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Mostrando postagens de Julho, 2010
CARTA PARA OSWALDO


Oi Oswaldo. Fui embora, amor. Não dava mais, não. Enquanto eu não sabia, a coisa andava. Cheia de furos, a gente sabe. Mas a gente desconhecia os furos. Eu desconhecia, não é, Oswaldo? Esse bendito curso de verão que estou fazendo está me mostrando isso. Quando é pra falar de si próprio tem que dizer EU. Porque senão fica esse negócio enrolado: a gente isso, a gente aquilo... que é isso, né Oswaldo? Acaso tem um batalhão atrás de cada um? Uma espécie de turma que “acompanha” e compartilha nossos pensamentos? Dá a força que se fosse só da gente não teria? Aí, ó. De novo. Aí vira essa “entidade” endossando a opinião que pode ser só de um. Seja como for, eu fui embora. Eu passei por tanta coisa, Oswaldo. Tanta coisa. Quantas vezes eu pensei e repensei as coisas que aconteciam e sempre achava as falhas em mim mesma. Eu que nunca conseguia ser amorosa como você. Nunca tão generosa, tão despida de vontades próprias. Fui colecionando culpas e me deixando ficar. Fiquei muito…
PASSEIO NA CHUVA
Dia desses resolvi dar uma passeada na chuva. Tudo - friozinho, chuva fina e constante, soninho de depois do almoço, uma pilha de coisas para ler, trabalhos para a faculdade, a crônica da semana – me pedia para ficar mesmo em casa. Apontava essa direção. Acontece, porém, que gosto muito de caminhar (e os últimos dias não tinham permitido isso), de modo que, qualquer coisa entre criar coragem e já estar um pouco predisposta, enfiei o pé no tênis (invenção danada de boa pra caminhar), passei a mão no meu guarda-chuva e tranquei a porta atrás de mim. Todas as obrigações ficaram e eu fui.
Comecei a caminhada escolhendo ir de escada. Desci lá os exatos 70 degraus. E saí na chuvinha. Já na rua comecei a pensar nas peculiaridades desse objeto: o guarda-chuva. O meu é fantástico porque é transparente. Eu que sou uma moça olhadeira preferi esse na hora da compra porque poderia olhar pro céu de quando em quando, ver nuvens, relâmpagos, raios. A própria chuva que pinga forte ou d…
INTERAÇÕES
Agora que o encaracolado do cabelo começa a tomar forma, que os cachos passeiam sobre minha pele e as roupas sobre meu corpo têm a graça de uma criança arrumada pela mãe (exceto pelos lacinhos e tiarinhas); me encontro como aquela amiga; também pensando seriamente em tomar suco de formol com aloe vera. Preciso de flexibilidade, amiga! Há algum jeito de se conseguir isso sem essa garrafada? E minha pele? Está gritando por um tratamento de choque! Eu penso em tudo que Tiago não faz, não diz, não sente. Ele é não. Não, não... Ele não é. E eu fico sempre boiando nesse assombramento. Ele entra, sai, vai embora, desaparece por quatro meses e sempre reclama do cachorro quando volta. Reclama do cachorro, mas é ele que não sai do banheiro sem deixar no chão resquícios de si. Será tão difícil assim mirar o vaso sanitário? Digo, acertar a mira? Por isso e por tudo que não falo eu pedi para ele ir embora de uma vez. Assim simples mesmo. Como quem pede uma pizza. E disse pra ele: Minha c…

POEMA NA CIDADE

POEMA NA CIDADE

Caminho pela cidade. Entre o monóxido de carbono e as jardineiras espalhadas estou eu e todas as pessoas que caminham. Ora apresso o passo e ora me perco. Olho a bolsa na vitrine. O cachorro que cheira cada milímetro da calçada. Eu caminho entre a multidão. Parte que vai. Parte que vem. Sou figura e sou fundo. Consciente e inconsciente. Destaco-me da multidão ou misturo-me a ela. Anônima. Entre o lixo e o luxo. O cheiro de urina pelas ruas e mamões, bananas, laranjas e feirantes que gritam. Apelam-me ou ignoram-me. Coleciono pedaços de papel até a próxima lixeira: cartomantes, dinheiro vivo, promoção de produtos para limpeza, como tornar meus dentes mais brancos em 5 dias e cursos que podem salvar minha vida e me dar um lugar no mundo. A mim que, ora leitosa e fluida e ora revestida de couraças, sigo pelas ruas. Se me destaco, sou figura; se me diluo, sou fundo. Para quem? Quem sou eu na rua em que passo, atravesso, detenho-me e suspendo ante o passante e o cachorro? A …

ZEITGEBERS OU fatores de arrasto

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ZEITGEBERS  ou fatores de arrasto

O livro “Você Quer o Que Deseja?” de Jorge Forbes, questiona se queremos mesmo aquilo que desejamos. Faz atentar para o desejo de nos sustentar no enorme vazio que o mundo globalizado abre em nós e como podemos entender e enfrentar problemas como violência, uso indiscriminado de drogas, depressão, e tanta coisa a que estamos submetidos e que nos arrasta. Ao repetir e escutar a pergunta que ele faz me vi pensando sobre a profundidade dela. Passei a pensar mais propriamente se eu queria “de fato”, coisas que eu dizia desejar. Deparei com coisas inerentes às perguntas que eu me fazia: dúvidas, tomada de decião e escolhas. O significado das escolhas e a relação mais imediata: Renúncias! Sim, porque é como falou um alagoano a quem perguntamos sobre o caminho para determinado lugar: “Vocês seguem reto até encontrarem uma bifurcação. Quando lá chegarem, deixem a direita e peguem a esquerda”. Seguimos rindo da expressão “deixar a direita”, mas o fato é que nun…