sábado, 18 de fevereiro de 2017

ARLINDO ORLANDO - CÊ NÃO IMAGINA A AFLIÇÃO QUE EU SINTO

ARLINDO ORLANDO



captação, síntese e invenção são fronteiras com que deparo na orfandade. descolonizada e fraturada no encalhe penso se é o fim do ato. o amor faz volteios na coxia; ricocheteia. ao fim de tudo, de todas as coisas, ao fim e ao cabo, salto de bota e tudo por sobre o abismo e a angústia: desde sempre sei que se não se salta, não se compreende; o tamanho do abismo ou seja o que for, até do meio-fio. pronto: agora tudo é bluestalvez por isso saco o tambor do profundo das águas e de um supetão tasco-lhe uma sequência de saraivadas com o oco da mão e palma. No vão e na cunha da palma, tem fresta e silêncio, um mar de (des)exatidão. nos dedos e no canto da palma, perspectiva e talvez um olhar que ressoa e faz horizonte e brilho....  ainda assim não posso evitar olhar no espelho e ver seus olhos. mas pedra a gente joga e mostra a mão. entendo que mãos, tambor, boca e voz são instrumentos de sentido e razão. de percussão. e sei da pedra. e que abaixo dela tem ebulição. não quero dormir. estar com o casco cravado na areia dá convergência. eu ganho perspectiva para descortinar o que se mostra e o que se esconde ali. entre o casco e a areia. bem ali onde seu olho me olha; bem ali debaixo  da nau e do encalhe. bem debaixo da tua graça; da tua boniteza; Arlindo Orlando.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

AMOR ENLUARADO


amor enluarado 
Foto: Clô Zingali

Juçara está grávida. em noite de lua cheia, espera com ela. prateia. lua de neve e areia. 
talvez por isso enxerga Tiago debaixo da penumbra. espera o novo. pensa em eclipse. em quando Sol, Terra e Lua se alinham com um desejo que é do universo. se deixa absorver pela ideia.
a vontade deglaceia sobre a beira da água. faz possibilidade e força.
Juçara armazena o desejo e respira então tudo que se adia. depois alua e respira até o abandono da noite. encapsula ainda mais uma vez o mistério. depois orfana um muxoxo: é bicho e é gente. sabe que
o amor faz colapso nas gentes; deita luz em bússolas cravadas na areia.




link musica GRÁVIDA Marina Lima e Arnaldo Antunes


https://www.letras.mus.br/marina-lima/88213/



domingo, 5 de fevereiro de 2017

A ARTE DE PERDER

A ARTE DE PERDER, POR Elizabeth Bishop
A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por mais que pareça muito sério.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

DICIONÁRIO DAS TRISTEZAS OBSCURAS


Tem um trabalho chamado O Dicionário das Tristezas Obscuras.Criado pelo artista John Koenig, é uma coleção de palavras inventadas, que servem para oficializar emoções que as pessoas sentem mas não conseguem explicar.  :)  palavras cordão para um tanto de coisa que a gente sente e que não dá pra nomear... fiz um escritinho misturando algumas delas :) espero que gostem!!


RELATOS AGORA NOMEÁVEIS

Acordei tomada de adronitis. o tempo passa e penso quanto tempo leva para se ter a sensação de conhecer alguém? não sei... estou com ambedo, absorta de tal modo com alguns pequenos detalhes da vida e sua intensa fragilidade, que tenho ganas de anchorage, sabe? de segurar esse tempo que corre e me me desequilibra bem no meio da correnteza.  é pura anemoia; a nostalgia de algo que desconheço um dia ter vivido! 

Lembro de amigos reunidos em algum lugar do passado e já é anthrodynia me invadindo e me fazendo ver o quão esquisito se pode ser. é humano e ainda assim vem esse estado de quase exaustão. uma onda de ballagàrraidh traz a ideia da força que há em mim para resistir à domesticação. eu não quero ser domesticada! súbito me invade uma sensação antiga: de ecstatic shock, sabe?

É então que me deixo invadir pelo olhar de relance de Arnica. tão afeita a mim. tão vívida na sua vida cã. sou invadida de ellipsism por desconhecer como as coisas vão terminar. não adianta e não importa, mas olhar para o futuro e ser tomado de uma onda de énouement tem no mínimo, um sabor agridoce. e eu, embora adore sentir na papila sal e doce misturados... tonteio! não saber onde vai dar uma coisa e ainda assim ser incapaz de conter o fluxo das ações é uma coisa agridoce ;) e o eu de hoje e o eu de amanhã não sabem conversar.... e tudo piora quando vem exulansis. falar para quê? 

Ao fim e ao cabo, ao olhar para o lado o que sobra é um estranho sentimento de gnossienne: impossível atingir a couraça do outro! e então a solução é jouska jouska jouska jouska: uma conversa hipotética e convulsiva comigo mesma e que repito sem parar até que ceda essa sensação. no fim talvez tudo seja questão de tentar aprender a lidar com kairosclerosis - quando se percebe conscientemente que está feliz e se depara com questionamentos esquizofrênicos sobre felicidade e vai vendo sua hipotética felicidade consciente se dissolver bem embaixo do seu nariz e consciência!!!! 

Felicidade é inconsciente. e é passageira. e não precisa de culpa! ponto de exclamação! pura sensação de kenopsia; que é o que sinto quando olho para Tucksland; o povoado em que vivo, e que tem agora essa atmosfera algo misteriosa e desamparada de um lugar que foi e já não é. 

Ainda assim é bom estar aqui. me invade às vezes uma onda de lachesis e admito a possibilidade de ser atingida por um desastre – sobreviver a uma queda de avião, ou perder tudo de forma irremediável... mas o que há de lutalica em mim quer crescer, e é absurda a ideia de que se eu escapar de uma categoria entro em outra. isso é real e irremediável. exato como disse meu analista: em alguma estatística você vai cair! então o quê fazer? entre a mimeomia e monachopsis... o que fazer? frustração por me encaixar ou não em um estereótipo e a sensação sutil mas persistente de estar fora de lugar... nodus tollens: o roteiro da minha vida já não faz o menor sentido! 

Não bastasse vem pior: onism. a frustração de estar presa em um corpo que habita apenas um lugar por vez. nada de clones! depois da opia que senti quando olhei nos olhos de Edgar... putz... que fazer com a intensidade ambígua de se olhar alguém nos olhos, se sentir vulnerável e gostar? fui invadida. penso nele e um sentimento de sonder me invade. o que fazer se cada pessoa tem uma vida tão vívida e complexa quanto a sua – populada por ambições, amigos, rotinas, preocupações e loucura? só scabulous te salva: sentir orgulho de uma cicatriz. como um autógrafo dado a você pelo mundo. mas nada disso impede the bends e a sensação frustrante de perceber que não se está aproveitando uma experiência tanto quanto deveria. 

Queria talvez acreditar em waldosia. em pensar que alguém no meio de uma multidão, está procurando uma pessoa específica. e que é exatamente por esse motivo que acontece o encontro; mas nada muda o sentimento de zenosyne: a sensação de que o tempo está passando cada vez mais rápido e yu yi quer te invadir. algo intensamente novo por  favor!!!!  

O fato é que tudo muda o tempo todo mas nada muda occhiolism e o dar-se conta da pequenês de algumas perspectivas e da impossibilidade de chegar a qualquer conclusão significativa sobre o mundo, o passado, as complexidades da cultura ou do amor. 

A solução pode ser iniciar por reverse shibboleth e a prática de atender o telefone com um “alô?” genérico, como se você soubesse quem está ligando e não se importasse. o que pode sobrar dessa experiência? rückkehrunruhe; que é o sentimento de voltar para casa depois de uma viagem imersiva, e perceber que toda a experiência já está desaparecendo rapidamente da sua consciência. 

Mas calma... existe chrysalism e a tranquilidade confortável de se estar dentro de casa durante uma tempestade. Isso é muito bom! e des vu para começar a acabar :) porque sim: isso tudo um dia vai virar lembrança. e virá, certamente, lalalalia. sim... e você vai se dar conta, enquanto fala sozinho, que outra pessoa pode estar vendo ou escutando, e você vai se ver transformando suas sérias palavras em algum cantarolar sem sentido. 

Um dia se importará menos com as coisas. sentirá liberais, e todos os sentimentos conjugados e inomeáveis terão a graça de agora serem nomeáveis e você apenas desfrutará da alegria de tomar um sorvete em frente ao mar num dia qualquer de verão. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

GARRAFADA PARA DESAJUSTES HORMONAIS


Penso sobre princípios de aerodinâmica e combustão. Penso também em pequenas magias e coisas transcendentais: como garrafadas para curar males e mazelas. Uma garrafada de Aloe Vera e formol, por exemplo. Será que adianta? Resolve meus problemas?” Conto para uma amiga e gargalhamos juntas. Ela me diz para esquecer as garrafadas. Diz que para quase todas as coisas, precisa-se apenas de dois dias. Não tem quaisquaisquais;não tem mimimi;
seja para iniciar um regime, cair na esbórnia, aceitar ou não uma proposta, mudar a vida em tudo ou em nada! Uma cesta de métodos mais dois dias de concentração e tudo se resolve. Ela diz que desse jeito, não vai ter aloe vera que faça páreo! Quanto ao formol, nem pensar, não é? Me pergunta se quero, por acaso, estacionar nesse estado de coisas ou qualquer outro? E já sai dizendo que o movimento rejuvenesce!  Gosto da minha amiga!
Ela olha para os fios soltos que afinal, sempre vão existir e me oferece palavras rede onde experimento um existir borboleta... um existir pétala, que dança com o vento. Seja como for, se o tempo não pode ser revertido, a mudança cabe no oco da mão e mora ali, bem debaixo do hálito quente. Uma harmonia delicada entre a força que impulsiona as asas e um viver que é tão fugaz. Um estado de fenômeno que eu inspiro e sigo.  

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

MATÉRIA SEM CULPA



Capto a vida através de instrumentos. Mergulho em diferentes águas e pinço toda sorte de objetos: flutuantes, evanescentes, com mais ou menos contraste entre eles e a água. O critério é o visgo dentro do olhar. Só o visgo. Ainda assim são objetos fugidios. Através deles, palmilho e desvendo. Depois percorro a orla com os pés descalços. Orla e órbita. Tropeçando em pequenos crustáceos, eu desvelo. Sangro no perímetro das coisas que tem textura, aroma e intensidades. Desenho nós dois sentados na areia. Sentados na beira em volta do buraco. Em volta da beira e da probabilidade. Da possibilidade. Às vezes é como gravidade: Não dá para negociar. Fóssil sem corpo; mas, afinal, quem dorme com cães, não necessariamente vai acordar com pulgas. Além disso, diante da tv, vejo tudo que pode haver de submerso em Moçambique, e que apenas três moças, antes dos 30 anos, podem desvendar e desvelar em rede para o mundo. Sem sair do sofá vou explorando a densidade da água, escuto jubartes cantando e procurando o calor em águas africanas, fico sob o pôr de sol alaranjado capturado por alguém. Faço parte da cena. Do ocaso. Se não é verdade, a ideia serve de cola para que eu possa parar de pé. No mais, às vezes, tudo que se precisa é uma mudança de lugar. Uma palavra que salte também dá jeito. Palavra vôo, por exemplo, palavra verbo conjugada no imperativo do desejo para descansar do conforto de outras: palavra rede, palavra almofada, palavra colchão. Eu voo. Qualquer coisa no baixo abdômen faz pressão. O desejo exerce pressão: até a palavra exerce. Uma palavra estranha - um x com som de z - que se tem que engolir como regra. Pressão também diz respeito à minas. Detonam. Tudo vai pelos ares. Roupas dentro do armário, pedaços de papel e tampas de bueiro. Pressão expulsa. Manda para o espaço o que estava encalacrado. No mais, não se tocam as efemeridades. Não se seguram os vendavais. E, felicidade não precisa de culpa. Ao fim e ao cabo, diz Tom Zé: mando a consciência junto com os lençóis para a lavanderia. 

BURACO DA FECHADURA

ilustração: Estevão Teuber



pela fresta, pelo vão
olho-me nas pontas dos pés:

em meu cheiro
metade;

quem é essa moça nua,
essa outra que me espia
pelo buraco da fechadura?


poema do livro BRICOLAGES para GELADEIRA, 2006.

sábado, 21 de janeiro de 2017

EU SOU O MEIO ##

ilustração: Cy Claudel
um ponto de vista obtuso: salto e me derramo sobre o vão. sou argamassa. cal e cimento, os ferros amarrados e depois, tijolo sobre tijolo. sou o vento que bate no rosto, o sol sobre a cabeça, a pinga no final do dia e quem sabe isso tudo mais meus erros de cálculo, meus destroços e a tentativa de formar um cômodo. um cômodo apenas onde eu possa me abrigar, inclusive de mim mesma, e criar tubulações pra ver a água jorrando da torneira e enxaguar o rosto ou tomar um copo dela ou mesmo meter a cabeça embaixo dela. trago em mim fissuras estruturais, mas há pilares, vigas e um enorme baldrame para a inconstância e  as movimentações a que estou sujeita, embora os efeitos de um sorriso desatem em vértebra depois um solavanco ou beijo de supetão, e deve ser por isso que sob determinados ventos eu desabo inteira no meio da sala de estar. sim. ainda assim sou tijolo sobre tijolo dos sonhos da casa inteira e suas partes, da torneira e da água jorrando sobre minha nuca e meus olhos enxergando o ralo da pia e meus ouvidos escutando a água cair sobre um tanto de silêncio e vontade.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

POEMETO PROSEADO PARA PAIXONITES AGUDAS E CURÁVEIS


POEMETO PROSEADO PARA PAIXONITES AGUDAS E CURÁVEIS


foi quando olhou de lado e fez uma ruguinha no canto do olho. cócegas do universo bem debaixo da perspectiva-possibilidade do arco-íris. atrás tinha um cinza tempestade tentando varrer o tempo. aí depois falou qualquer coisa que não lembro. mas tinha um roçar de pêlo e pele pelo antebraço na frente. era o quê mesmo? desculpa. aí depois tinha um riso no canto da boca e aquela música mambembe atiçando o horizonte e a lua. é, tinha a lua. tinha tanta cor lá em cima (até o cinza que de quando em quando se abria em raio de luz e silêncio). depois tinha a noite que viria depois dos raios de luz. o roçar dos pneus no asfalto e outro sorriso no canto da boca, debaixo da ruga do olho olhando ainda assim, de lado, tudo de bom que há nessa vida ♯♯♯

domingo, 15 de janeiro de 2017

MAIS UMA DE AMOR

 



Entre tantas coisas, uma coisa.  
Plutônio + potássio + açúcar comum = bomba, injetar gasolina ou querosene em uma lâmpada e quando você acende = buuum!!! (sim, a onomatopeia é minha). Há também onomatopeias providenciais, talvez um dia especial e talvez um neurologista que não entenda nada de amor. Mas ele pode dizer que, ainda que seja improvável, o recomendável é manter-se isento. 

Se o constrangimento piora a gagueira, eu não sei absolutamente nada sobre incêndios e explosões e preciso ganhar tempo. Então ele me diz que nossa mente tende a encontrar padrões... Tende? Talvez por isso eu passe lustra-móveis em todas as portas antes do meu amor chegar. Pergunto ao neurologista quanto tempo precisarei para viver entre tantas coisas sem apenas uma? como manter o escrúpulo diante do que me aborda pela porta da frente? Ele sorri e diz que para abrir ou fechar a porta basta girar a maçaneta. Que todo o mais pode ser arbitrário ou adjacente.

MINHA MENINA



Resultado de imagem para meninas desenho tumblrResultado de imagem para meninas desenho tumblrResultado de imagem para meninas desenho tumblrela tem cabelos longos e um encontro de vogais dentro do nome. no sorriso deixa entrever uma covinha. moro ali quando ela sorri de olhos arregalados. é quando aparece a sabedoria e a força do verbo.  um prenúncio de algo no passado que não foi completamente terminado. um atravessar pelo tempo. uma fábula para eu me aninhar. o mundo inteiro cabe nela. cabe até o universo. desolha meu oi bem lá dentro do olho e sorri fingindo sentir a alegria que sente. depois continua, ainda que sem falar. sem fazer sorrir a covinha. é onde lá? a gente sai pela porta da frente?  ela se ri do que inventa. tem um jeito só seu de arrumar o cabelo e de desenhar o caminho por onde passa e desarranja as definições todas. até as que insistem em resistir. depois ela parece guardada nas palavras, sobretudo nas mais simples e curtinhas, feito o seu nome. ainda que tenha sido feita sem a prerrogativa do nome, ela é toda cada letra e circunstância dele. tem também um hiato  no nome dela; que é um pedaço de tempo que define agora e depois. isso é, ao menos, duas vidas em uma. sorri quando digo para ela essa insignificância, mas tem um punhado de despropósitos na bolsinha que carrega atravessada no tronco. e faz arquiteturas e brejeirices como ninguém. tece de rios e flores um pedaço de papel. a parede, o banquinho e a penteadeira do quarto. no meio da sala, debaixo da noite, e da penumbra da noite, lê recostada no balanço da cadeira. sonha mundos. põe sol e chuva sobre o sofá e a cristaleira. sobre o tapete heróis espalhados com as pernas sobre a mesa. garota prodígio, tece de invenções os meus despropósitos e desperdícios. de novo eu moro na covinha enquanto ela, ali, vai enchendo vazios e adentrando o que pode haver no que se apresenta. uma manhã de sol, uma saia feita de cobertor, uma boneca assustadora que vai para o fundo da prateleira. (des)inventa as coisas enquanto fala e eu vou escutando as cores do que diz. acho mesmo que fico lá na música de fundo que sua voz vira e me entretém. ela me carrega assim para a cena que inventa e me deixa inaugurar horizontes que não conhecia. e isso é quando eu pego delírio e entro em estado de contemplação. pois dentro dela há profundidade e silêncio; e há tantas vidas dentro. cabe o universo nas covinhas que o sorriso dela faz. ela poderia ser tantas e é. ela é todas quantas houver e é também cada uma e a mistura delas. ela é porque é e é também quando eu a recrio ou invento. mas eu, eu olho mais um pouco a covinha e sei que mesmo, mesmo; ela é a minha Iaiá.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

MADALENA

Madalena

Ilustração: TULIPA RUIZ
Olhos rasos, levanta toda manhã. Prediz as circunstâncias do dia que se elabora. Sol dentro. Põe os pés sobre o tapete. Sente as fibras do junco. Pensa na Bahia. Faz uma prece ao santo e bípede, ergue-se. Sabe que pode caminhar sobre duas pernas e isso lhe basta. Lava o rosto e se demora em frente ao espelho. Alisa a pele com o creme. Isso a restitui do ontem, do silêncio que faz ainda eco em seus ouvidos. Deixa escorregar o vestido sobre o corpo que desperta e veste a sandália. Miss, atravessa a sala em direção à cozinha. Para em frente ao espelho que há no meio do caminho. Confere. Prepara o café na cafeteira expressa e aguarda que comece a subir até que a fumaça, até que o cheiro da fumaça verte pelos azulejos e toma a sala (até o quarto vazio) e a casa vizinha com a janela aberta. Derrama o líquido escuro sobre a porcelana da xícara, sobre o açúcar e a expectativa que lhe ronda. Sorve de gole em gole o café enquanto amealha suas coisas e põe na bolsa. Pega as chaves. “Logo estarei de volta”. Olha a sala mais uma vez, mais uma vez se olha no espelho. Sai e deixa a porta bater atrás de si. Uma força impele seu ato, aciona neurônios e sinapses, inunda seu corpo de hormônios. Gira nos calcanhares, faz uma curva e retoma os passos (as setas dentro). Madalena é, absolutamente, fruto da evolução. Fruto do indizível que perpetua suas lógicas. 
Mais tarde, ao destrancar a porta, respira um pouco mais o café que ainda perfuma a sala e se olha de novo no espelho. “Estou de volta”. Atrás da cortina, e atrás das nuvens por trás das cortinas, o sol ainda não brilha. Mas vai brilhar. Pega o elástico sobre a mesa e prende os cabelos:


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O FOTÓGRAFO





Eu fotografo ideias e projetos para ver as estórias. Para capturar e interpretar o momento. É então que a imagem é bandeira que defendo; argumento que apresento. Se a vida é um evento, eu fotografo para conservar. Para guardar.  Feito poema onde guardo o que é primeiro plano e também o plano de fundo. Desarticulo para ver mais a gravidade da cena. E de novo interpreto. No fundo, sou contador de estórias e fotografo para guardar. Ontem, por exemplo, a vazante de águas raras e claras eram como janelas no manguezal; e eu interpretei a dinâmica da seca e da cheia naquele poema-cena. Feito mata ciliar, o que distancia e protege também põe em contato; provoca o conflito e o argumento; e eu sou espécie entre as espécies que fotografo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

PARA O ANO NOVO de Patricia Claudine Hoffmann

Para o ano novo... por Patrícia Claudine Hoffmann

Os fins não justificam
os medos.
Então
que ao menos os anjos
cuidem das marés.
E o mar tenha a generosidade
de não agredir
a fuga.
Porque há uns barcos pequenos
no lado de dentro.
- que ninguém faça mais
nascer a fuga -
Que o ano novo traga
estoques de ajuda.
Estanque as correntezas
do ódio,
transborde odes
de paz e amizade.
Que a fé não seja o único lugar
seguro,
mas traga algo além
do alento
no escuro.
Restaure os terrenos, as luzes,
os risos, os rios, as casas,
os camicases arrependidos...
Que a nova fase
encontre oásis humanos.
E que este não seja só
mais um poema só
de fim de ano.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

AH O AMOR. O TAL AMOR...





como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção. quando se canta uma canção, é amor. precisa ser.

ilustração: TULIPA RUIZ
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? Sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Que amar é sofrer. Rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bola. Morrer de ciúme. Lavar uma pia cheia de louças. Cozinhar e fazer um cuz-cuz para alguém é amor. Tirar um cisco do rosto de alguém. Um cabelo teimoso que entra na frente do olho. Matar uma barata. Sair de cena. Entrar em cena. Abrir a janela e jogar as tranças depois de escutar "Eu te amo Rapunzel!" Tomar veneno como os meninos de Shakespeare? É partir. É ficar. É cantar. Esconder coisas para alguém achar. (como um anel de brilhantes no meio de uma truffa?, um bilhetinho embaixo da xícara de café?, esconder a você mesmo atrás da cortina para perguntar para uma criança: cadê? escrever no outdoor da rua onde seu amor sempre passa: “Eu te amo, Sara”). 

Amar é divagar. É concentrar. Depende. É fazer revoar a passarada no meio do caminho. Apreciar o vôo de quem voa. Tremer enquanto o outro voa. Amar é ficar sem palavra na boca. É amar tanto que seca a boca. É andar num metropolitano. É dizer, sou sim soteropolitano! E tu? que me diz, Coriolano? Amar é fazer graça com as coisas. Até com ideia de amar. 

Amar é escrever "eu te amo" na areia da praia pra depois a água do mar lamber e ser testemunha. Amar é testemunhar. Ou não. É um grito, de repente, no meio da sala. É colocar as roupas todas da mala e dizer: Adeus. Dizer Ah! Deus! Como eu amo! 

Amar é, diante do tanto que assombra, lembrar do andróide que salva seu caçador em Blade Runner ou cantar de peito aberto o que diz Maria Bethania: “Sonhar, mais um sonho impossível”... Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz??... 

Amar de todo jeito. Ideias de amor. Ideias de amar. E valem. Amar é não colocar preço. É colocar as cartas na mesa. É esconder ou entrar no jogo. Abandonar ou entrar no barco. Dizer: Eu vou nadando, sambando, cantando. Vou com você. Apesar de você. Eu vou; e você? Vambora..... Vamoagora... Vem comigo agora, hoje, enquanto a gente se adora 🎵🎵🎵🎵

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR 
(diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ), anoiteço.

oto Clotilde Zingali 2015 em praia do Francês/SC

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 

como
o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.

ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

TERRA NATAL



Pergunta-se o que é Terra Natal. Dizem
que como o amor, é coisa única. Um só amor. Uma só terra natal. 
Mariana não pensa assim. Sente-se capaz de abrigar amor simultâneo por coisas, cidades e pessoas. Por isso ama Edgar e Rafael. O vestido  de oncinha e os chinelos. Navega nas ruas de tantas cidades e diz: acho que nasci aqui. À muitos lugares ela sente pertencer. Lembra das aulas de matemática e dos símbolos de  pertence e não pertence... sabe que Fundamental é mesmo, o amor. 
Sobre o que muda, ela escuta o que se avizinha e faz ninho no quintal. Ao cair da tarde, vislumbra possibilidades de recriar-se e sair da mesmice. Nem sempre é possível. Estamos todos destinados à mesmice! diz apocalíptica. 
Dentre as mudanças, prefere aquelas que sem motivos prévios, simplesmente Acontecem. Se interpõem feito tiro. Ela entre o disparo e o alvo. Sem ter para onde correr. Sem tempo, talvez, para temer. 
Mariana gosta de experimentar desassossegos, cheiros inusitados e rajadas de vento. Sabe que viver é como estar no sofá de uma sala de espera, somente no aguardo da sua vez de entrar. Dar ou receber o diagnóstico. Assinar ou não o contrato e assumir as prestações que a farão refém ou algoz. Os papéis todos da gaveta espalhados sobre a mesa. Um foco de luz roendo um pedaço do seu chão. 
Viver é estar no conflito; e 
Mariana sabe disso e ama cada estrondo. Cada parede que desmorona, e cada outra que se ergue. Sabe que coragem não é ausência de medo – é o medo mais o desejo de fazer determinada coisa, de superar aquele medo. 
Deve ser por isso que toma o avião carregando apenas sua bolsa. Sabe que quando se tem muito a perder não há espaço para pensar. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR 


se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. 

em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão de um mergulho na cheia da maré; da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. 

em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. 

se a vida é mesmo bobagem e irrelevância (é?), liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

SOBRE VAZIOS



SOBRE VAZIOS




sou arquiteta. tenho apaixonamento por conceitos e palavras estruturais: por exemplo: palavra ferro, palavra concreto; também pela mecânica das palavras tenho apaixonamento: palavra envergada, palavra cisalhada; palavra fundida.

MUBE - Museu Brasileiro da Escultura


amo especialmente palavras fio: com alma de aço. gosto de até de onde elas podem ir: como a palavra balanço;

atravessa vãos inteiros e compreende amplamente um vazio. 

de lá, desdobra em contemplação.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

GUARDAR de Antonio Cícero

Guardar
 Antonio Cicero



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS




PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS

uma palavra ou quem sabe um novo dicionário. um léxico inteiro... PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS para começar DEZEMBRO desse ano exagerado de tantas perplexidades

preciso de uma palavra para projetar. uma palavra para construir e representar ideias. uma palavra tijolo. preciso ainda  de uma palavra que sustente. uma palavra base. é mais do que organizar ou dispor as coisas com lógica e depois banhá-las em estética. preciso de palavra para desvirginar o vazio. palavra para fazer chão.

sábado, 26 de novembro de 2016

SOBRE PIPAS

                                      SOBRE PIPAS


pedaços coloridos de papel, 
leveza, cor e, talvez,
por detrás de uns óculos escuros, uma pitada de manteiga e acúcar.

no céu de Paris ou Bagdá
entre as nuvens na India ou Tailândia
por cima das árvores e edifícios, aqui ou em Pequi;
voo, música e dança,
sob a estrutura que verga e
decifra asas;

linha na pipa,
rasantes na razão do chão -
gravito no suspenso do ar dentro da térmica -
linha na mão; música e dança.

na razão do chão, voo e asa
na linha e na asa,
voo e casa.



quarta-feira, 26 de outubro de 2016

DA CALMA E DO SILÊNCIO












https://poemargens.blogspot.com.br



Conceição Evaristo, vencedora do Prêmio Jabuti do ano passado - categoria contos e crônicas, com o livro Olhos D’água, é uma das vozes mais fortes da literatura atual.



Da Calma e do Silêncio
 
                   
Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na  aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

OUTROS MUNDOS :)



poemas memo.  por Sergio Cohn

Há um resíduo de futuro
no vento, fotograma ante-
cipado, montagem de fragmentos
induzindo à cena. Como
aquela árvore se curvando com-
placente aos invisíveis pesos,
como o mormaço
predizendo chuva. Repito,
há um canto anterior
a qualquer canto, uma réstia,
um eco primeiro, como um som
que ressoa por dentro de cada
palavra, como todo gesto se
desenha e apaga, então
novamente. Há o revés,
o diáfano, o termo, beleza
posta e perdida, o desen-
cadeamente, assim
como a sede do vapor
por uma forma, assim
como tudo retorna
à imaginação
por trás da cortina
da memória.