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Mostrando postagens de Março, 2011
SALA DE JANTAR
Maria deita o olhar científico e atento para Adelaide e todos que estão na sala. É capaz de se misturar com os pensamentos e de lá retirar sumo. É um jogo perigoso. Apreende o que em vão tenta esconder-se e esparrama-se pelo chão da sala. Uma espécie de sentimento que lhe impinge inadvertida sublimidade. Quer se desapropriar dos discursos, daquilo que fala por ela e não é ela. Olha a cachorrinha e lembra do gosto de correr pela praia e fugir das ondas. Observa Raul. Nada do que diz persiste ante o frenético balançar do rabo roçando-lhe as pernas. Quero ser salva pelo apelo! Me redimir. Então ele diz pra ela não dizer o que escreve. O que nos atravessa não deve ser dito nem escrito. Ela diz para ele que nada resiste ao que se impõe e aniquila, e sorri o ridículo da sua circunstância. Ela ama. O olhar da cachorrinha impede e impele. Para evitar equívocos, toma o cuidado de avisar que é apenas e tão somente a circunstância daquele abanar que a define.
Odair olha o mundo atra…
SOBRE DUNAS
Maria Alice junta um punhado de areia entre as mãos e deixa cair devagarzinho. Pensa em grãos de areia e em desertos. Na duna encantada nos recônditos de Jericoacoara, que, diferente das outras, nunca se move. Dizem que há um navio dentro dela. Um navio que encalhou e então a duna se formou sobre ele. Que durante a noite, entre feixes de luz, seres encantados festejam e vivenciam esse acaso. Então Maria Alice pensa em seres que vivem na areia. Calangos, répteis, insetos, minúsculas e invisíveis bactérias e homens. De todas as raças. De onde ela agora está, vê a multidão que caminha para subir a duna do Por do Sol. Há muitos anos ela estava em outro lugar e lentamente foi caminhando. Ouve alguém dizer que o mar está comendo a duna, mas o que Maria Alice observa é o vento e compreende o amor da duna. Sabe que ela é quem está se dando ao mar. Ele a quer e ela quer ser dele. Então o vento venta nela e devagarzinho ela vai. Que nem o punhado de grãos que escorre de suas mãos. A …
VERAVera, a professora de inglês que mora no 508, disse para Isabel sobre sua zanga. Culpou Eliseu por tudo que houve na história deles. Mas deixou claro que não guarda rancor. Parece insensato da parte dela, mas Vera, embora esteja se virando mal e porcamente com o dinheirinho que entra das aulas, tem formação em física e sabe, dentro dela, que isso não é uma condição estática. Ontem, por exemplo, pensava no princípio da incerteza. Sabe que por esse princípio não é possível se ter a certeza da posição e da velocidade de uma partícula, simultaneamente, e que, quanto maior a precisão com que se conhece uma delas, menor será a precisão com que se pode conhecer a outra. É este o princípio que está na base da mecânica quântica. A partir desse conhecimento ela se sente naturalmente impelida a ver o mundo, as coisas e as pessoas por outra ótica. Diz: não tem jeito, conhecer a física quântica mudou quase tudo que eu sabia. Até a imagem de Eliseu. Pois se em 1919, o cientista alemão Werner He…
ANA JÚLIA e as coisas.
No banco do ônibus, Ana Júlia vê as imagens correrem pela janela. As imagens que estão passando e ficando. Ela está indo. De quando em quando torna os olhos para o livro em seu colo. Para as palavras que entram nela e se alojam. No mormaço, um cachorro esgueira-se em frente ao bar e se enamora dos frangos atravessados nas hastes sobre o fogo. Ela pensa no fogo e em tanta coisa. Apesar da força de seus braços e da agilidade das mãos, pensa nas coisas que não pode segurar. Pensa em Hugo. Nos braços de Hugo. A despeito de tudo que pode constranger um homem, ele segurou a casa que queria ir embora com o vento. Um homem. Uma casa. Um homem e suas sapatas. Tudo que pode segurar alguma coisa no chão. Que pode sustentá-la ou não. Ana deixa-se encobrir pelo escuro do túnel e pensa na alternativa de escavar para atravessar o que se interpõe. O homem é capaz de atravessar pedras e mares inteiros para chegar onde deseja. Onde precisa. Pergunta-se se ações vêm do desejo ou da…