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Mostrando postagens de Novembro, 2010
LAVANDO A ROUPA SUJA


Sem nenhuma exaltação e como estivessem já ali, bem no meio da lavanderia, ela foi explícita. Disse a ele, bem devagarzinho, tudo que tinha para dizer. De forma calma e pausada para que ele pudesse entender. Pediu-lhe desculpas pela rudeza do assalto. Pelo seqüestro. Argumentou que não havia outra alternativa para ela. Agora, na posição em que ele estava, instalado bem no meio da lavanderia, talvez pudesse sentir o amor e o desejo lacerando seu corpo. Que se olhasse bem, talvez pudesse ver a melancolia atravessada, brilhando laranja na parede atrás de si. Talvez.
Ele desentendeu. Estar ali naquela lavanderia, escutar aquela mulher falar tão baixo e tão devagar como se fosse para ele escutar a dor dela não fazia o menor sentido. Como se ele pudesse entender a rudeza do ato. Do seqüestro. Escutou ela falar e falar sem nada sentir, a não ser o peso de seu corpo sobre as pernas e o calo no mindinho do pé direito. Esse maldito calo. Sem nada ver, a não ser uma mulher que…
SOBRE ANIVERSÁRIOS


No último dia 13, meu pai fez 70 anos. Ano passado foi minha mãe a completar 70. Duas “desculpas mais que perfeitas” para reunir toda a família e fazer festa. Família é um conforto que transpassa o tempo. As distâncias e as diferenças. De repente você está lá conversando com os primos que não vê há tanto tempo e isso não transparece. O que emerge é a estranheza de uma intimidade de outrora. Uma mesma história que perpassa. Um algo que enlaça a todos. É boa a sensação. Meu pai gosta de festa. Sempre foi festeiro. E é bom fazer festa pra quem gosta de festa. Minha irmã que mora perto deles orquestrou os detalhes todos do evento. Ela também gosta muito de festa. Meu irmão também. Eu também. Pois é, somos todos filhos do pai. Sei lá se o momento conspirou ou a condição propiciou, mas eu tive a ideia de montar uma apresentação de slides para ele. Eu tinha algumas fotos e comecei por elas. Logo surgiu um mote que foi amarrando as fotos soltas. Então minha irmã mandou mais …
ENTRE JANELAS E PORTAS


Nas minhas andanças por aí, sempre fico me perguntando como é que certas pessoas podem ser tão mal humoradas. Sempre que consigo, penso numa explicação. Ela não deve ter tido um bom dia. Ele deve estar com algum problema. Se a coisa ocorre logo pela manhã, penso que talvez não tenha dormido bem. Vou sendo assim, meio Pollyanna. Sei lá se porque li esse livro quando criança. Talvez. Mas de fato, não gosto de mau humor. Daquele que de tão enraizado vira estilo. Tem gente que gosta. Dizem alguns que ficar sorrindo demais passa atestado de solicitude demais, de paciência demais, de alienação demais. Não sei. Acho apenas que bom humor é vírus. E, como o mau humor, contamina. Nesse sentido penso: ainda bem que há bastante gente contaminada com bom humor também. Espalhando e espalhando sorrisos por aí. Feiticeiros urbanos. Tudo bem que por todos os lados correm notícias ruins e indícios de uma “civilidade” que desintegra cotidianamente. Isso vai refletindo uma espécie d…
VOZES DO ORIENTE



Clotilde Zingali, de Joinville.

Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que estranha, um transbordar que é excesso e é falta. Um não se reconhecer. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses de certa descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Que a falta de “consciência prática” do lugar que o coloca, digamos “meio perdido”, pode ser a mãe dessa boa descarga hormonal. E por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário ao modo ocidental de se olhar para as coisas. Ele cita que lá tudo escapa ao estrangeiro: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. Eu já fico a imaginar que tudo que lhe falta também o arrebata. O mistério, leitor. O tal mistério das coisas. Vejam que coisa interessante Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está at…