Ela caminha pela calçada. Olha. Acelera o passo. Desacelera. Sente o sol e sorve cada verde que chama sua atenção. Ora se deixa levar por impulsos, ora pisa com cuidado e vai sentindo o caminho. Os vieses do caminho. Pressente sustos. Quase corre. Por vezes parece que esquece. Sabe lá o quê. Espreguiça e outra vez recebe o sol. O quente do sol. Vai respirando de novo os verdes. O tipo deles. E também as flores. O aroma delas. Deve enxergar por dentro do que chega até as pequenas narinas. Até o DNA. Cumprimenta amigas na passada. Também seus desafetos. Dá atenção. Desdá. Perde-se outra vez. Vai, volta, para e vai de novo. A mesma determinação para um lado e seu contrário. Saberá aonde vai? Importa isso? Importa é que vai. É então que vê o amor. Se ajeita, se apruma no passo. Olha o amor estampado nos olhos. No porte. Na imagem do “pirata”. Na brisa que traz o cheiro dele pra ela. Ela respira o cheiro. Desapruma. Parece toda na fresta. É tudo isso ou sei lá o quê que a faz atravessar a rua e ir até ele. Ele que só olha. Estacado olha. Olha e espera. Parece sentir amor igual ao dela. Do mesmo tamanho. E como parece grande o amor que estampam nos olhos. No brilho deles. Quando ela chega, ele colore. É pavão multicor que desalinha em danças. Faz de um tudo para chamar sua atenção. Cairia nos seus braços se pudesse. De súbito chega bem perto. De susto ela recua. Volta. Vira. Quiçá ele a pegasse de súbito. Se querem e se assustam um com o outro. É controverso o amor. Agora é ela quem se aproxima. Ele apruma. Prepara o desejo desarrumado. Avança sôfrego e de novo para. Ela estaca. Ele esbarra no alambrado que impede. Quase uiva. Ela quase uiva. Quase chora. Olha pra mim. Raspa e raspa a grama sob seus pés. E de novo. Lascas de grama espirram no branco do outro pêlo. Agora é ele quem raspa. Raspa e raspa a grama sob seus pés. Os dois pisam na mesma grama separados pelo alambrado. Tentam fazer que espirre o cheiro de um no outro, que cole, agregue. Que desconstrua o que impede. Que possa amalgamar. Eu olho os olhos dos dois. Enterneço. Até em mim a grama espirra e me coloca no confuso do estado. Bem no meio desse amor. Nem sei se é por mim ou por ela ou por ele que eu puxo a cordinha da coleira. Vou puxando e vamos saindo da grama e alcançando o duro do asfalto. O caminho sem tropeços e onde a gente pode correr. E a gente corre para fazer a travessia e alcançar a outra calçada. Ela me puxa ou eu a ela. Sabe lá. Sei que lá do outro lado as duas tornam o olhar para ele. Grande, branco, uma mancha marrom que envolve todo o olho esquerdo. Garboso sobre as patas e o desespero. Sob o olho que ainda olha. Ela de novo me olha. Eu olho mais uma vez a cena e puxo de novo a cordinha. Ela abana o rabinho. Desentende. Entende e me segue. Eu sigo a ela e a esse adeus. Desentendo e aceito. Entendo e sigo.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
ABSORTO EM ABSURDOS
Dia desses acordei por volta de 5 da manhã. Como estava num hotel e a televisão bem na minha frente, liguei. Estava passando uma daquelas aulas do Telecurso 2° grau. Aula de desenho técnico em mecânica. Projeção Ortogonal e rotação. Comecei a olhar aquilo. O pensamento cheio de nós. Rodando perdido numa imagem insistente. Eu estava tão absorta. Acho que nada ali fazia sentido, mas por estar tão absorta, deixei meu olhar ali. Lembrei de algumas aulas do curso de Arquitetura. Desenho Industrial. Comecei a enxergar alguns cortes possíveis e consequentemente, a visão da peça por aqueles pontos de vista. Olhando assim um detalhe parece estar distorcido. Você então deve fazer a rotação desse trecho para visualizá-lo melhor. Sinapses ocorrem e começo a transferir essas informações para a vida. Para as coisas da vida. Pois não é verdade que certas vezes as coisas da nossa vida ficam com, digamos, uma alteração na sua imagem? É verdade. Dependendo dos óculos com que vemos certas coisas, descontadas as patologias e alterações do pensamento, do juízo e do diabo a quatro, certas vezes o que vemos é pura distorção. Aproveitando a técnica busquei a imagem insistente. Olhei-a bem de frente. Observei o que, esteticamente, me pareceu em desalinho. Acho até que meu inconsciente quis me impedir esse olhar. Parecia tudo tão perfeito. Tão convergente. Quase me absorvendo. Chacoalhei a cabeça, os neurônios e fixei o olhar. Depois distanciei para ajeitar o foco. Foi então que eu vi. Ali. Quase escondida embaixo da ilusão de ótica estava enunciada a distorção. Aí parti para a aplicação da técnica. Rotacionei aquele trecho em relação ao eixo para enxergá-lo melhor. Ajeitei o ângulo para melhor visualização. Fiz elevações frontais, laterais. Explodi o detalhe. E então fiz o corte. Agora eu podia olhar aquele trecho por dentro. Examinar suas partes. Entender a “peça” em perspectiva, suas diferentes visões e os possíveis cortes. Um show de pontos de vista complementares. Aí percebi as maravilhas da ciência. Com técnica ela faz a gente ver poesia onde há apenas uma peça. Descolada da sua realidade. Poderia ser desentendida inclusive por isso. Por despertencer. Mas dependendo dos olhos que você põe sobre ela, você a localiza no tempo e no espaço, enxerga seu movimento e ela vai deixando de ser peça para ser componente de algo. De algo que tem uma função. Entender a peça no seu contexto é amá-la e amar uma coisa é perceber isso. Perceber que sem o contexto, a coisa é simplesmente acúmulo de átomos. Contextualizada ela passa a ser um acúmulo organizado. Tem função. Tem razão de ser. Eu idem. De certos pontos de vista sou somente acúmulo de átomos. Mas olhando a coisa desse jeito eu ganhei contexto. Virei pessoa que manipula a peça e enxerga seu bonito. Tudo isso porque eu estava tão absorta. No mais, continuo por aí. Como se eu pudesse tocar alguém com a palma da minha mão, com a superfície dela e a alma, e ampará-la caso caísse. Mas certas vezes nada pode ser feito. Há um silêncio por demais grande e desmedido. Há planetas e peças e pessoas e coisas que orbitam em diferentes eixos e jamais se comunicarão. Cada um absorto no seu absurdo. E então a gente canta. É como diz aquela música: “pois cada um é cada um, no desejo e no sonhar”.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
REMINISCÊNCIAS DE UMA PELADA
REMINISCÊNCIAS DE UMA PELADA
Oi Luís. Ontem falaram de você lá no boliche. Foi uma conversa de que não participei. Falo isso porque quero dizer que apenas escutei um rabinho da conversa. Quando escutei seu nome senti saudade, sabia? Tanta, que acho que esse tempo todo estive disfarçando. Não que eu goste, mas é o que se pode fazer. A verdade é que tenho saudade de você e ponto. Ponto. Ponto para eu abrir um novo parágrafo ou simplesmente continuar exatamente de onde parei. Sabe onde parei? Nunca, um dia sequer, eu não senti saudade. Ficou um vazio enorme e eu coloquei uma porção de coisa no lugar. Tanta coisa. Fiz até um doutorado. Muitos sonhos acalentados. Distrações várias. Muita distração para tirar o foco de luz da saudade. Eu precisava “jogar” você pra escanteio. Recomeçar o jogo depois da bola ter violado a linha. Mesmo pelo ar. Isso é escanteio, certo? Escanteio é de onde surge a possibilidade de alguém fazer gol, não é? Pois então. Passei essa bola para alguém bater e saí da frente da televisão. Nem vi se foi certeira pro gol. Foi? Sei lá. Nem me conte. Eu é que fui pra escanteio e acho que estou lá até agora. O escanteio virou limbo. Limbo, que é o lugar onde a gente fica em estado de “pause”. Só os ponteiros no relógio andam e a cena fica lá. Paradinha. Agora, sei lá quem foi que desapertou o botão. Eu nem percebi como. Quando vi estava no canto do campo, a bola ali pedindo pra ser chutada e o maldito “pause” dentro de mim. Dentro de mim. E de novo tenho opções em demasia só para piorar o confuso do meu estado. Acho que não te coloquei pra escanteio. Eu fui pra lá. Pra esse canto do campo onde botam fé na gente, esperam um chute certeiro. E que alguém pegue de rabeira e faça o gol. Eu não chutei com garra e fé. Sequer fechei os olhos e chutei. Não aleguei contusão. Não veio maca. Eu simplesmente deixei a bola pra outro. Desisti. Desistir é verbo de ação. Ação de quem não age. De quem prefere fugir. Eu quase vi seu rosto naquele momento. Um certo alívio misturado a uma certa perda. Será? Confesso que senti um enorme alívio. Pensei ter adentrado o paraíso – espaço qualquer sem rastro nenhum da sua ausência. Sem a presença da ausência. Dias bons aqueles da sua ausência. E agora? De onde vem essa lembrança do som da sua voz? De onde vem para me invadir assim? Me fazer descobrir que ainda estou sob o aperto do botão. No jugo. No canto. De novo com a bola no pé. Você ali no meio. Quer que eu chute pra você meter o pé e fazer o gol. É você quem quer fazer o gol. Eu quero chutar pra você. Quero? Quer saber, Luis? Tô tirando meu time de campo. Fica você com o uivo da galera. Com o êxtase do momento. Chama o juiz. Pede cartão vermelho. Surta de verdeamarelo dentro do campo e me esquece. Vê se me esquece. É só um jogo. Só uma bola rolando. Tinha graça eu adorar o som da sua voz, o seu sorriso, o seu beijo molhado e deixar a bola metida dentro da rede? Eu preciso mesmo de um bom tiro de meta. Reiniciar essa partida do zero. Afinal, a bola saiu completamente do campo pela linha de fundo. Sem gol marcado. E o último toque você sabe de quem foi. Isso não se pode negar. Então tá falado. Eu fui. Se não tiver bom pra você, reclama lá com o cara de preto. Na dúvida, ele apita.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
CARTA PARA OSWALDO
Oi Oswaldo. Fui embora, amor. Não dava mais, não. A canoa já andava repleta de furos, a gente sabe. Mas a gente fazia de conta que não. A gente, não é, Oswaldo? Esse bendito curso de verão que estou fazendo me mostra que pra falar de si próprio tem que dizer EU. Porque senão fica esse negócio enrolado: a gente isso, a gente aquilo... que é isso, né Oswaldo? Acaso tem um batalhão atrás de cada um? Uma turma que “acompanha” e compartilha nossos pensamentos? Que dá a força que um só não teria? E aí vira essa “entidade” endossando a opinião que pode ser só de um. De qualquer modo eu fui embora. Eu vejo, Oswaldo, que tem coisa que não tem explicação “biopsicosocial-espiritual” além da compreensão possível que a gente possa ter. Ó! De novo. Que eu possa ter. Mas eu entendi, viu? Nem que amanhã eu tenha que desentender tudo. Não adianta tampar o sol com a peneira. Os raios estão por toda parte. Vê Oswaldo? Sei lá. Eu acho que não. Eu? Eu quero ser feliz, né Oswaldo? É você que é todo organizado, compenetrado e cheio de um rigor científico que eu fico até sem saber como entrar. Falar “Oi. Estou aqui”. A gente – desculpa - eu, faço tudo que posso para dar vida às coisas... até usar sabonete íntimo afrodisíaco eu uso, Oswaldo. Mas você... Pegada, Oswaldo. Te falta pegada para chegar junto e me juntar num canto. Sabe lá, né? Vai ver anda se enchendo de sonhos românticos e cheios de rigor. Eu quero é vigor, Oswaldo. E eu nem sei como te falar tanta coisa... Por isso mandei essa carta pro jornal. Quem sabe você lê e vem falar comigo. O que não dá é para desistir. Ficar aí ensimesmado. Cheio de silêncios e pontas. Silêncios e obtuosidades tontas. Eu, hein! Como disse o mocinho no final: O que fica é a certeza do convite. De querer ser feliz. Você quer? Quer pensar naquilo que nos move? Os músculos? O cérebro que comanda os músculos? Ou o coração que nada sente, mas que se parar, a gente morre? Sabe lá. É como me disse um amigo esse final de semana: “Viver dá um vesgo na gente”. E eu achei tão poético. “O amor é filme”, Oswaldo. “eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que faz quando a gente ama”. E é aventura sem tamanho estar vivo e aqui e agora. Agora... as letrinhas “the end” que aparecem no final é outra coisa. E quando é que termina? Quando é que “dá certo?” Uns dizem que no final tudo dá certo. Senão não é o final. Eu fico com o sinal de “dois pontos” que Clarice Lispector dá em Felicidade Clandestina... Fico com a surpresa a cada respiro. Deixo você com seu castelo de minúcias. Torcendo para que um insondável efeito dominó a tudo devaste sem piedade. Que reste só você e o recomeço. Você e as possibilidades que deixou passar. Que dessa vez você as veja. Eu, Amélia fui.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
PASSEIO NA CHUVA
Dia desses resolvi dar uma passeada na chuva. Tudo - friozinho, chuva fina e constante, soninho de depois do almoço, uma pilha de coisas para ler, trabalhos para a faculdade, a crônica da semana – me pedia para ficar mesmo em casa. Apontava essa direção. Acontece, porém, que gosto muito de caminhar (e os últimos dias não tinham permitido isso), de modo que, qualquer coisa entre criar coragem e já estar um pouco predisposta, enfiei o pé no tênis (invenção danada de boa pra caminhar), passei a mão no meu guarda-chuva e tranquei a porta atrás de mim. Todas as obrigações ficaram e eu fui.
Comecei a caminhada escolhendo ir de escada. Desci lá os exatos 70 degraus. E saí na chuvinha. Já na rua comecei a pensar nas peculiaridades desse objeto: o guarda-chuva. O meu é fantástico porque é transparente. Eu que sou uma moça olhadeira preferi esse na hora da compra porque poderia olhar pro céu de quando em quando, ver nuvens, relâmpagos, raios. A própria chuva que pinga forte ou devagar, grossa ou fina sobre ele e você vê isso e vê também a água escorrer pelas bordas. Mas eu nem precisava de guarda-chuva transparente para ver outras coisas que vi pelo caminho.
O bacana de fazer coisas diferentes é que tem todo um olhar novo que você coloca sobre as coisas que normalmente vê. São outros pontos de vista em você mesmo. Porque nem sempre as coisas mudam, é você que pode mudá-las (ou não) colocando um olhar diferente naquela mesma direção. Os calçamentos quebrados da Blumenau e da Dr. João Colin, por exemplo, como sou moça andadeira, bem sei que estão lá há bastante tempo. Com a tal chuvinha, imagine... poças e poças pra gente desviar. Ou meter o pé de forma distraída e molhar o sapatinho. Ou torcer o pé! O cruzamento da Benjamin Constant com a Visconde de Mauá já é um desassossego em dias de sol e noites de lua, pense com chuva! É preciso um semáforo urgente – já perdi a conta de quantas vezes corri para a sacada ver mais um acidente. Foram muitos motoqueiros no chão. Gente correndo, triângulos no meio da via, socorro, guincho... Se não for instalado um semáforo ou ao menos um redutor de velocidade, talvez se possa pensar num ponto fixo para um carro do SAMU. Mas enfim, também tem coisa boa. No caminho fui me encantando com meus companheiros de passeio. O alinhado homem com terno e guarda-chuva pretos. A linda senhorinha com sombrinha marrom cheia de minúsculas flores em rosa e verde. O acessório combinava com a calça marrom e o casaquinho bege. Uma graça a senhorinha.
Já lá no centro, a confusão de transeuntes com seus acessórios. Há que ter certo cuidado para desviar o objeto do rosto das pessoas que passam apressadas. Eu por vezes levantava o meu e deixava aqueles que vinham irredutíveis passarem ao largo (alguém tem que ceder, não é?). Mais lá na frente, quando a chuva deu um sossego, uma mulher com sobretudo 7/8, sapato bom de andar tipo aqueles “calçados Vulcabrás” que eu via em propagandas quando era criança, uma bolsa toda cheia de compartimentos, com presilha para guarda-chuvas e o guarda-chuva preso lá. Um charme de mulher “efetiva”, pronta para sol e chuva e para andar! Já na volta uma moça chama minha atenção com seu acessório: Um guarda-chuva branco com algumas pintas pretas e, pense leitor: duas orelhas! E divertida cruzou a via na faixa. Uma graça.
Já na rua de casa peguei a chuva de frente. Inclinei meu objeto transparente e vi aquilo chover em mim sem me molhar. Vi os carros quando mudei de calçada e as pessoas que passaram por mim. Vi até o portão de casa por onde eu ia passar e logo logo tomar um cafezinho quente e degustar a aventura do passeio. “Certos dias, de chuva, nem é bom sair de casa e agitar. É melhor dormir”. Ah. Guilherme, hoje eu tive que cantar sua música sem o NÃO e também tirei a parte do “dormir”. Eu tentei e aconteceu. Valeu!
domingo, 18 de julho de 2010
INTERAÇÕES
Agora que o encaracolado do cabelo começa a tomar forma, que os cachos passeiam sobre minha pele e as roupas sobre meu corpo têm a graça de uma criança arrumada pela mãe (exceto pelos lacinhos e tiarinhas); me encontro como aquela amiga; também pensando seriamente em tomar suco de formol com aloe vera. Preciso de flexibilidade, amiga! Há algum jeito de se conseguir isso sem essa garrafada? E minha pele? Está gritando por um tratamento de choque! Eu penso em tudo que Tiago não faz, não diz, não sente. Ele é não. Não, não... Ele não é. E eu fico sempre boiando nesse assombramento. Ele entra, sai, vai embora, desaparece por quatro meses e sempre reclama do cachorro quando volta. Reclama do cachorro, mas é ele que não sai do banheiro sem deixar no chão resquícios de si. Será tão difícil assim mirar o vaso sanitário? Digo, acertar a mira? Por isso e por tudo que não falo eu pedi para ele ir embora de uma vez. Assim simples mesmo. Como quem pede uma pizza. E disse pra ele: Minha casa é casa que tem cachorro, sem dúvida. Mas não tem porco. Agora não tem mais. Minha amiga diz que tenho um “corpo-aquário de vidro”. Acho tão bonito. Diz que sou um oceano de informação-tensão-desejo, mas que no cotidiano só se deixa ver peixinho de aquário. Diz que sou como um livro com absurda quantidade de feromônio inundando cada página. Será? De qualquer modo mandei Tiago embora. Mas minha casa ainda tem cheiro. E cheira sexo. “Não é nada palpável”, minha amiga diz: “Nada que se aponte. Talvez mais para a ideia de um quarto de motel, fartamente usado, lençóis impregnados, toalhas úmidas, resquícios de toda volúpia que houve ali e que se mantém. Mas o que resta é cheiro.... Essa coisa que é senão gatilho para a memória. Me lembro de desejos equivalentes que tive e retive. Dos olhares que também fingi não dar e daqueles lancinantes capazes de desvirtuá-lo. Me lembro de sons de lençóis sob corpos agitados, de respiração arfante, sons de sussurros”. Ah...minha amiga, isso é conversa de “closet”. Conversa com sensação de calor, profundidade, amorfa. Conversa que vai esvaindo, escorrendo.... Conversa “magma” - lava, vulcão, jato, uma coisa forte, quente, perigosa, vermelha, amarela, laranja, atraente, brilhante, letal, destruidora, formadora, imponente, respeitosa, temerosa, dolorida. Ah! De novo, seja como for, ela lembra daquela pizza que comemos, onde estava tudo tão escuro mas a bicicleta era amarela! “Eu, por mim vou até o cabeleireiro esse final de semana: fazer uma francesinha branca sobre o azul nas mãos, quase não vai chamar atenção”. E aí me conta que o escritório para quem ela presta serviço pediu um orçamento de projeto. Diz que a coisa é mega. Um canteiro para 200 homens no caminho para um lugar chamado Rurópolis. No meio do absoluto nada. Fala sobre as implicações logísticas e que ela deu o preço, mas tem certeza que eles arranjarão quem faça por 1/4 do valor. E conta também que a hidrelétrica fez contato com ela. Diz que se ofereceu e que eles não aceitaram sob a alegação de que é qualificada demais para o serviço... Eu digo para ela que eu preciso mesmo arranjar um namorado! Que estou quase latindo de tanto conviver só com meu cachorro. E então a gente ri fartamente.
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