sexta-feira, 25 de junho de 2010

FLUXO DE IN-CONSCIÊNCIA

FLUXO DE IN-CONSCIÊNCIA

Eu escrevo sobre coisas que não sei para saber delas. Descobrir. Também a mim. Porque daí “A gente não escreve um livro. A gente se livra dele.” Então eu escrevo e vou me livrando daquilo tudo. Até de mim. Daquela que escreveu e já não é mais. É outra. Penso isso descascando uma tangerina. Espirra na minha pele o perfume com fixador made in natura. É bom. Mas preciso lavar as mãos muitas vezes depois. De todo modo, vou soltando um a um os gomos e pensando na herança. Na genética. Vou sendo enquanto escrevo e então vou deixando de ser, afinal, está escrito. Eu me livro disso e posso me escrever outra. Falsear. Nesse fingimento que nunca se acaba vou me vendo furo. Cheia de abismos. Uma fraude. Uma ficção que crio e onde me enredo. Sou DNA e sou livro. Sigo sendo a partir dos olhos que me olham, das mãos que me folheiam e me tiram da estante. Me colocam de volta ou me largam sobre a mesa. Quando tornam a mim já sou outra. Cada vez uma. Gosto ou não de ir até o fim. Vou decidindo se como a caixa inteira de bombons ou um só e ainda largo um pedacinho. “Não gostei”. Decidindo o tempo verbal pra esconder a paixão. Jogar num cantinho e dizer: me esquece. Aí vem aquela fulana me dizer pra eu não colocar minhoca na cabeça. Será que você não sabe que para isso é preciso fazer uma cirurgia? Hein? Ela me olhou assustada quando eu afirmei assim bem afirmado. Depois deu uma gargalhada e saiu. Tonta. Ela é muito tonta. Eu bem sei que minhocas entram pelo nariz: é só respirar que elas vêm. Uma ninhada delas. Cirurgia precisa pra tirar. Procedimento feito em salas escuras. Sem anestesia. Com fórceps. E ainda tem esse cara que me sonha. Essa instância psíquica que sabe mais de mim que eu mesma. Pode isso? Mas deixa.... Eu te pego na curva. Te leio imagem em cima de imagem. Transformo em palavra em cima de palavra. Associo. Encadeio. Vira texto na minha boca que fala sem parar. Eu vou interpretando e descendo. Interpretando e descendo. Você não sabe, mas rondo seus escuros, suas sombras. E sabe o que faço? Te escrevo e você mesmo vira outro. Vira até mulher. Bárbara, Patrícia, Mara. Vira Eduarda. Eu te lapido e apelido. Duda. Eu te digo: Sou mais que uma porção de palavras enredadas num livro. Mais que moléculas empilhadas nessa ou naquela ordem. Eu é mais. Eu é ser que finge. “E finge tão assustadoramente, que finge acreditar no que deveras sente”. Dionisicamente. Apolineamente. Ou numa alquimia sem revés. Não importa. Não tem pudor. Portanto, Duda, você não assusta nem comove. Eu te escuto sem estetoscópio. Te enxergo sem radiografia. Te fatio. Te ultrassono. Te metabolizo. Eu é mais. É timbre. Tilinta e constrói com as palavras. E mente, assustadoramente. É você, Eu, ele, ela ou simplesmente um cachorro espreguiçando na calçada. Nada está separado. Nada é instância estanque. Que não se mistura. Eu é alquimia, e entre um bombom e outro, vai a cada segundo decidindo se vai comer a caixa inteira ou largar para as formigas. E se elas vêm, acata. Convive com elas. E as minhocas.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

BÁRBARA

BÁRBARA

Bárbara descobriu o pior de si. É dissimulada. Mentirosa. Gosta de ter as coisas sob seu controle. Isso dá a ela algo muito valioso: segurança. Gosta do poder que a segurança lhe dá. Gosta de ver a movimentação das pessoas em torno do seu halo. Ela é o sol. Irradia luz e capta para si íons, nêutrons e prótons que gravitam em torno. Gosta de fazer alquimias. Misturar essa química toda para ver no que dá. E como ela se sente grande! Não é má. Bárbara não é má. Apenas arma estratégias, estratagemas, esquemas, cenas, cenários e aprecia o desenrolar. Por isso sempre admirou manipuladores de marionetes. Ela manipula. Os outros se encantam. Deslindam pelas teias que tece. Bárbara é aranha e prefere o devaneio ao sonho. No devanear ela está no controle. No sonho, quem sonha Bárbara? Por isso sai todas as tardes. Observa outras personagens femininas. Passeia por cada mulher. Cada uma um mundo que ela descortina. E vai ganhando tamanho. Por isso se identificou com a gorda do escritor. Ela própria a gorda. Gorda de tantas mulheres em si. Agora que tem consciência sabe que tem todas dentro dela. E assim ela passeia. Por isso lhe ficou na mente a frase da amiga: eu duvido um pouco de quem passeia bem por todas as esferas. Era a imagem de si própria. E a outra frase dela: você se veste e se porta de um jeito que não é bem o que lhe vai por dentro. É isso. Bárbara falseia e passeia por outras mulheres. Por seus íntimos, suas superfícies. Pelo que está contido e pelo que transborda. É por isso que as admira. Um pouco de cada uma delas a compõe. Pensa qual delas deverá assumir. Ela precisa se assumir. Precisa? Ela não sabe ainda. Por isso anda quieta. Fala apenas pelas palavras que escreve no caderno verde. Um dia amadurecerá? Ela não sabe se quer amadurecer. Para que? Que cobrança é essa? Quem está cobrando? Ela própria, decerto. Mas ela se ama do jeitinho que é. Diverte-se. Aprecia os desdobramentos de suas palavras, de seus atos. Observa e entende. Reflete. Confirma. Pensadora e cientista de si e do mundo. Às vezes pensa no que lhe escapa. Não sabe. Talvez seja o próximo passo depois da diversão. Competitiva. Reconhece-se a cada dia e apaixona-se. Tal qual Narciso. Adora espelhos e personagens. Ela mesma personagem do grande teatro que é a vida. Desliza suave. Talvez por isso não sinta dores, sequer o peso da vida. Adora a coxia onde tira peça por peça de roupa e de novo é ela. Nua. Depois veste outras e mais uma vez, sai. Exercita outras. Bárbara é sempre outra. Tiradas as roupas esvanecem os papéis. Então ela se tatuou. Agora é inscrita por ela mesma. Nua, inscrita e assinada. E assim segue brincando com a vida que alguns chamam de madrasta. Bárbara não acha. Só a mãe é capaz de desajustar seus entendimentos. Confunde-a sua mãe. Por isso gosta de máscaras. Chapéus. Mantos e véus. Esconde-se de si. Das mulheres tantas que é e de outras que não pode ser. Chora comovidamente. Olha no espelho os olhos vermelhos e aguados. Perde-se e já é outra. Pergunta a si mesmo se é uma fraude. Sorriem os olhos molhados.



quinta-feira, 10 de junho de 2010

QUE TAL UM RAVIOLLI?

QUE TAL UM RAVIOLLI?
Já tem alguns anos (muitos anos) preparamos raviolli. É sempre um acontecimento. Começa quando decidimos que vamos fazer. Cada vez é um de nós que lembra, os outros se estimulam e acontece. Tudo começou com meu sogro: quando íamos pra São Paulo vê-lo, pedíamos: vamos fazer um raviolli? Ele olhava pra gente com um sorriso maroto e pronto – estava decidido. Fazíamos juntos a massa, o molho e o recheio de ricota e espinafre enquanto ele contava suas histórias e canzoni italiane de fundo nos embalavam. Um dia resolvemos fazer para nós mesmos. Meu marido e eu. Lembro bem de uma vez em Curitiba. Ele veio de São Francisco do Sul, onde trabalhava, chegou em Curitiba por volta de nove da noite e disse: vamos fazer raviolli? Eu disse: vamos! Não tinha nada em casa. Fomos até o mercado ali perto, compramos farinha, carne moída, ricota, salsinha, cebolinha e tomates para o molho. Cebola tinha. Naquela minúscula cozinha começamos o trabalho. Fazer a massa. Preparar o recheio, o molho. Uma viagem. Antes da meia-noite, ceamos. E ainda sobrou um tanto pra congelar. (É uma delícia tirar do freezer raviolli feito por você, prontinho pra comer). Agora, faz um tempo que estendemos essa atividade para São Francisco do Sul e os amigos daqui. Quem nos conhece sabe. Uma vez por ano, no inverno, tem raviolli. Até cobrança já tem. E o raviolli? A gente podia fazer! Pronto. E lá vamos nós: o dia é marcado, compramos os ingredientes, calculamos o tamanho da festa e exageramos um pouco para o meu congelamento. Riem de mim, mas continuo tirando onda, congelando no dia da festa pra durante o ano, ir degustando a continuidade desse prazer. Todos envolvidos: um descasca tomate, outro prepara a massa, outro estica e vai revezando porque esticar a massa destronca o corpo inteiro! O molho começa a cozinhar por volta das 11 horas e segue até 4, 5 horas da tarde (quanto mais tempo no fogo, melhor). As meninas cuidam dos recheios (este ano eram 4 ou 5 diferentes!). Se revezam no cortar a massa em rodinhas, rechear, fechar os pasteizinhos e ir arrumando nas assadeiras e enfarinhando. O ano passado o recheio era um só mas a massa era tricolore: vermelha de beterraba, verde de espinafre e a básica branca. No meio da função que não cessa, papo bom, papo sério, papo nervoso, piadas e muita tiração de sarro. Milhões de papos. Coisinhas pra beliscar e beberiscar. É festa, né? Uma vez por ano é que nem aniversário. E a gente vai se enrolando, vai fazendo, vai se divertindo. Comer? Acontece sempre em torno das 5,6 horas da tarde, às vezes mais... e daí vai até onde for. Festa. No meio disso, milhares de louças para lavar, limpar a farinha que se espalha pela mesa e arredores e separar o que eu vou congelar. Claro! Já é pressuposto! Todo mundo trabalha. Todo mundo adora. E a gente come feliz. Todo ano repetindo. “Humm..que delícia” “Nossa, isso tá muito bom” “O do ano passado não estava tão bom” Nossa, bom mesmo foi aquele...” e vai. Nos irmanamos nós todos. Somos uma família com tradições. Um nasceu aqui, outro ali, uns gostam disso outros daquilo. Enfim, cada um de um jeito. Mas entre as coisas em comum temos isso. É uma das nossas tradições. Uma de nossas alegrias. É tão bom que quis dividir com você. Mangia che te fa bene!. Experimente.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

CRONIQUETA PARA VIRGÍNIA, VIVIANE E AS LINHAS

CRONIQUETA PARA VIRGÍNIA, VIVIANE E AS LINHAS

De novo é junho. E já que me pediram para falar de amor eu digo: Além da constatação de que nada mais posso fazer além de escrever, só há uma vontade enorme de estancar tanto ruído. De olhar dentro dos olhos e me deixar ficar lá. De novo é junho. Nem importa tudo que eu poderia falar: as chuvas que se avizinham, o frio do sul e as perspectivas para a próxima meia hora. Tudo isso porque, já que me pediram, de novo é junho e eu não tenho outro assunto que não seja o meu cansaço e a vontade de falar de amor. Do tecido que cobre minha pele e que quero desmanchar. Trama por trama. As paredes que fazem a casa onde estou dentro e meu desejo de vê-las ruir para estar só. Tudo quer voltar. Até os passos que não dei aos 2 anos. Até as mãos nas cordas do violão tocando musiquinhas do Roberto Carlos. As linhas me trouxeram até aqui e eu estou dentro delas. Estou dentro das cordas do violão. E nas linhas do tecido. Elas levam ao infinito e eu estou dentro delas. O caminho para o infinito é cheio de bordados, desenhos no tecido que eu tenho que desfiar. Estou costurada nas paralelas. Dentro do buraco da agulha. E o amor que sinto (e que pareço não sentir sozinha) desejo que corte. Que seja faca, tesoura. Que corte o tecido bem no meio das linhas e me deixe pendurada nas bordas. Tudo que penso é ver parte do tecido no chão. Eu desfiada na ponta da agulha. Eu ressonando no timbre das cordas e a música me embalando. Canção de tardes e noites. Eu reluzindo dentro dos olhos. Eu bordada em osso. Bordada em carne que as mãos tocam. Vibrando feito música. Nada muda a verdade bordada e tocada. Dedilhada. Seja de que jeito for: pinça, bucha vegetal, óleo medicinal, as pontas dos dedos e até as unhas. Banhos de imersão, agulha, alicate de cutícula e também pomada para calos: Nada pode arrancar o desejo que formulo e grafo em cada centímetro de mim. Talvez se eu dançasse, eu amolecesse e fizesse escorrer as letras. Talvez elas se soltassem e levassem o desejo com elas. Talvez o desejo criasse um poema e o poema desse novo sentido às palavras. Até para a palavra desejo. Até para a palavra talvez. Talvez. Esse meu amor pelo que pode haver em você me desnuda. Te pensa casa. As janelas rangendo e eu molhada no alpendre pedindo pra entrar. Porque não me abraça cordilheira? Me transborda? Me atinge enquanto desesperada tento me segurar em galhos que vão se arrebentando? Um a um. Estou farta de ser construção e não estar livre de hecatombes. De carregar essa gravidade nas costas. Eu te empresto meu pincel. Me pinta. Se mistura comigo. Estou farta de rodopiar de um canto a outro da casa. De não escutar outra voz que não seja a minha e de estar assim: cheia de pressão. Estou farta de escrever farpas na pele. De ter os peitos inchados todo mês e a cabeça inchada de palavras. E de ver isso vazando de mim. Delatando um estado de profundo silêncio que eu enfio no buraco da agulha e bordo, que eu enfio no fio da navalha e corto. Um estado de desvio e nódoa. E tudo isso porque é junho, leitor. É junho. É o meio entre janeiro e dezembro. O meio entre o calor que acaba e o que virá. Entre o sim e o não. O não e o talvez. Talvez.

CONVERSA DE AMIGAS

CONVERSA DE AMIGAS

Ela que sorri por detrás do amarelecido dos dentes agora movimenta as mãos sobre a mesa e me sorve com os olhos. O esmaecido do esmalte nas unhas e o dourado dos anéis crepitam. Semírames sorri embaixo dos dentes que carecem de tratamento e um bom aparelho ortodôntico. Mas suas prioridades agora são outras. Pagar a faculdade dos filhos e vê-los encaminharem-se bem. E versa sobre o mundo de ambos, seus sonhos e aptidões. Não ama um homem já tem muito tempo e diz não se importar com isto agora. Um dia se dedicará. Quando tudo estiver encaminhado, ela diz. Assim capturada, diante do pé de manjericão que se desdobra sobre si mesmo ela diz triunfante: “A sorte é que decidirá”. Diz que faltam alguns dias para que tudo se equalize. Diz em seguida “Para que tudo se desestabilize” e sorri. Digo que uma vez li algo sobre um espaço que ocupamos entre o terminar de dormir e o acordar. Thetaville. Lá só há espaço para quem domina o medo de continuar dormindo. Eu não tenho, ela diz. E pensa no seu amor, no espaço que um dia ele ocupará (um espaço tão grande que ela flutua). E então ela abre a torneira e fala. E tem muita água represada lá dentro. Semírames é assim. Como o pé de manjericão, ela se desdobra sobre as palavras que escapam da boca e que por vezes a surpreendem. E fala: “Eu disse isso”? Desejo mesmo ela tem de sair de dentro de si por 15 dias, desparafusar boa parte das roscas e deixar somente as essenciais. Apagar todas as luzes, todo abajur, lamparina e também soprar as velas. Ver o que pode enxergar só com a luz da lua (quando houver) e aprender a tatear seus escuros, seus silêncios. Vencer todas as camadas do cérebro, atravessar camadas do córtex, meninges e a camada dura. Vencer o osso. E o que pode haver de falha no duro dele. Procurar a ausência de cálcio. As porosidades. Desestabilizar os gradientes de concentração. Achar novas combinações. É como diz a letra da música que ela cantarola: “É preciso estar silêncio para eu não ficar aflito, mas dentro de mim tem um grito que não posso mais calar. Estrelas me respondam como eu posso descansar?” Diz que bom seria se “ausentar” e não mais através da palavra, mas da ausência dela, se desinstalar de antigos postos, de antigos pontos de vista. Até mesmo das miragens. Das fantasias. Do que pode haver de mistério. Se perder no trajeto, no que pode haver de imaterial, de rastro dissolvido no ar. De barroco. E olhar bem dentro de cada imperfeição. Amar cada falha. Ela fala e eu penso que “somos nelas”. Derivamos em como isso acontece. Aceitar as falhas. Os vazios. O que não é objeto de desejo, de consumo. O que tira de nós a própria possibilidade de ser. Ela queria estar mais calma, mas tem um rebuliço lá dentro. Diz: “Minha vida é um filme. deus? Ah, deve estar na primeira fileira, ao lado do diabo. Os dois rindo minhas angústias. Se eu não parar de acalentar os sentimentos que me invadem vou ficar invadida, inchada. Eu vou engordar de sentimentos! E não haverá remédio que me faça emagrecer depois. Vou explodir como a mulher daquela novela antiga. Mas agora não. Não é hora de divagar. E repete que um dia se dedicará. Quando tudo estiver encaminhado, ela diz. Eu sorrio sua força. Reluzimos nessas trocas.

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SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

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