domingo, 15 de janeiro de 2017

MAIS UMA DE AMOR

 



Entre tantas coisas, uma coisa.  
Plutônio + potássio + açúcar comum = bomba, injetar gasolina ou querosene em uma lâmpada e quando você acende = buuum!!! (sim, a onomatopeia é minha). Há também onomatopeias providenciais, talvez um dia especial e talvez um neurologista que não entenda nada de amor. Mas ele pode dizer que, ainda que seja improvável, o recomendável é manter-se isento. 

Se o constrangimento piora a gagueira, eu não sei absolutamente nada sobre incêndios e explosões e preciso ganhar tempo. Então ele me diz que nossa mente tende a encontrar padrões... Tende? Talvez por isso eu passe lustra-móveis em todas as portas antes do meu amor chegar. Pergunto ao neurologista quanto tempo precisarei para viver entre tantas coisas sem apenas uma? como manter o escrúpulo diante do que me aborda pela porta da frente? Ele sorri e diz que para abrir ou fechar a porta basta girar a maçaneta. Que todo o mais pode ser arbitrário ou adjacente.

MINHA MENINA



Resultado de imagem para meninas desenho tumblrResultado de imagem para meninas desenho tumblrResultado de imagem para meninas desenho tumblrela tem cabelos longos e um desencontro dentro do nome. no sorriso deixa entrever uma covinha. moro ali quando ela sorri de olhos arregalados. é quando aparece a sabedoria e a força do verbo.  um prenúncio de algo no passado (pretérito imperfeito do indicativo) mas que não foi completamente terminado. um atravessar no tempo. uma fábula para eu me aninhar. o mundo inteiro cabe nela. cabe até o universo. desolha meu oi bem lá dentro do olho e sorri fingindo sentir a alegria que sente. depois continua, ainda que sem falar. sem fazer sorrir a covinha. é onde lá? a gente sai pela porta da frente?  se ri do que inventa. tem um jeito só seu de arrumar o cabelo e de desenhar o caminho por onde passa e desarranja as definições todas. até as que insistem em resistir. depois ela parece guardada nas palavras, sobretudo nas mais simples e curtinhas, feito o seu nome. ainda que tenha sido feita sem a prerrogativa do nome, ela é toda cada letra e circunstância dele. tem hiato  no nome dela; que é um pedaço de tempo que define agora e depois. isso é, ao menos, duas vidas em uma. sorri quando conto para ela essa insignificância, mas tem um punhado de despropósitos na bolsinha que carrega atravessada no tronco. e faz arquiteturas e brejeirices como ninguém. tece de rios e flores um pedaço de papel. a parede, o banquinho e a penteadeira do quarto. no meio da sala, debaixo da noite, e da penumbra da noite, lê recostada no balanço da cadeira. sonha mundos. põe sol e chuva sobre o sofá e a cristaleira. sobre o tapete heróis espalhados com as pernas sobre a mesa. garota prodígio, tece de invenções os meus despropósitos e desperdícios. de novo eu moro na covinha enquanto ela, ali, vai enchendo vazios e adentrando o que pode haver no que se apresenta. uma manhã de sol, uma saia feita de cobertor, uma boneca assustadora que vai para o fundo da prateleira. (des)inventa as coisas enquanto fala e eu vou escutando as cores do que diz. acho mesmo que fico lá na música de fundo que sua voz vira e me entretém. ela me carrega assim para a cena que inventa e me deixa inaugurar horizontes que não conhecia. e isso é quando eu pego delírio e entro em estado de contemplação. pois dentro dela há profundidade e silêncio; e há tantas vidas dentro. cabe o universo nas covinhas que o sorriso dela faz. ela poderia ser tantas e é. ela é todas quantas houver e é também cada uma e a mistura delas. ela é porque é e é também quando eu a recrio ou invento. mas eu, eu olho mais um pouco a covinha e sei que mesmo, mesmo; ela é a minha Iaiá.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

MADALENA

Madalena

Ilustração: TULIPA RUIZ
Olhos rasos, levanta toda manhã. Prediz as circunstâncias do dia que se elabora. Sol dentro. Põe os pés sobre o tapete. Sente as fibras do junco. Pensa na Bahia. Faz uma prece ao santo e bípede, ergue-se. Sabe que pode caminhar sobre duas pernas e isso lhe basta. Lava o rosto e se demora em frente ao espelho. Alisa a pele com o creme. Isso a restitui do ontem, do silêncio que faz ainda eco em seus ouvidos. Deixa escorregar o vestido sobre o corpo que desperta e veste a sandália. Miss, atravessa a sala em direção à cozinha. Para em frente ao espelho que há no meio do caminho. Confere. Prepara o café na cafeteira expressa e aguarda que comece a subir até que a fumaça, até que o cheiro da fumaça verte pelos azulejos e toma a sala (até o quarto vazio) e a casa vizinha com a janela aberta. Derrama o líquido escuro sobre a porcelana da xícara, sobre o açúcar e a expectativa que lhe ronda. Sorve de gole em gole o café enquanto amealha suas coisas e põe na bolsa. Pega as chaves. “Logo estarei de volta”. Olha a sala mais uma vez, mais uma vez se olha no espelho. Sai e deixa a porta bater atrás de si. Uma força impele seu ato, aciona neurônios e sinapses, inunda seu corpo de hormônios. Gira nos calcanhares, faz uma curva e retoma os passos (as setas dentro). Madalena é, absolutamente, fruto da evolução. Fruto do indizível que perpetua suas lógicas. 
Mais tarde, ao destrancar a porta, respira um pouco mais o café que ainda perfuma a sala e se olha de novo no espelho. “Estou de volta”. Atrás da cortina, e atrás das nuvens por trás das cortinas, o sol ainda não brilha. Mas vai brilhar. Pega o elástico sobre a mesa e prende os cabelos:


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O FOTÓGRAFO





Eu fotografo ideias e projetos para ver as estórias. Para capturar e interpretar o momento. É então que a imagem é bandeira que defendo; argumento que apresento. Se a vida é um evento, eu fotografo para conservar. Para guardar.  Feito poema onde guardo o que é primeiro plano e também o plano de fundo. Desarticulo para ver mais a gravidade da cena. E de novo interpreto. No fundo, sou contador de estórias e fotografo para guardar. Ontem, por exemplo, a vazante de águas raras e claras eram como janelas no manguezal; e eu interpretei a dinâmica da seca e da cheia naquele poema-cena. Feito mata ciliar, o que distancia e protege também põe em contato; provoca o conflito e o argumento; e eu sou espécie entre as espécies que fotografo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

PARA O ANO NOVO de Patricia Claudine Hoffmann

Para o ano novo... por Patrícia Claudine Hoffmann

Os fins não justificam
os medos.
Então
que ao menos os anjos
cuidem das marés.
E o mar tenha a generosidade
de não agredir
a fuga.
Porque há uns barcos pequenos
no lado de dentro.
- que ninguém faça mais
nascer a fuga -
Que o ano novo traga
estoques de ajuda.
Estanque as correntezas
do ódio,
transborde odes
de paz e amizade.
Que a fé não seja o único lugar
seguro,
mas traga algo além
do alento
no escuro.
Restaure os terrenos, as luzes,
os risos, os rios, as casas,
os camicases arrependidos...
Que a nova fase
encontre oásis humanos.
E que este não seja só
mais um poema só
de fim de ano.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

AH O AMOR. O TAL AMOR...





como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção. quando se canta uma canção, é amor. precisa ser.

ilustração: TULIPA RUIZ
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? Sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Que amar é sofrer. Rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bola. Morrer de ciúme. Lavar uma pia cheia de louças. Cozinhar e fazer um cuz-cuz para alguém é amor. Tirar um cisco do rosto de alguém. Um cabelo teimoso que entra na frente do olho. Matar uma barata. Sair de cena. Entrar em cena. Abrir a janela e jogar as tranças depois de escutar "Eu te amo Rapunzel!" Tomar veneno como os meninos de Shakespeare? É partir. É ficar. É cantar. Esconder coisas para alguém achar. (como um anel de brilhantes no meio de uma truffa?, um bilhetinho embaixo da xícara de café?, esconder a você mesmo atrás da cortina para perguntar para uma criança: cadê? escrever no outdoor da rua onde seu amor sempre passa: “Eu te amo, Sara”). 

Amar é divagar. É concentrar. Depende. É fazer revoar a passarada no meio do caminho. Apreciar o vôo de quem voa. Tremer enquanto o outro voa. Amar é ficar sem palavra na boca. É amar tanto que seca a boca. É andar num metropolitano. É dizer, sou sim soteropolitano! E tu? que me diz, Coriolano? Amar é fazer graça com as coisas. Até com ideia de amar. 

Amar é escrever "eu te amo" na areia da praia pra depois a água do mar lamber e ser testemunha. Amar é testemunhar. Ou não. É um grito, de repente, no meio da sala. É colocar as roupas todas da mala e dizer: Adeus. Dizer Ah! Deus! Como eu amo! 

Amar é, diante do tanto que assombra, lembrar do andróide que salva seu caçador em Blade Runner ou cantar de peito aberto o que diz Maria Bethania: “Sonhar, mais um sonho impossível”... Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz??... 

Amar de todo jeito. Ideias de amor. Ideias de amar. E valem. Amar é não colocar preço. É colocar as cartas na mesa. É esconder ou entrar no jogo. Abandonar ou entrar no barco. Dizer: Eu vou nadando, sambando, cantando. Vou com você. Apesar de você. Eu vou; e você? Vambora..... Vamoagora... Vem comigo agora, hoje, enquanto a gente se adora 🎵🎵🎵🎵

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR 
(diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ), anoiteço.

oto Clotilde Zingali 2015 em praia do Francês/SC

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 

como
o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.

ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

TERRA NATAL



Pergunta-se o que é Terra Natal. Dizem
que como o amor, é coisa única. Um só amor. Uma só terra natal. 
Mariana não pensa assim. Sente-se capaz de abrigar amor simultâneo por coisas, cidades e pessoas. Por isso ama Edgar e Rafael. O vestido  de oncinha e os chinelos. Navega nas ruas de tantas cidades e diz: acho que nasci aqui. À muitos lugares ela sente pertencer. Lembra das aulas de matemática e dos símbolos de  pertence e não pertence... sabe que Fundamental é mesmo, o amor. 
Sobre o que muda, ela escuta o que se avizinha e faz ninho no quintal. Ao cair da tarde, vislumbra possibilidades de recriar-se e sair da mesmice. Nem sempre é possível. Estamos todos destinados à mesmice! diz apocalíptica. 
Dentre as mudanças, prefere aquelas que sem motivos prévios, simplesmente Acontecem. Se interpõem feito tiro. Ela entre o disparo e o alvo. Sem ter para onde correr. Sem tempo, talvez, para temer. 
Mariana gosta de experimentar desassossegos, cheiros inusitados e rajadas de vento. Sabe que viver é como estar no sofá de uma sala de espera, somente no aguardo da sua vez de entrar. Dar ou receber o diagnóstico. Assinar ou não o contrato e assumir as prestações que a farão refém ou algoz. Os papéis todos da gaveta espalhados sobre a mesa. Um foco de luz roendo um pedaço do seu chão. 
Viver é estar no conflito; e 
Mariana sabe disso e ama cada estrondo. Cada parede que desmorona, e cada outra que se ergue. Sabe que coragem não é ausência de medo – é o medo mais o desejo de fazer determinada coisa, de superar aquele medo. 
Deve ser por isso que toma o avião carregando apenas sua bolsa. Sabe que quando se tem muito a perder não há espaço para pensar. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR 


se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. 

em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão de um mergulho na cheia da maré; da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. 

em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. 

se a vida é mesmo bobagem e irrelevância (é?), liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

SOBRE VAZIOS



SOBRE VAZIOS




sou arquiteta. tenho apaixonamento por conceitos e palavras estruturais: por exemplo: palavra ferro, palavra concreto; também pela mecânica das palavras tenho apaixonamento: palavra envergada, palavra cisalhada; palavra fundida.

MUBE - Museu Brasileiro da Escultura


amo especialmente palavras fio: com alma de aço. gosto de até de onde elas podem ir: como a palavra balanço;

atravessa vãos inteiros e compreende amplamente um vazio. 

de lá, desdobra em contemplação.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

GUARDAR de Antonio Cícero

Guardar
 Antonio Cicero



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS




PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS

uma palavra ou quem sabe um novo dicionário. um léxico inteiro... PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS para começar DEZEMBRO desse ano exagerado de tantas perplexidades

preciso de uma palavra para projetar. uma palavra para construir e representar ideias. uma palavra tijolo. preciso ainda  de uma palavra que sustente. uma palavra base. é mais do que organizar ou dispor as coisas com lógica e depois banhá-las em estética. preciso de palavra para desvirginar o vazio. palavra para fazer chão.

sábado, 26 de novembro de 2016

SOBRE PIPAS

                                      SOBRE PIPAS


pedaços coloridos de papel, 
leveza, cor e, talvez,
por detrás de uns óculos escuros, uma pitada de manteiga e acúcar.

no céu de Paris ou Bagdá
entre as nuvens na India ou Tailândia
por cima das árvores e edifícios, aqui ou em Pequi;
voo, música e dança,
sob a estrutura que verga e
decifra asas;

linha na pipa,
rasantes na razão do chão -
gravito no suspenso do ar dentro da térmica -
linha na mão; música e dança.

na razão do chão, voo e asa
na linha e na asa,
voo e casa.



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

DA CALMA E DO SILÊNCIO












https://poemargens.blogspot.com.br



Conceição Evaristo, vencedora do Prêmio Jabuti do ano passado - categoria contos e crônicas, com o livro Olhos D’água, é uma das vozes mais fortes da literatura atual.



Da Calma e do Silêncio
 
                   
Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na  aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

OUTROS MUNDOS :)



poemas memo.  por Sergio Cohn

Há um resíduo de futuro
no vento, fotograma ante-
cipado, montagem de fragmentos
induzindo à cena. Como
aquela árvore se curvando com-
placente aos invisíveis pesos,
como o mormaço
predizendo chuva. Repito,
há um canto anterior
a qualquer canto, uma réstia,
um eco primeiro, como um som
que ressoa por dentro de cada
palavra, como todo gesto se
desenha e apaga, então
novamente. Há o revés,
o diáfano, o termo, beleza
posta e perdida, o desen-
cadeamente, assim
como a sede do vapor
por uma forma, assim
como tudo retorna
à imaginação
por trás da cortina
da memória.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

ANARQUIPÉLAGO

ANARQUIPÉLAGO
Submersas e móveis
ilhas isoladas
sob um sol submarino
no solstício de dezembro.
Não há caravelas
nem argonautas,
apenas náufragos
em águas estrangeiras.
Loucas e líquidas latitudes,
mil mares inavegáveis.
Cinco ilhas livres:
entre elas, no fundo indizível,
vive,
no mar de fuligem, Le Bateau Ivre.
Guarda (contrabando na carga)
palavras como âncoras corroídas,
ossos e um mundo fora de prumo.
O velame de velcro avisa
a vagabundos visionários e intempestivos
que só se navega de verdade
verticalmente.
Ilhas em fuga
afundam a teoria dos conjuntos,
a falácia dos mapas,
o sentido da história,
os gozos memoráveis.
Tantos portos,
tantas palavras
e nenhum destino.
E se todo caminho for (clan)destino?
 JOSÉ ANTONIO CAVALCANTI

terça-feira, 13 de setembro de 2016

TURBULÊNCIA VIRAL


http://lucianomartins.art.br/galeria-on-line-acervo/
de viés, sob o baixo dos olhos, o homem faz silêncio. se perguntasse, diria que, ainda que inexata, sinto agora estar mais demonstrável. por exemplo: aceito a ideia da mente como máquina de fazer relevâncias; sigo aberta e precipitada. exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono: ossos e músculos me carregam sob alcunhas diversas. estou quase em paz. se ele, debaixo dos olhos, perguntasse, diria ainda que com mais ou menos ferrugem nos nervos, ainda sou volúpia e aconchego; fertilidade e seca. diria bem calma e pausadamente, que em cada palmo de mim o sol brilha e se apaga; que acato flores de cerejeira e revoadas de pássaros. aceito e acato o que chega e o que vai. procuro nas coisas vagas, cadência; e se for preciso, eu brigo. ele, de olhos baixos, talvez anotasse coisa qualquer no papel. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

DEPOIS DA NOITE

http://viverdechamego.blogspot.com.br/2012/12/atelie-da-tulipa.html

DEPOIS DA NOITE

o biônico da manhã esconde os segredos dos pés descalços. a preguiça. entre cascas, uma lembrança escondida. entre o osso e a cartilagem, algo de entumecido cristaliza no tempo, e a voz na varanda molha debaixo da goteira debaixo da chuva que insiste debaixo da preguiça, apesar, do claro do dia, de um dia talvez ameno e do resedá que insiste num verão qualquer, insiste na barca de amantes. insiste numa especie de nevoeiro:  carnaval em corda bamba, cordas rotas. jaz na retina um aroma antigo: um sabor de água da talha, de sede apesar da cacimba. há talvez uma jangada na ponta do abismo. e velas abertas. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

SOBRE VAZANTES


SOBRE VAZANTES

o movimento caudaloso do rio;
roda dentada do desejo;
anoiteçe e adentra a terra

a metáfora passa a língua
no pescoço que esquiva;
dedilhante e obsceno.

um disfarce líquido
oculto e peludo
na sombra do salgueiros.

há mais que demoras na algibeira: 
uma vastidão de urgências.

na emboscada,
farpas de medo e redenção; 
ímpeto dentro,
labaredas estrilam nos olhos
da seca;
um desejo sonâmbulo, e o espanto: tudo é sangue.

E se fosse atrito?
Tempestade, concha?
Resvalaria?

(Lamberia que nem cachorro do mato?)








terça-feira, 16 de agosto de 2016

PERCEPÇÕES



http://artprojectsforkids.org/category/view-by-artist/artist-kandinsky/

PERCEPÇOES




um cheiro de azinhavre faz pausa pela casa e na casca inexata e frouxa da pupila da terra rego meu espanto debaixo da chuva. estou tão cheia de puídos...(vês?)

se não talho meu passo na caminhada ou sequer me agarro às rochas; flano na pedra, no musgo da pedra, na epiderme da mata que cilia as águas.



faço espaço entre algas e sargaços para achar a necessária contundênciasou afeita a abstrações e devaneios,


mas não me intimido na contraluz.

domingo, 14 de agosto de 2016

SOBRE CAVALGAR

O poema galopa sobre
os cascos
salta dentro do vento e do cheiro
salta no oco da palavra;
https://wallpapersdoalvaro.blogspot.com.br/2011/10/cavalos-selvagens.html
veloz faz a curva
pele e pêlo.

O poema não aceita ser encilhado.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

ODE PARA LUÍZA

Ilustração: Eva Armisén

Ode para Luiza 

pelo sulco do olho verto uma lágrima. ato ridículo e baldio como carta de amor nunca escrita. uma lágrima furtiva. rútila. apenas para edificar a dor: dar equilíbrio e resistência.

galhofeira, insisto em frente ao espelho um tanto lânguida (vês?); amarro com arame as lacunas para estar assim: súbita e obscena. 

dedilhante, suprimo o ar da palavra para fazer cardume de desejos em franca apnéia; dividir o mar com arraias: heterônima e abandonada. cerzida e voadora.


depois, farpo os espaços por puro capricho. coloco a palavra deserto no meio da palavra água pelo prazer de ver tudo desandar. por delirar e estar assim: vítrea, viscosa e febril. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

GÂNDARA

GÂNDARA



debaixo do sol ou na noite escura, tateio alhures entre palavras que insistem. tangencio a superfície da areia com a pele e faço núpcias com a escuridão. a memória me traz qualquer coisa de imaterial: sou aguçada por lembranças basais. matizada de impurezas. de tanta sede, rezo uma prece natural debaixo de um pequeno arvoredo: posso ver na lágrima um peixe; e mais ali, formações de líquen (olha). eu gosto tanto de prismas!

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

SOBRE GARIMPAR


http://www.gravura.art.br/carybe-2697.html

SOBRE GARIMPAR


(publicado na Oficina da Palavra Selvagem em 27 de julho de 2016)


Todo homem garimpa. Todo homem garimpa e se sabe musgo. se sabe pedra e rajada de vento. se sabe banho de ofurô.

Todo homem garimpa até mesmo quando o fogo dos sonhos faz soar ao longe uma ocarina: todo o mais passa e fica nas molduras e rodapés. nas notas de pé de página. 

Todo homem que garimpa é mais quando, pés n’água, carrega o horizonte nas mãos e nos olhos; a busca. todo homem, até em água benta, garimpa: silêncios e palavras: trampolins de onde salta para voar em papel de arroz. ladear talha-mares. todo homem garimpa. todo homem; música, perfume e voo. 
http://www.gravura.art.br/carybe-2697.html

terça-feira, 26 de julho de 2016

Receita para, aqui, no JAPÃO, em PORTUGAL ou onde seja, CONTER A MESMICE nas TEMPORADAS DE CEREJA

Receita para, aqui, no JAPÃO, em PORTUGAL ou onde seja, CONTER A MESMICE nas TEMPORADAS DE CEREJA



Ele te dá uma cereja. O gosto atinge direto órgãos e glândulas. Passa antes pela língua. O olhar dele é injeção de glicose que você sorve e dissolve na papila já tingida de sabor. 

O líquido te percorre, depurando, fomentando outras reações, enquanto o olho dele te olha. É tudo vermelho enquanto isso; e, enquanto isso, ele enxerga a contradição que você é e fica te variando entre os dedos. Ora um, ora dois, ora cinco. Como saquinhos de veludo ele te varia entre os dedos. Uma a uma as fichas vão te caindo no estômago. Uma a uma você sente a dor. Ouve sinos. Eles balançam e fazem um barulho incomum. É o chão que está ruindo. Em tudo você vê erupção: prazer, medo, susto e alívio. Daqui a pouco tudo vai ser um amontoado de imagens lá longe. 

Ele ri e brinca com os saquinhos de veludo. Você pensa em se prender no sino para não morrer à toa. Balançar e fazer barulho com ele. Depois pegar a corda e se jogar: chegar de olhos arregalados no Japão. Olhando o olhar dele você se dá conta que prefere sua parte em dinheiro - pegar o dinheiro e comprar tudo em cerejas... 

Quando, (mais uma vez) ele estiver te variando entre os dedos, surpreenda-o: 

Esparrame todas as cerejas bem no meio da sala, da cozinha, onde for, e, descalça, devagarzinho, pise em cada uma com a pontinha do pé. Sorria. Esmague uma a uma sob seus pés. E vá rindo do espanto dele. Ria até ele dizer pra você parar. Então pergunte: Que foi meu amor? Você queria as cerejas?