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Mostrando postagens de Abril, 2011
A ÓTICA DE ADRIANA
Adriana ultimamente tem pensado em rimas. Em combinar e (des) combinar. E vai dando asas para o seu olhar. Um anel feito de uma raiz qualquer que boiava no rio. Um caranguejo cozido na cerveja. Degustar. Muitas braçadas no alastrado do mar. As ondas do mar. Um chocolate. Um livro cheio de aventuras de se perder e se achar. Milhares de palavras. Um enorme ponto de exclamação ou os raios do sol. Dourar e aquecer. Iluminar. Mãos debaixo do cabelo. Um abraço de enrolar os braços. De se perder e se achar. Um poema. Uma música para dançar e se encantar. Uma rede para balançar. Um balanço para ninar. Uma comidinha feita em casa. Um copo de água que mate a sede. Um beijo cheio de sede. A mão quando for preciso. Também o colo. A mão para caminhar. Navegar. Ver os peixes no fundo do mar. Temperos frescos para cozinhar. As margens das coisas. Dunas de uma praia. Todas as praias. Barcos. Velas e claustros. Todas as florestas. Os rinocerontes. As sombras que guardam. Fontes para …
O DESCONFIAR DE ANA
Ana, apesar de não ser mineira, é moça muito desconfiada. Sobe os degraus da escada e desconfia estar atrasada. Em meio à correria não sabe se registrou corretamente o horário. Teria marcado três ou três e meia? De qualquer modo, segue seu passo. Caminha. Em algumas horas saberá. Desconfia que não trancou a porta ao sair e que, como se isso não bastasse, esqueceu de colocar água na vasilha de Peni. Peni é o apelido de sua cachorrinha, Penicilina. Escolheu esse nome porque a substância é curativa e Ana precisava curar-se. De quê? Ela desconfia que de “mal de amor”. Natural então essa atitude. As penicilinas constituem uma das mais importantes classes de antibióticos e são amplamente utilizadas no tratamento clínico de infecções causadas por diversas bactérias. E se Dr. Alexander Fleming, em 1928, tivesse conhecido Ana, certamente estudaria a moça em laboratório. Exatamente como fez com variantes de estafilococos, observando que a cultura de um tipo de fungo, Penicill…
IVONE, O AMOR E A CIDADE
Ivone caminha pela cidade. Dentro dela e do passo ritmado debaixo do sol, descompassos. Um bate estacas crava fundações nalgum lugar. Ivone ama. Carros vão e vêm. Param, disparam. Ivone pensa em César. Uma mão esmola atenção. Ivone esmola o amor de César. “Nunca vou cansar desse oferecimento?”. Por mais que a pressa se deite sobre o dia Ivone não escorre. Caminha por ele e para as coisas que se enfileiram. Pensa em César e diz para ela mesma as palavras. O que diria para ele caso pudesse ouvir: “Você poderia me confortar com maçãs ou algo assim? Uma massagem que me deixasse, inteiramente, relaxada? Eu espero realmente que sim. Meu corpo não gosta de grosserias e só assim eu poderia te receber. Peço, sem nenhuma culpa que me encha de mimos. Poderia, nesse dia, fazer isso? Esquecer do mundo e ficar comigo? Nesse dia quero que viva e me faça viver. Tire meu ar para eu poder respirar. Já pensamos um no outro o resto do tempo”. O farol abre. Ivone entre as pessoas a…
DOCE DOMINGO
Açúcar, cacau, extrato de malte, sal, soro de leite e leite desnatado em pó, mais vitaminas C, B3, B2, B6, A e D, estabilizante, lecitina de soja e aromatizantes; tudo estava no pote de 200 gr de achocolatado em pó e agora está em Márcia. Sabe que não engordará nenhum grama por essa desventura de um domingo chuvoso. Amanhã caminhará durante duas horas inteiras e todas as 800 calorias escorrerão pelos dedinhos miúdos de seus pés. Tem o gosto ainda na boca e os dentes com cor de chocolate. Olha o pote que resta vazio sobre o sofá. Não viu nada no fundo do pote além do vazio dele. Paredes de plástico e o ar (um pote vazio está cheio de ar). Não pode fugir da idéia de que o vazio está dentro dela. “Tem um enorme vazio que me habita e procuro suprimi-lo me afogando em potes de achocolatado”. Seja como for, o vazio toma contornos dentro dela. Provoca dores localizadas e esparsas. De quando em quando arrota silenciosamente. Leva as mãos à boca e sente nos olhos um embaraço. O que…