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SOBRE OS SENTIDOS DO TOQUE
Crônica publicada no Jornal A Notícia em 30 de abril de 2009.




Uma leitora me pediu que escrevesse sobre o toque distraído. Contou que tem alguém, que não sabendo direito como se comunicar com ela, às vezes deixa distraído seu braço tocar no dela. Lendo Fernando Pessoa me deparei com o trecho de um poema que dizia assim:

“Foi um momento em que pousaste sobre o meu braço, num movimento mais de cansaço que pensamento, a tua mão, e a retiraste. Senti ou não? Não sei. Mas lembro e sinto ainda qualquer memória fixa e corpórea onde pousaste a mão que teve qualquer sentido incompreendido, mas tão de leve!... Como se tu, sem o querer, em mim tocasses para dizer qualquer mistério, súbito e etéreo, que nem soubesses que tinha ser.”
Pense só: ele escreve esse texto quem sabe com que bases? A partir de um toque, talvez? Um simples toque? Talvez um toque distraído de alguém, como coloca a leitora. E a partir do qual emerge um poema. Emerge o amor. A despeito de todos os nossos sentidos, estamos sempre em busca do toque, que é diferente do olhar que toca, do som da voz e da palavra dita que tocam. Sim. O toque traz em si algo diverso. Se olharmos do ponto de vista fisiológico, a pele é um recôndito de receptores para sensações, e de lá, os impulsos gerados pelo toque vão direto para o sistema límbico, onde moram as emoções. É muito bacana saber sobre o funcionamento de nosso organismo e em especial, sobre o funcionamento cerebral. Seus mecanismos. O sistema nervoso é muito especial. Integra sensações e idéias, opera sobre a consciência e interpreta os estímulos recebidos; seleciona e processa as informações através das sinapses. Essa conexão entre neurônios, que se dá com um neurônio estimulando o outro, é feita através dos neurotransmissores; e assim se propagam os impulsos nervosos e as informações são transmitidas. Dentro desse processo, entre outras coisas (tantas coisas), têm a memória, as emoções, os pensamentos.
Que delícias e perigos podem advir daí, não é? Para desmascarar o cotidiano e dar de cara com suas fronteiras, é preciso, como em alguns tipos de poesia, misturar deliberadamente as coisas. Subverter regras. Acho que talvez, isso possa parecer com a violação cometida do lápis contra o papel, (agora nesses tempos, escrevemos muitas vezes direto no computador mas é também uma bobagem ficar com reminiscências e nostalgias, certo?) e de todo modo, tudo permanece igual nessa questão da violação. Seja pena, toco de carvão, pedaço de tijolo, gravetos na areia, canivete em troncos de árvore, ou teclas no computador; o ato de “violar” o branco permanece intacto. O ato de criar algo e grafá-lo onde não tinha nada. Como tatuagem. Desenho que inaugura surpresas na superfície da pele. Inaugura erupções de outros “eus”. Como o toque e toda a fala que pode estar contida nele. A linguagem, esse “universo” em que somos banhados, é por onde apreendemos o mundo, nos relacionamos com ele, interpretamos, lutamos, aceitamos, amamos. Mas há um grande paradoxo aí, leitor. Se a linguagem é esse “corpo” de signos, ela é também, um limite – um limite para compreendermos a realidade, o cotidiano. Transcender talvez seja a palavra. Vencer as impossibilidades que se colocam com ações. Que nem aquele toque distraído. E todo o indizível que ele pode carregar. Parodiando Antonio Cícero, eu diria: um toque distraído é como guardar uma coisa, e como ele diz “guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la...guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado...”

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