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MADALENA

Madalena

Ilustração: TULIPA RUIZ
Olhos rasos, levanta toda manhã. Prediz as circunstâncias do dia que se elabora. Sol dentro. Põe os pés sobre o tapete. Sente as fibras do junco. Lembra da Bahia. Faz uma prece ao santo e bípede, ergue-se. Sabe que pode caminhar sobre duas pernas e isso lhe basta. Lava o rosto e se demora no espelho. Alisa a pele com o creme. Isso a restitui do ontem, do silêncio que faz ainda eco em seus ouvidos. Deixa escorregar o vestido sobre o corpo que desperta e veste a sandália. Miss, atravessa a sala em direção à cozinha. Para em frente ao espelho que há no meio do caminho. Confere. Prepara o café na cafeteira expressa e aguarda que comece a subir até que a fumaça, até que o cheiro da fumaça verte pelos azulejos e toma a sala (até o quarto vazio) e a casa vizinha com a janela aberta. Derrama o líquido escuro sobre a porcelana da xícara, sobre o açúcar e a expectativa que lhe ronda. Sorve de gole em gole o café enquanto amealha suas coisas e põe na bolsa. Pega as chaves. “Logo estarei de volta”. Olha a sala mais uma vez, mais uma vez se olha no espelho. Sai e deixa a porta bater atrás de si. Uma força impele seu ato, aciona neurônios e sinapses, inunda seu corpo de hormônios. Gira nos calcanhares, faz uma curva e retoma os passos (as setas dentro). Madalena é, absolutamente, fruto da evolução. Fruto do indizível que perpetua suas lógicas. 
Mais tarde, ao destrancar a porta, respira um pouco mais o café que ainda perfuma a sala e se olha de novo no espelho. “Estou de volta”. Atrás da cortina, e atrás das nuvens por trás das cortinas, o sol ainda não brilha. Mas vai brilhar. Pega o elástico sobre a mesa e prende os cabelos:



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