CLARA E A EVOLUÇÃO DA BILIS
Clara olha dentro dos olhos de Raul e desentende o que quer que seja. De algum modo o que quer que saiba vira nada. Não que ela saiba qualquer coisa. Nos últimos tempos tem pensado que sabe mesmo é nada. Possui da vida um conhecimento empírico, que pra ela, substancialmente, é o oposto daquilo tudo que é científico. E sem ser científico, aos olhos dela, no desespero, vira nada. Científico é algo que atesta para ela o que é insondável e o homem diz é. Está provado. Tem amor e horror a isso. Pensa nas coisas como jogo de forças, trocas energéticas e disparos acidentais. No mistério. Não se sabe nada de uma coisa e então aquilo é que encanta. O não saber. O navegar em dúvidas. A inconstância dela própria e das coisas. Então olha de longe as discussões inflamadas. Parece ver que o chão se move enquanto as pessoas tentam obsessivamente segurar-se. Lembra-se de alguém que disse: “O gosto é um achamento”. A vida para ela é um encantamento que surge de frases esparsas. Como Racine disse: “O que é bom em segredo é melhor em público”. Ela segue captando os segredos que escapam. Escapam e ela pega. Pensa se para ser homem ou mulher é preciso provar transgeneridade. É? A vida é um espaço para se produzir ensaios, afinal. E mesmo que seu jeans largo e desbotado desagregasse os olhos dos homens, ainda assim essa experiência não provaria nada. Seja como for, ela pensa em escavações e em Fernando Pessoa. Tudo porque outro dia escutou alguém dizer alguns versos dele. As indagações do poeta, e que imediatamente tomou para si:
“Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também”.
Assim é, não é? Sabe que se o pequeno príncipe não existe, o baobá fica lá na África. Árvore garrafa que pode armazenar mais de 120 litros de água. Aliás, um baobá pode armazenar muita coisa. Até uma casinha. Já o homem que escava a madeira, esse não pode ingerir sal ou ter relações sexuais durante a tarefa... contaminaria o baobá e a água. Estranho e maravilhoso mundo e seus homens. Sabe também que o pé da jabuticaba gosta de ver as pessoas nele, chupando as frutas. Lembra-se dela mesma fazendo isso em sua infância. Ela que não era pássaro. Sabe, em seu dentro, que mesmo que se sinta como um beija-flor, não poderia alçar vôos batendo asas 25 vezes por segundo. Seus músculos se distenderiam antes que ela sequer tirasse os pés do chão. Seja como for, toma água com regularidade, come feijão branco, lentilha e verduras verde-escuro que promovem a limpeza dos rins e do fígado. E diz convicta e satisfeita: Hepatobiliarmente, eu estou muito bem. E ri cândidamente e com a brejeirice que lhe é peculiar. E isso - entre muitas e inumeráveis coisas, inclusive o olhar de Raul que a faz desentender tanto - é o que realmente importa.