terça-feira, 11 de outubro de 2011

CLARA E A EVOLUÇÃO DA BILIS

Clara olha dentro dos olhos de Raul e desentende o que quer que seja. De algum modo o que quer que saiba vira nada. Não que ela saiba qualquer coisa. Nos últimos tempos tem pensado que sabe mesmo é nada. Possui da vida um conhecimento empírico, que pra ela, substancialmente, é o oposto daquilo tudo que é científico. E sem ser científico, aos olhos dela, no desespero, vira nada. Científico é algo que atesta para ela o que é insondável e o homem diz é. Está provado. Tem amor e horror a isso. Pensa nas coisas como jogo de forças, trocas energéticas e disparos acidentais. No mistério. Não se sabe nada de uma coisa e então aquilo é que encanta. O não saber. O navegar em dúvidas. A inconstância dela própria e das coisas. Então olha de longe as discussões inflamadas. Parece ver que o chão se move enquanto as pessoas tentam obsessivamente segurar-se. Lembra-se de alguém que disse: “O gosto é um achamento”. A vida para ela é um encantamento que surge de frases esparsas. Como Racine disse: “O que é bom em segredo é melhor em público”. Ela segue captando os segredos que escapam. Escapam e ela pega. Pensa se para ser homem ou mulher é preciso provar transgeneridade. É? A vida é um espaço para se produzir ensaios, afinal. E mesmo que seu jeans largo e desbotado desagregasse os olhos dos homens, ainda assim essa experiência não provaria nada. Seja como for, ela pensa em escavações e em Fernando Pessoa. Tudo porque outro dia escutou alguém dizer alguns versos dele. As indagações do poeta, e que imediatamente tomou para si:
“Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também”.
Assim é, não é? Sabe que se o pequeno príncipe não existe, o baobá fica lá na África. Árvore garrafa que pode armazenar mais de 120 litros de água. Aliás, um baobá pode armazenar muita coisa. Até uma casinha. Já o homem que escava a madeira, esse não pode ingerir sal ou ter relações sexuais durante a tarefa... contaminaria o baobá e a água. Estranho e maravilhoso mundo e seus homens. Sabe também que o pé da jabuticaba gosta de ver as pessoas nele, chupando as frutas. Lembra-se dela mesma fazendo isso em sua infância. Ela que não era pássaro. Sabe, em seu dentro, que mesmo que se sinta como um beija-flor, não poderia alçar vôos batendo asas 25 vezes por segundo. Seus músculos se distenderiam antes que ela sequer tirasse os pés do chão. Seja como for, toma água com regularidade, come feijão branco, lentilha e verduras verde-escuro que promovem a limpeza dos rins e do fígado. E diz convicta e satisfeita: Hepatobiliarmente, eu estou muito bem. E ri cândidamente e com a brejeirice que lhe é peculiar. E isso - entre muitas e inumeráveis coisas, inclusive o olhar de Raul que a faz desentender tanto - é o que realmente importa.



domingo, 9 de outubro de 2011

Olá queridos amigos!

com o término de meu trabalho no jornal, deixo este espaço como registro dos textos feitos com essa finalidade. Entre umas e outras estarei postando novos textos no meu blog de poemas. Caso queiram visitar, segue o endereço! Grande abraço, Clotilde Zingali

http://www.poemasclotildezingali.blogspot.com/

sexta-feira, 23 de setembro de 2011


PALAVRAS E VENTOS 

Caros leitores, depois de quase três anos escrevendo aqui neste espaço, chega aquela hora denominada despedida. A flutuação das coisas trouxe minha vida para o Rio de Janeiro e, embora esteja enlaçada com Joinville, é preciso seguir o fluxo. Ver os presentes que flutuam em todos os movimentos. E como não estar feliz quando o presente extrai o que nos passa pela alma? Foi isso que, sobretudo, recebi com o presente de estar aqui: a oportunidade de, a cada quinta-feira, extrair o que assoberbava ou assolava. Fosse a chuva sobre o transparente do meu guarda-chuva ou a folha que redemoinhava na calçada. Presente sem preço. E por falar em presentes e coisas que redemoinham ao vento, penso em uma miniatura de fusca para colocar na estante, um livro com palavras que já li, uma comida preparada com especiarias leves ou um sabor inusitado no meio da maionese. Um sorriso largo em uma foto ou os cabelos voando com o vento. Uma paçoca, um pé-de-moleque ou aquele doce de flocos de arroz. Quantas coisas pode haver para se dar para alguém? Um torpedo enigmático pelo celular, um texto qualquer no jornal da cidade, uma letra de música. Dizer palavras ensaboadas, com cheiro de côco, e depois dizer as mesmas palavras enxaguadas em amaciante de roupas. Quantas voltas se deve dar para atingir alguém em cheio? Para estar na praia em um ponto qualquer onde somente ele saiba e ficar lá esperando só para deixar claro que não há nada que se possa fazer? Quantas vezes os olhos podem escorrer como manteiga por detrás dos óculos escuros sem que ninguém saiba? De quantas tentativas se pode lançar mão para alcançar o céu com as unhas e tentar riscar ou perfurar para encontrar o azul? Eu talvez pudesse pensar em mais coisas, mas o fato de ser meio de setembro anuncia a chegada próxima da primavera e contorna momentos de despedida. É com esses pensamentos que me servi de palavras com o intuito de transpassar rios e mares, descer e subir por estradas e ladeiras, redemoinhar em bueiros e entrar por soleiras de portas. Em quase 150 textos, toda semana eu enviei palavras que entraram sorrateiras e desordenadas por vãos de porta, que repousaram sobre mesas nos cafés da cidade e me conectaram com pessoas que me receberam sempre com muito carinho. E como alguém já disse, fiz isso com prazer lexotânico. E por falar em palavras jogadas ao vento, outro dia, depois de devorar uma paçoca, fui até a lixeira na esquina da rua para jogar o papel. Não é que bateu uma lufada de vento que desviou meu gesto e fez o papel alçar vôo sem que eu pudesse alcançar? Pois é. Palavras e papéis de paçoca estão no vento junto com partículas de tudo que pode haver nos encontros, nas chegadas e nas partidas, na boa surpresa que o contato pode propiciar. E foi isso que eu tive aqui. Obrigada e um grande abraço a todos. Continuaremos a nos ver nas curvas dos ventos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011


O GRITO

O 7 de setembro de 1822 já passou. 189 anos atrás. Mas a simbologia atravessa os anos. Cantar o hino. Hastear bandeiras, desfile de tropas e de estudantes. Lembrar e pensar o quanto esta data, mais do que comemorativa de um fato, exprime o desejo de uma nação. O ato de Dom Pedro é repleto de controvérsias históricas que não cabe aqui falar. Quero dizer é da importância do simbólico na comemoração do dia. E não é à toa que faço isso uma semana depois da data. A despeito de como tenha sido decretada a independência, penso no que isso representa pra nós hoje. No que significa viver em uma nação independente e que tenha força e competência para trilhar esse caminho. Bem sabemos que a independência é um ideal. Não é real porque não existe independência por si só e sim a que se estabelece no contato, nas inter-relações, no jogo de direitos e deveres e tantas outras coisas. No ceder e avançar das diferentes frentes, dos diferentes lados. E isso pode acontecer de forma equilibrada ou não. Enfim, a declaração de D. Pedro envolvia o interesse de muita gente. Pactos com uns e rupturas com outros. E se foi ele que apareceu quando se abriram as cortinas, as coxias e os bastidores fervilhavam. Como se sabe, se o grito do Ipiranga não libertou efetivamente o Brasil, cada bandeira hasteada no dia 7 de setembro aponta para a simbologia do desejo de cada brasileiro e que vai se reconfigurando na passagem no tempo. Vão se ajustando as velas. E isso não ocorre sem embates. Isso se faz com a consciência de que sempre haverá interesses em jogo, e com o conhecimento de que é preciso que o povo detenha consciência política para engajar-se em um desenvolvimento sustentável, organizado e equilibrado. Para que possam ser promovidas mudanças que culminem em uma nação humana, soberana e agindo em inter-relação com outras nações.  D. Pedro I, montado em seu cavalo, desembainha, ergue a espada e proclama: “Independência ou morte”. Um ideal em contraposição ao real. Seja como for, 189 anos depois a simbologia resiste. Por isso a razão dessas datas existirem e serem comemoradas. Porque a simbologia permite que se atravesse o real. Com todas as suas circunstâncias e inconstâncias. Com toda a problemática que pode haver nos enfrentamentos. É só daí que esse sonho de independência pode tomar corpo como algo mais próximo do real. A independência de uma nação está atrelada à independência do indivíduo, coisa só possível mediante o livre acesso à educação e ao conhecimento, entendendo-se aí a concretude de coisas básicas como saúde, alimentação e transporte. É a partir da existência de cidadãos-pessoa que o verdadeiro grito de independência de uma nação é dado.  

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A MINHA, A SUA, A NOSSA ESTÉTICA  

No permear a metade do que pode haver entre ter 40 e 50 anos, penso no formato que as coisas têm e que tentamos dar. Tentamos moldar. Minhas unhas, por exemplo. Elas tinham um formato antes que alicates se metessem nas cutículas alterando o seu desenho. Talvez por permear esse estranho período eu pense agora que somos máquinas. Máquinas de usar e ser usadas. Por outros e por nós mesmos. E por mais que vozes queiram se instaurar contra isso (até aquelas que vêm de mim mesma), não há mal nenhum nisso. Somos máquinas comandadas por um cérebro, por um inconsciente e por um coração que não mora bem no meio do nosso peito. Se o tempo é a acumulação contínua dos segundos, eu projeto meus sonhos porque sei que projetar implica construir. Implica costurar e representar "idéias" que possam traduzir algo qualquer que está mais além e que nem sempre eu posso ver. Isso há de estar representado nalguma estética. Eu bem sei que, definitivamente, não importa ser. Há também que parecer. Alguém já disse que intencionalidade e criação caracterizam nosso ser. Seguimos por aí subindo e derrapando em ladeiras. Andamos a pé e de avião. De carro e carrinhos rolemã. Saltamos com ou sem para-quedas e nos estatelamos ou não no final de cada percurso. Com mais ou menos escoriações. Somos máquina e matéria com digitais específicas e por vezes mais de um registro de identificação. Com contas aqui, no exterior ou mesmo sem absolutamente nenhum dinheiro no banco. Por vezes sem conta nenhuma em banco e sem nenhum tostão dentro dos bolsos. Podemos também ser e estar nus de toda ordem. Não importa. Entre a possibilidade de uma vontade ordenadora, por baixo ou por cima de qualquer escombro, somos portadores de sentido e talvez necessitemos de um tratamento estético. De modelagem. O quanto o mergulho nesse ato pode nos afundar ou fazer emergir é coisa que não se sabe. Mas sei bem que em algum momento devemos introduzir uma separação, um corte qualquer para canalizar o desejo e dizer: agora eu vou. Com mais ou menos luz. Com luz ou na total escuridão. Seja como for, até o formato de minhas unhas indicam uma coisa qualquer que é relativa ao meu desejo e que me estrutura em meio a vazios e alguma névoa. O vazio que me estrutura seja eu um monumento em pedra e cal ou um painel misto de opacos e transparências e que me apresentam mais ou menos nua, mais ou menos sólida. Sempre nua e mais ou menos diluída. Não faz mal, na aventura pela vida sei que sou criatura de desejos. Que vive interpretando e sendo interpretada diante do insondável nas relações. É aí que moram todos os desafios. Os meus e os de qualquer pessoa. A estética é algo que se liga ao novo e que se produz no laço. No contato. Se for criativo, melhor.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011


VAZIOS, SUPER E ANTI-HEROIS

Dia desses me vi a pensar em super-herois e em mundos de fantasia, onde a principal protagonista, parodiando a língua do espetáculo, é a espetacular, a majestosa, a surpreendente... Imaginação. Aquele lugar onde o inconsciente tem voz e palco. Que espaço mais absoluto os super-herois, esses seres sobre-humanos poderiam ocupar? Se há quem possa estar na base das cenas da ilusão e de toda uma sorte de desejos, esses são eles. E o bacana com relação aos super-herois é que suas aventuras expressam fantasias comuns a algumas pessoas ou grupos, e isso carrega o conceito de uma questão que também é do campo da energia. O desejo de poder, por exemplo, é uma das expressões de desejo inconsciente que ganha asas no mundo da fantasia, onde, quase sempre, não há farol vermelho. É lá estão os super-herois rompendo os limites e atuando na busca de valores como justiça e defesa dos necessitados. E é lá então que se vêem coisas como voar, virar pedra, água, fogo, elástico, rede e tantas outras manifestações. Tornar-se invisível, por exemplo. Seja como for, mesmo o mais destemido dos super-heróis possui pontos fracos. Quem não conhece a temível criptonita para o super-homem? Ou, o que seria da Mulher-Maravilha sem seus braceletes? Como se isso não bastasse ela ainda tinha um avião invisível! Enfim, a imaginação é que é um presente. Eu cresci, a Mulher-Maravilha não é mais minha heroína e eu mesma é que tenho que dar conta de descobrir meus super-poderes reais e imaginários para lidar com o dia-a-dia. Isso me coloca no ponto que eu pretendia chegar: Falar de um super-herói que conheci em 2006 e que desde então, sou, absolutamente, fã. Ele é o intrépido, o corajoso, o poderoso, o super, o ultra Super Empty!!! Quem não conhece, segue a sugestão para buscar conhecê-lo. Mora em um livro publicado pela Editora Planeta, de autoria de Luciana Pessanha e José Carlos Lollo.  Um livro branco com um furo na capa. Uma ótima ideia que representa muito bem o super-heroi que traz um buraco, um furo, um vazio, bem no meio do peito. Buraco que depois de incontáveis desventuras, ganhou um E lá dentro para representar o heroi. Ou o anti-herói. Não faz mal. Ele conhece o poder das palavras que nem sempre funcionam, ele fracassa, ele deprime, reconstitui-se e o principal, descobre que através do seu vazio pode enxergar possibilidades de ver mais além. A partir daí atua sobre as perguntas e perguntas sem fim que as pessoas se fazem. Como dizem os autores, não se chama o Super-Empty em casos urgentes como incêndios, crimes, barragens se rompendo ou vilões ameaçando a humanidade; dado que para isso existem os bombeiros, o exército, a polícia e até outros heróis. Super-Empty atua em funções praticamente insolúveis, mas ele senta ao seu lado e mostra como é olhar além. Olhar através dos vazios que temos e enxergar possibilidades. E o melhor: faz isso em 127 páginas deliciosamente ilustradas e repletas de bom humor. Ele é, sem dúvida, uma deliciosa caricatura do desejo de Luciana e José Carlos que descortinam uma heroica maneira de pensar em heroicas soluções para certos estados de caos que desabam vez por outra sobre nossas cabeças. É bem aí que o Super-Empty pode aparecer.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011


O BALANÇO DE CECÍLIA

Quando a mãe de Cecília perde sua calça preta e a carteira de motorista, não sabe se a carteira está no bolso da calça ou mesmo se estão no mesmo lugar. Sabe apenas que estão perdidas. Procura em lugares possíveis. Também nos impossíveis. Telefona para os filhos e perscruta com afinco seus últimos 6 meses. Nada. Conversando com Cecília, diz: “Filha, olha bem aí na sua casa que eu posso ter deixado cair atrás de algum móvel. Ah, sei. Você arrastou todos os móveis na limpeza da última semana... E aquela bolsa que eu usei quando estive aí? Você lembra? Ah, andou vendo isso ontem mesmo? Não achou nada... Está certo. O quê?”. Ouve a filha dizer o quanto isso é simbólico. “Não vê a contundência do desejo que está expresso nesse sumiço, mãe? A calça, que guarda suas pernas que andam, está desaparecida junto com a carteira de motorista, que é seu passaporte para dirigir e dirigir-se aos lugares. Elementar, caro Watson. É um claro indicativo de que calça e carteira estão juntas na mesma empreitada. São átomos se movendo para mostrar a direção que você deve tomar. Ir embora da sua vida para outra vida a ser conquistada. Esquece o sumiço das coisas e pensa nisso. É muito claro, mãe. Claro e simbólico”. Riem-se. Cecília é moça que não gosta de meio-termo. Meia-ação, meio-honesto, meio chateado. Gosta de sentimentos inteiros. Por isso não cansa de afirmar aos seus alunos que não existe essa bobageira de não se usar todo o potencial do cérebro. A cada momento e para cada coisa, usamos 100% do nosso cérebro. Agora, qualitativamente, isso pode sim variar. De modo que ela gosta mesmo é da inteireza de Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim como em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive”. E por mais que ela seja recoberta de vazios de todos os tipos e ria muito ao acreditar ser muito mais que um barco furado, assume também a inteireza de seu desejo. Diz: “Sou um barco metralhado”. O mesmo quando admite sua paixão por Fred e sonha carnavais inteiros com ele. Os dois deflagrando ruas e êxtases. Chora a falta quase absoluta que o sorriso dele lhe faz com toda a circunstância de seu exagero. “Morro sem ele”. Mas para não se evadir completamente da brincadeira que ela adora de por e tirar os pés do chão, vai vivendo feliz e triste, inteira e despedaçada e de muitos outros controversos modos. Vai domando a vida no laço e se ajeitando com a flutuância das coisas. Vai rindo a vida que não é sempre engraçada. Quase todas as tardes ela senta em sua cadeira de balanço. Uma cadeira de diretor com balanço onde sua avó sentava e dirigia, balançando, a vida da família inteira. De onde mais poderia dirigir os espetáculos que ela e Fred descortinam? Agora mesmo ele está contando para ela o seu dia de trabalho, e tem sempre um momento no meio da fala em que ele desata a discursar. Então Fred fala tanta besteira que não há outra maneira de resolver a situação que não seja tomando medidas de emergência: súbito ela inclina na cadeira e beija-o emergencialmente para lhe calar a boca. Riem-se e ela volta a balançar enquanto ele retoma de onde se perdeu só para poder se achar no riso dela.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011


CATARINA E A ECONOMIA

Catarina, a moça que tira cópias de sua monografia na sobreloja de um centro empresarial na cidade, pensa na palavra copiar. Ela lembra, quando era mais nova, que copiar era pedir o caderno emprestado para copiar à mão as aulas que tinha perdido. Era trabalhoso, mas eficiente. Um modo de estudar o conteúdo que havia perdido. Pensa que as coisas no mundo estão ficando bem mais simples desde que inventaram a roda.  Até dizem isso em tom de sarro quando alguém está querendo recompor os primórdios de qualquer coisa... e lá vem a frase: “Você quer o quê? Inventar de novo a roda? Na natureza nada se cria, tudo se copia”. Copiam até dinheiro... Nesse ponto ela se assevera. Por vezes lhe parece difícil compreender a economia e as coisas do dinheiro. Ela sabe que quando o governo imprime o papel que todos, inclusive ela, tratam como dinheiro, os juros sobem e acontece a tal matemática que os economistas chamam de inflação. Porque que quando se coloca mais dinheiro no mercado (e isso é uma ideia falsa de que há mais dinheiro em jogo) o que acontece é que a entrada desse dito papel-moeda provoca uma redução no seu valor, ou seja, seu 1 real passa a valer, por exemplo, 0,80 centavos. Mas em relação a que? Ela pensa que devem ter um padrão de estabilidade qualquer... Pensa se é o ouro dos tempos de D. Pedro ou o dólar. Mas se for o dólar, é dinheiro em relação a dinheiro? Quem tem as respostas certas? De tanto ver televisão, Catarina pensa que não importam as respostas e sim as perguntas. E o que a intriga muito são as perguntas... “Quem determina, quem desencadeia, quem deseja, quem impulsiona e faz acontecer?”. Seja como for, depois da era virtual ela não entende mais quase nada. Desde que criaram a palavra crédito, vive-se em ilusão. O que é crédito? É algo que não se pode ver ou tocar e que um outro te dá em nome de garantias quaisquer. E o pior, essa “coisa” virtual compra coisas reais. Catarina explode isso à enésima potência e pensa de quem é essa conta. Minha é que não é! Ela pensa no seu extrato bancário e no dinheiro que está lá. O extrato diz que o dinheiro está lá (e ela pode tirá-lo se quiser), mas ao mesmo tempo, sabe que o banco está usando esse mesmo dinheiro, emprestando para alguém, comprando algo... sabe lá! Quantos são donos do dinheiro que ela pensa ter no banco? Parece é que o valor do dinheiro que ela tem é multiplicado muitas vezes. E isso desde que mundo é mundo porque ela sabe muito bem que houve tempos em que a moeda era de prata, com o tempo foi perdendo a quantidade de prata em sua liga até virar cobre... inflação igual. Ela só sabe, a despeito da monografia que vai apresentar à banca na semana que vem (e isso é bem real), que em tempos de cólera muitas dúvidas emergem e pairam. Depois ficam indo e vindo. Que nem a moda. Agora, por exemplo, talvez quem tenha nascido depois de 80 não saiba a resposta para uma antiga pergunta que volta à baila: quem matou Salomão Hayalla? É ver para saber, ou perguntar para alguém que já sabe. É mais fácil do que saber o que acontecerá com ações que comprou e pensava estar fazendo um grande negócio... Quem, afinal, rebaixou a classificação dos títulos do tesouro americano? Ela é tão introspectiva, mas não pode nem deve ser alheia ao que pensa ser e ao que pensa ter. O seu lastro não pode ser perdido.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011


CÉLIA É UM MAMÍFERO

Célia, funcionária de uma empresa de telefonia móvel, olhando-se no espelho, admite que é um mamífero. Afinal, tem sangue quente e respira pelos pulmões. Quando está na água e usa o snorkel, sente-se inadvertidamente adaptada e em comunhão com as espécies todas que ela descortina. É sociável dentro e fora da água. Olhando a coisa desse modo, pensa que o que de fato lhe falta são nadadeiras. Olha seu corpo com cuidado, os braços e pernas que podem movê-la. As narinas para respirar. Tudo a contento. O que lhe falta mesmo é uma grande cauda, como as baleias. Algo que dê propulsão ao seu desejo de deslocamento. E mais uma grande camada de gordura para ajudar na flutuação e manter o calor. De posse desses itens, não tem dúvida de que atravessaria o Atlântico e todos os mares. Faria grandes travessias e de quando em quando iria emergir e expelir o ar quente e úmido dos pulmões. Daria um show formando colunas de água cada vez mais altas. Sabe que é bom poder habitar e desabitar as profundezas. No caso da baleia, bom e uma questão de sobrevivência quando rondada por caçadores. De qualquer modo, é claro que com essas propriedades, não lhe faltaria o canto e nem sublime audição para se localizar na imensidão dos mares e fazer contato com os seus. Pensa que deve ser por isso que quando canta sente-se absolutamente em comunhão. Lembra de ter lido que as baleias, quando se comunicam em distâncias superiores a que 24 km, fazem essa troca através de uma mesma janela de freqüência. Em função de seu trabalho, faz logo analogia ao verificar que usuários de telefone celular também se sintonizam nas áreas mais silenciosas do espectro sonoro. Atenta para a obviedade do fato de que a comunicação entre as baleias seja feita através de uma mesma janela de freqüência. Sorri. Não pode mesmo haver contato em freqüências desconexas. Há que, minimamente, se o usar o mesmo canal. E nem assim há garantias de comunicação. Frases e palavras podem se perder no canal, irremediavelmente. Pensa que deve ser por isso que as baleias cantam. Porque cantar coloca o eu e o tu na mesma faixa. Deve ser nesses momentos de conexão que a baleia sofre uma alegria insana e salta rompendo a água com seu corpo de algumas toneladas. Quantos segundos ela poderia ficar suspensa nesse desejo, vencendo a gravidade da água? Dizem que nessas ocasiões as nadadeiras, normalmente atrofiadas, chegam a medir até 1/3 de seu comprimento. Elas quase pássaros em uma metamorfose movida pela alegria do contato. Um vôo de puro desejo. Sustentado por esse desejo. Célia está certa que quer comunicar e não tem medo de distâncias. A água tem propriedades acústicas onde o som se propaga mais rápido que no ar, e ela sabe fazer seu espadanar chegar onde quer. Sabe, a despeito do tom quase puro e de baixíssima freqüência com que se comunica, que sua combinação de estalidos é uma espécie de assinatura sonora que a identifica e chega ao seu interlocutor em sequências de pulsos e intervalos. De que modo ela poderia desejar mais?

sábado, 6 de agosto de 2011


DOIS DIAS PARA MARA

Mara está próxima de completar 40 anos e só consegue pensar em princípios de aerodinâmica e combustão. Liga para sua amiga toda afeita em pequenas magias e coisas transcendentais e diz: “Amiga, preciso de uma garrafada! Aquela de aloe vera e formol será que me adianta? Resolve meus problemas?” E a amiga se ri. E se riem juntas. Gisele lhe diz que tudo que ela precisa são dois dias. Sempre e para todas as coisas. Não tem quaisquaisquais. Iniciar um regime, cair na esbórnia, aceitar ou não uma proposta, sair de casa ou mudar de vida. De métodos. Isso principalmente. Dois dias de concentração nessa máxima e não vai ter aloe vera que faça páreo. Formol nem pensar, não é, Mara? Por acaso você deseja, aí bem no seu fundinho, estacionar esse estado de coisas ou qualquer outro? Gisele diz para ela deixar as coisas fluírem, que esse é o segredo. E mais os dois dias, claro. Mara talvez ache muito difícil a transição, o deslocamento. Certas vezes pega seu caderno de angústias, um caderno amarelo que ela comprou especialmente para isso. E escreve e escreve. No início, as palavras saem ajustadamente sem ajuste, mas com o decorrer do desabafo, ela percebe que toma cuidado ao usar as palavras e preocupa-se em não deixar fios soltos. Mas eles lá estão. Tem fio solto em tudo quanto é canto. Tem palavra que ela escreve feito aquelas redes usadas em circos para segurança dos trapezistas. Palavras rede. Mas Mara não percebe que então ela se aprisiona no conforto que certas palavras dão.  Nessas ocasiões ela vê abrir uma fresta no caderno e sente ir com pés e pernas e o corpo inteiro pelo vão. Fecha correndo o caderno. Enfia na gaveta e deixa que ele se esqueça dela. Vai para a praia e corre entrar na água. É quando ela bóia no mar e sente seu corpo mover-se com o ondular da água. Fecha os olhos porque tem desejo de fechá-los e ficar com as sensações ampliadas. Mas a água do mar tem correntes que ela desconhece e então pensa que seu corpo seguirá nesse fluxo. E fica em pé, sai do estado de alguma coisa por ela e retoma o controle. Isso a irrita profundamente, pois tudo fica em evidência quando está suspensa no mar, seja pela leveza do seu corpo, seja pela densidade da água. Até as palavras suspendem e vem uma mudez que a acalenta. Nessas ocasiões olha para as coisas e em tudo vê música e poesia que ela cala por dentro. Feito a borboleta que ela olha agora e que parece pétala, parece flor que dança com o vento. Uma espécie de harmonia entre a força que impulsiona as asas e um viver que é tão fugaz. Um estado de fenômeno que ela leva às últimas conseqüências. Pensa que é isso que Gisele quer dizer com os dois dias. Duas semanas para a borboleta. Dois dias para ela. Um tempo de intensidades antes da transformação de um estado. Antes do vôo que sucede um acúmulo de reservas. Mara sorri sua amizade com Gisele. As trocas, a que continuadamente se permitem. Entre outras coisas, constante metamorfose. Uma espécie de vôo que desloca as coisas de seus lugares e torna a elas depois. Feito vida.