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Mostrando postagens de Julho, 2016

Receita para, aqui, no JAPÃO, em PORTUGAL ou onde seja, CONTER A MESMICE nas TEMPORADAS DE CEREJA

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Receita para, aqui, no JAPÃO, em PORTUGAL ou onde seja, CONTER A MESMICE nas TEMPORADAS DE CEREJA


Ele te dá uma cereja. O gosto atinge direto órgãos e glândulas. Passa antes pela língua. O olhar dele é injeção de glicose que você sorve e dissolve na papila já tingida de sabor. 

O líquido te percorre, depurando, fomentando outras reações, enquanto o olho dele te olha. É tudo vermelho enquanto isso; e, enquanto isso, ele enxerga a contradição que você é e fica te variando entre os dedos. Ora um, ora dois, ora cinco. Como saquinhos de veludo ele te varia entre os dedos. Uma a uma as fichas vão te caindo no estômago. Uma a uma você sente a dor. Ouve sinos. Eles balançam e fazem um barulho incomum. É o chão que está ruindo. Em tudo você vê erupção: prazer, medo, susto e alívio. Daqui a pouco tudo vai ser um amontoado de imagens lá longe. 

Ele ri e brinca com os saquinhos de veludo. Você pensa em se prender no sino para não morrer à toa. Balançar e fazer barulho com ele. Depois pegar a corda e…

SOBRE FOTOGRAFIAS

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SOBRE FOTOGRAFIAS
Um moço está sentado na soleira da porta. Cotovelo sobre os joelhos, diz para a moça que sonho como aquele nunca tinha sonhado não. Que nunca, desde os tempos em que saiu de Caruaru, tinha sonhado mais. Antes sim, sonhou sim, muitas vezes. Mas nunca um sonho como aquele. A moça lhe olhava de de soslaio. Mexia a cabeça e me espiava. Olhava bem dentro dos meus olhos. E ele contava o sonho e contava do medo e o medo estampado nele escorria pela calçada, pelas pedras, e caminhava até o bueiro. E então não escorria para dentro. Ficava ali a redundar. 
Da minha soleira eu só espiava. Um tapete de concreto forrava a rua e a cidade. O céu era de numerados cinzas e cobria tudo desde o oeste. Prédios erguiam-se feito arbustos sobre o árido da terra. Espalhadas aqui e acolá, casas. Em nenhum canto cor. Em nenhum canto flor. À esquerda, no fio mais elaborado da sombra que atingia em diagonal o pequeno rosto, uma menina partia formigas entre os dedos. Ao longe um vento redemoinhava…

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

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a talhadeira corta a parede adoecida.corta bolores e cheiros acres. corta a palavra. entre a superfície e o dentro, ecos: onde foi que os olhos engoliram a limalha e a córnea reagiu num sobressalto? onde os olhos captaram a retícula da terra? avermelharam? com um tampão no olho, só emudeço. em cada instante, quero vôo e mergulho: (não tenho doença) saco pinça, cureta, alicate, picareta. tudo vale. por exemplo, as unhas, ou ser inquilina do escuro até que (mais uma vez) ele me tire para dançar. nada a fazer se sinto paixões de nascença. entremeios em que os pulmões perdem ar e eu, com a coragem de tudo que faz febre, inspiro e dilato os brônquios. (talvez eu pudesse anfitriar o ar. poderia?). mas não, agora dei de andar discreta de ante-salas. a (des) esperar por ele. se o ar é um caminho a vencer; inalo o tremor que vem junto com o medo. desdobro ante um aroma de flor e ocaso. sob o cantar dalgum pássaro e o seu vôo. hibiscus em flor. gaivotas que sobrevoam o quintal. um choro convuls…

GRAMÁTICA E DESENLEIO

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GRAMÁTICA E DESENLEIO

experimentei uma vírgula depois de, em frente ao espelho, pronunciar alto: eu te amo. foi a vírgula ou o quê a perguntar: como assim? então experimentei outros parágrafos. neguei e afirmei impressões. em seguida, o ponto final, e o ponto e vírgula, que é uma coisa que garante uma ação futura depois de uma viagem qualquer. pensei em fendas e sinapses. em pontes de eletricidade e informação. em ser arquiteta e mudar o desenho das pontes. diminuir o espaço entre um neurônio e outro. entre eu e você. pensei em títulos e em COISAS PARA DIZER EM TEMPOS DE CÓLERA e A DESPEITO DO AMOR, por exemplo: "entuba. come com farinha. dá tuas voltas. buliu com a onça….engole o choro. cê não é quadrado. cada um no seu quadrado. trouxe o motor ou temos que voltar remando? ué… mas… então…. eu? vixe, menino; quebrou o catulé… ué, bate panela. entuba! se ao menos tivesse nascido do outro lado da ponte…”. não é que tanto desembaraço desatou em visagem? 



voltei ao espelho
e num frêmito…