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SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

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a talhadeira corta a parede adoecida.corta bolores e cheiros acres. corta a palavra. entre a superfície e o dentro, ecos: onde foi que os olhos engoliram a limalha e a córnea reagiu num sobressalto? onde os olhos captaram a retícula da terra? avermelharam? com um tampão no olho, só emudeço. em cada instante, quero vôo e mergulho: (não tenho doença) saco pinça, cureta, alicate, picareta. tudo vale. por exemplo, as unhas, ou ser inquilina do escuro até que (mais uma vez) ele me tire para dançar. nada a fazer se sinto paixões de nascença. entremeios em que os pulmões perdem ar e eu, com a coragem de tudo que faz febre, inspiro e dilato os brônquios. (talvez eu pudesse anfitriar o ar. poderia?). mas não, agora dei de andar discreta de ante-salas. a (des) esperar por ele. se o ar é um caminho a vencer; inalo o tremor que vem junto com o medo. desdobro ante um aroma de flor e ocaso. sob o cantar dalgum pássaro e o seu vôo. hibiscus em flor. gaivotas que sobrevoam o quintal. um choro convuls…

SOBRE GARIMPAR

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todo homem garimpa. todo homem garimpa e se sabe musgo. se sabe pedra e rajada de vento. se sabe banho de ofurô. todo homem garimpa até mesmo quando o fogo dos sonhos faz soar ao longe uma ocarina: todo o mais passa e fica nas molduras e rodapés. nas notas de pé de página. todo homem garimpa e é mais quando, pés n’água, carrega o horizonte nas mãos e nos olhos; a busca. todo homem, até em água benta, garimpa: silêncios e palavras: trampolins de onde salta para voar em papel de arroz. ladear talha-mares. todo homem garimpa. todo homem; música, perfume e voo. 

CARTA DE DORA PARA FERNANDO

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Oi Fernando. sabe; eu gosto de você. gosto também de luz indireta mas há momentos em que é preciso por luz direto no foco. um não sei que pedaço de memória me arrebatou do infinito onde eu estava até esse de agora. foram talvez palavras que, em algum momento, me suspenderam e eu pude quase repousar sobre elas. sim, era macio. depois, foram outros movimentos que me conduziam a um quase susto. o coração disparava em saltos e eu saltava junto. não sei, penso agora em possíveis modos para a paixão. é. eu gosto de você. gostei assim que vi. mas depois houve um silêncio que me escapava.  um rastro de medo que eu não tenho em mim. coisa fugidia que quer escapar. não sei. talvez por isso, entre umas melhores e outras maltraçadas linhas repletas de azulesferográfica e talvez um odor amigo com resquício de componente hormonal, ou no caso, a falta dele, e somado àquela boa e velha tendência patológica que tenho à melancolia, é que escrevo essa carta. eu daqui e você daí e o que se tem é cumplici…

SOBRE GRAFIAS E MOVIMENTOS

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A moça bonita tem um desejo que formula e grafa, que movimenta seus pés e depois escorre em letras. Esse desejo; não tem pinça, bucha vegetal, óleo medicinal, pontas dos dedos e mesmo as unhas; não tem banhos de imersão, agulha, alicate de cutícula e sequer pomada para calos que possam dar jeito. Nada remove ou pode arrancar o desejo da moça que rodopia de um canto a outro da casa. O desejo não escuta outra voz que não seja a dela enquanto entoa o canto e enche a sala de som e dança. a moça bonita escreve e manipula farpas na pele, os peitos inchados e tudo que vaza e ela enfia no buraco da agulha e tece, enfia no fio da navalha e corta; enfia na sola dos pés e dança. 

O ASTRONAUTA Vinicius de Moraes, Baden Powell

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O ASTRONAUTA Vinicius de Moraes, Baden Powell  Quando me pergunto  Se você existe mesmo, amor  Entro logo em órbita  No espaço de mim mesmo, amor 
Será que por acaso  A flor sabe que é flor  E a estrela Vênus  Sabe ao menos  Porque brilha mais bonita, amor 
O astronauta ao menos  Viu que a Terra é toda azul, amor  Isso é bom saber  Porque é bom morar no azul, amor 
Mas você, sei lá  Você é uma mulher, sim  Você é linda porque é

SOBRE AMORES

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SOBRE AMORES ou para Tatá e Caetano

desabotoei os estames de mim desde os filetes até a porção mais alongada que protegia o pólen. rompimento. agora um olhar antigo e gineceu se estende sobre o sofá. desdobra sobre a possibilidade da fecundação. cabe o universo ali.




ESSE NÃO É UM POEMA DE AMOR

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POEMA DE AMOR CONCRETO (muito embora, substantivo abstrato...) rebento.

olha, esse poema não tem motivo nem razão. não é sobre aquele instante, nem mesmo o fugidio. é sobre antes, sobre o vento, sobre a canção que tinha no meio. não é sobre o infinito (mesmo esse entre aquele e agora). nem é sobre antes. é talvez sobre silêncio. sobre coragem. esse poema não fala de distância. não fala de caminho. nem mesmo fala daquilo que escapa - de mãos que se soltam, (mesmo assim, balançando ao longo do corpo) - no meio do caminho. não fala sequer do que não se disse e se deixou ficar na borda, entretido em grãos de areia, (bem ali, vê?). é talvez sobre cor. sobre cócegas nos pés em meio ao caminhar... aliás, esse poema não é de amor e nem é para você. tampouco tem a ver com os riscos do seu sorriso ou do meu. é talvez sobre um instante em que o ar suspende e sem ao menos saber como, a gente fica sem ar.


O ORNITORRINCO

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de frente para a tv deparo com um ornitorrinco. penso em mim como um mix genético. penso quedas de meteoros e em adaptação. uma vida semi-aquática e noturna. rios e cursos de água. penso em Iemanjá. salve, Rainha. o ornitorrinco é um mamífero espinhoso e ainda assim pões ovos. verte leite pelas glândulas que depois escorre para alimentar os filhotes. somos tão esquisitos eu e ele. bico grande e pés de pato. ele é um bicho um pouco obsoleto. um pouco esquisito.  por cinco minutos, admoesto tudo que não seja o aqui onde me livro e me invalido de mim. imagem antiga. resto na preguiça da fratura. na lírica dos papéis espalhados no chão. 
olhando para ele penso na vida como uma contradição complexa entre voar, rastejar e ser mamífero. como possibilidade de mergulho. posso restar submersa por cinco minutos. vida e música. tempo, ritmo e pausa. o ornitorrinco, a vida, o fim e o começo das coisas: arranjo e musica. penso uma moldura para a imagem que vejo: para ele. uma moldura que lhe irradie…