Lembro bem de uma vez em Curitiba. Ele veio de São Francisco do Sul, onde trabalhava, chegou em Curitiba por volta de nove da noite e disse: vamos fazer raviolli? Eu disse: vamos! Não tinha nada em casa. Fomos até o mercado ali perto, compramos farinha, carne moída, ricota, salsinha, cebolinha e tomates para o molho. Cebola tinha. Naquela minúscula cozinha começamos o trabalho. Fazer a massa. Preparar o recheio, o…

CRONIQUETA PARA VIRGÍNIA, VIVIANE E AS LINHAS

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CRONIQUETA PARA VIRGÍNIA, VIVIANE E AS LINHAS

De novo é junho. E já que me pediram para falar de amor eu digo: Além da constatação de que nada mais posso fazer além de escrever, só há uma vontade enorme de estancar tanto ruído. De olhar dentro dos olhos e me deixar ficar lá. De novo é junho. Nem importa tudo que eu poderia falar: as chuvas que se avizinham, o frio do sul e as perspectivas para a próxima meia hora. Tudo isso porque, já que me pediram, de novo é junho e eu não tenho outro assunto que não seja o meu cansaço e a vontade de falar de amor. Do tecido que cobre minha pele e que quero desmanchar. Trama por trama. As paredes que fazem a casa onde estou dentro e meu desejo de vê-las ruir para estar só. Tudo quer voltar. Até os passos que não dei aos 2 anos. Até as mãos nas cordas do violão tocando musiquinhas do Roberto Carlos. As linhas me trouxeram até aqui e eu estou dentro delas. Estou dentro das cordas do violão. E nas linhas do tecido. Elas levam ao infinito e eu estou dent…

CONVERSA DE AMIGAS

CONVERSA DE AMIGAS

Ela que sorri por detrás do amarelecido dos dentes agora movimenta as mãos sobre a mesa e me sorve com os olhos. O esmaecido do esmalte nas unhas e o dourado dos anéis crepitam. Semírames sorri embaixo dos dentes que carecem de tratamento e um bom aparelho ortodôntico. Mas suas prioridades agora são outras. Pagar a faculdade dos filhos e vê-los encaminharem-se bem. E versa sobre o mundo de ambos, seus sonhos e aptidões. Não ama um homem já tem muito tempo e diz não se importar com isto agora. Um dia se dedicará. Quando tudo estiver encaminhado, ela diz. Assim capturada, diante do pé de manjericão que se desdobra sobre si mesmo ela diz triunfante: “A sorte é que decidirá”. Diz que faltam alguns dias para que tudo se equalize. Diz em seguida “Para que tudo se desestabilize” e sorri. Digo que uma vez li algo sobre um espaço que ocupamos entre o terminar de dormir e o acordar. Thetaville. Lá só há espaço para quem domina o medo de continuar dormindo. Eu não tenho, ela di…