sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

AH O AMOR. O TAL AMOR...





como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção. quando se canta uma canção, é amor. precisa ser.

ilustração: TULIPA RUIZ
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? Sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Que amar é sofrer. Rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bola. Morrer de ciúme. Lavar uma pia cheia de louças. Cozinhar e fazer um cuz-cuz para alguém é amor. Tirar um cisco do rosto de alguém. Um cabelo teimoso que entra na frente do olho. Matar uma barata. Sair de cena. Entrar em cena. Abrir a janela e jogar as tranças depois de escutar "Eu te amo Rapunzel!" Tomar veneno como os meninos de Shakespeare? É partir. É ficar. É cantar. Esconder coisas para alguém achar. (como um anel de brilhantes no meio de uma truffa?, um bilhetinho embaixo da xícara de café?, esconder a você mesmo atrás da cortina para perguntar para uma criança: cadê? escrever no outdoor da rua onde seu amor sempre passa: “Eu te amo, Sara”). 

Amar é divagar. É concentrar. Depende. É fazer revoar a passarada no meio do caminho. Apreciar o vôo de quem voa. Tremer enquanto o outro voa. Amar é ficar sem palavra na boca. É amar tanto que seca a boca. É andar num metropolitano. É dizer, sou sim soteropolitano! E tu? que me diz, Coriolano? Amar é fazer graça com as coisas. Até com ideia de amar. 

Amar é escrever "eu te amo" na areia da praia pra depois a água do mar lamber e ser testemunha. Amar é testemunhar. Ou não. É um grito, de repente, no meio da sala. É colocar as roupas todas da mala e dizer: Adeus. Dizer Ah! Deus! Como eu amo! 

Amar é, diante do tanto que assombra, lembrar do andróide que salva seu caçador em Blade Runner ou cantar de peito aberto o que diz Maria Bethania: “Sonhar, mais um sonho impossível”... Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz??... 

Amar de todo jeito. Ideias de amor. Ideias de amar. E valem. Amar é não colocar preço. É colocar as cartas na mesa. É esconder ou entrar no jogo. Abandonar ou entrar no barco. Dizer: Eu vou nadando, sambando, cantando. Vou com você. Apesar de você. Eu vou; e você? Vambora..... Vamoagora... Vem comigo agora, hoje, enquanto a gente se adora 🎵🎵🎵🎵

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR 
(diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ), anoiteço.

oto Clotilde Zingali 2015 em praia do Francês/SC

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 

como
o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.

ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

TERRA NATAL



Pergunta-se o que é Terra Natal. Dizem
que como o amor, é coisa única. Um só amor. Uma só terra natal. 
Mariana não pensa assim. Sente-se capaz de abrigar amor simultâneo por coisas, cidades e pessoas. Por isso ama Edgar e Rafael. O vestido  de oncinha e os chinelos. Navega nas ruas de tantas cidades e diz: acho que nasci aqui. À muitos lugares ela sente pertencer. Lembra das aulas de matemática e dos símbolos de  pertence e não pertence... sabe que Fundamental é mesmo, o amor. 
Sobre o que muda, ela escuta o que se avizinha e faz ninho no quintal. Ao cair da tarde, vislumbra possibilidades de recriar-se e sair da mesmice. Nem sempre é possível. Estamos todos destinados à mesmice! diz apocalíptica. 
Dentre as mudanças, prefere aquelas que sem motivos prévios, simplesmente Acontecem. Se interpõem feito tiro. Ela entre o disparo e o alvo. Sem ter para onde correr. Sem tempo, talvez, para temer. 
Mariana gosta de experimentar desassossegos, cheiros inusitados e rajadas de vento. Sabe que viver é como estar no sofá de uma sala de espera, somente no aguardo da sua vez de entrar. Dar ou receber o diagnóstico. Assinar ou não o contrato e assumir as prestações que a farão refém ou algoz. Os papéis todos da gaveta espalhados sobre a mesa. Um foco de luz roendo um pedaço do seu chão. 
Viver é estar no conflito; e 
Mariana sabe disso e ama cada estrondo. Cada parede que desmorona, e cada outra que se ergue. Sabe que coragem não é ausência de medo – é o medo mais o desejo de fazer determinada coisa, de superar aquele medo. 
Deve ser por isso que toma o avião carregando apenas sua bolsa. Sabe que quando se tem muito a perder não há espaço para pensar. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR 


se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. 

em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão de um mergulho na cheia da maré; da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. 

em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. 

se a vida é mesmo bobagem e irrelevância (é?), liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

SOBRE VAZIOS



SOBRE VAZIOS




sou arquiteta. tenho apaixonamento por conceitos e palavras estruturais: por exemplo: palavra ferro, palavra concreto; também pela mecânica das palavras tenho apaixonamento: palavra envergada, palavra cisalhada; palavra fundida.

MUBE - Museu Brasileiro da Escultura


amo especialmente palavras fio: com alma de aço. gosto de até de onde elas podem ir: como a palavra balanço;

atravessa vãos inteiros e compreende amplamente um vazio. 

de lá, desdobra em contemplação.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

GUARDAR de Antonio Cícero

Guardar
 Antonio Cicero



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS




PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS

uma palavra ou quem sabe um novo dicionário. um léxico inteiro... PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS para começar DEZEMBRO desse ano exagerado de tantas perplexidades

preciso de uma palavra para projetar. uma palavra para construir e representar ideias. uma palavra tijolo. preciso ainda  de uma palavra que sustente. uma palavra base. é mais do que organizar ou dispor as coisas com lógica e depois banhá-las em estética. preciso de palavra para desvirginar o vazio. palavra para fazer chão.

Postagem em destaque

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

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