terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PAIXÃO E PREVISÕES METEREOLÓGICAS

Ilustração: TULIPA RUIZ
Quando, em meio ao feio de uma tempestade que no céu se arma, questionam a moça (ela em vão tenta recolher as roupas do varal), entrelábios responde: eu tento segurar e livrar as roupas da tempestade. Eu tento segurá-las. Eu tento me segurar porque as coisas ventam e fazem tempestades em mim. . Nara está apaixonada e diante de todas as alterações climáticas, prevê cataclismas. No verão eu ardo de amor e no inverno sinto muita falta dele. Ele, que desde aquele manso setembro (em outros tempos a natureza era mais quieta) chegou sem previsão. O clima já era em ebulição (apenas não se sabia). Foi então depois de algum tempo que as geleiras começaram a derreter. O aquecimento global a deitar seus efeitos. Nara então passou a ler previsões. Se precaveu. Trancou as portas, colocou travas na janela e elevou os móveis do chão. Mas ele veio água em movimento. Veio tsunami. Passou por cima de todos os esteios. Balançou a rigidez dos arranjos e entrou por todos os canais. Alagou o mundo da moça. Se ela tivesse prestado atenção... Lembra do silêncio que se fez antes. Do barulho que retumbou quando se viu no olhar dele. Se prestasse mais atenção não estaria tão distraída, tão sujeita aos ventos, às águas e seus movimentos. Mas estava. E então as previsões encheram os vazios de sustos e sulcos. De olhares afivelando ideias, escapes – saída qualquer. Nara sente-se escorrer. Olha para trás e vê o chão que sumiu a cada passo que ela deu. Pensa no seu nome diante disso. Em cada uma das letras de seu nome que circula no centrípeto e no centrífugo da ideia, dos furacões e tornados misturadas com as letras do nome dele. As letras misturadas rodando lá dentro e o fenômeno se carregando dessa energia. Parte das ideias sendo arremessadas sabe-se lá para onde e as outras numa descida frenética para o centro. Então ela pensa no ralo. O ralo do mundo. Tudo vai para o ralo, afinal. O ralo do mundo. Quase se aquieta (se o caminho natural é esse, o que se pode fazer?). Ela quase. Porque a despeito de previsões metereológicas, ela é instabilidade: é vento e coisa que é levada por ele. É tempestade. É fenômeno e pessoa. Apaixonada, Nara nunca toca a vida com a ponta dos dedos. Então ela abre a porta e pisa na soleira olhando para o céu. Um feixe de cinza e alguns raios prenunciam outra tempestade. Lembra de uma poeta catarinense e vai até a calçada. Atravessa repetindo: “mulheres ensimesmadas não atravessam a calçada”. Sorri relâmpagos.

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