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Mostrando postagens de Agosto, 2013

FUMEGAÇÕES AGOSTINAS

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Abaixo do que é a superfície de mim, sinto algo fumegando... Galeno poderia dizer que é esquizofrenia; porque não? Afinal, alguém já disse que Haloperidol deixa a alma dormente. (a fumegação, é então, um revertério?). De qualquer modo, escrever transforma o que é invisível em palavra. Quando é possível gotejar com encantamento essa palavra; ela então se desdobra e pode contaminar. Feito aroma que entra pelas narinas, passa pelo coração e segue ao cérebro. Ou seria o contrário? Seja como for, as palavras podem ter cheiro. Cheiro de jasmim, por exemplo. Quando as palavras tem cheiro de jasmim, sorvê-las é como participar de uma dança. Uma coreografia se forma no espaço e quando se abre ou fecha os olhos, se vê flor. Me pergunto se isso é igual ao inverso dessa equação: por exemplo, quando eu vejo flores em alguém e então sinto cheiro de jasmim. O que fumega quando a alma está desperta? O quê?
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Não importa se é pelo direito ou avessoque se vai usar a velha calça jeans:No caminho,a alma aproveita da trilha para ser matéria.

COISAS VERMELHAS

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Quero falar de coisas vermelhas para, juntos, imaginarmos sem moderação. Se a imaginação é um ato vermelho, significações e simbologias, quando vermelhas, não ficam omitidas. A fraternidade é vermelha, a paixão (inclusive quando não correspondida) é vermelha. A boca e a língua depois de comer cerejas, também. Ficam ainda mais vermelhas. Campari, quando cai na roupa. As gotas que escorrem num pacto de sangue. A árvore, quando você corta seu tronco, escorre um líquido que é vermelho. Arnaldo Antunes diz em uma canção, lindamente, que o corpo, se cortado, espirra um líquido vermelho. O sinal de PARE. Vermelho. A flor detrás da orelha da espanhola que dança. O sorriso dela é vermelho. O tango também é. Ela e ele: puro vermelho, puro sangue. Luiz Melodia canta vermelho. O corte na pele e o calor das mãos quando se tocam é vermelho. As flores, um dia, em uma camisa. O “não” que se interpõe feito bala em uma via só de sim. Coisa muito vermelha. Certas músicas ou um poema que alguém diz para …

O FOTÓGRAFO

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Eu fotografo ideias e projetos para ver as estórias. Para capturar e interpretar o momento. É então que a imagem é bandeira que defendo; argumento que apresento. Se a vida é um evento, eu fotografo para conservar. Para guardar.Feito poema onde guardo o que é primeiro plano e também o plano de fundo. Desarticulo para ver mais a gravidade da cena. E de novo interpreto. No fundo, sou contador de estórias. Sou contador e fotografo para guardar. Ontem, por exemplo, a vazante de águas raras e claras eram como janelas no manguezal; e eu interpretei a dinâmica da seca e da cheia naquele poema. Feito mata ciliar, o que distancia e protege também põe em contato; provoca o conflito e o argumento; e então sou escrevinhador e espécie entre as espécies que fotografo.

DESAMBIGUAR

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Eu gosto de misturar palavras. Fazer frases com elas e depois misturar estas frases: afirmativas, negativas, exclamativas! Adoro lançar perguntas e criar enigmas. Acho que isso é uma forma de ser perversa. De fazer sacanagem com as palavras. Isso sem contar o que faço depois: lavo, torço, encero, faço bola de meia e às vezes, chuto para pensar em outras palavras. Me sinto volúvel nessas ocasiões. Por vezes também sou sucateira: eu reivento. Coloco de molho no amaciante. Eu nino algumas palavras e deve ser por isso que um amigo me disse que elas ganham magia. Seja como for, depois disso tudo eu levo palavras e frases para roda de samba e faço batucada com elas. Elas dançam nas misturas que faço e vão criando ideias novas, ideias subversivas, ideias que me deixam arrepiada. Então eu corro para o espelho e as proclamo em voz alta. Se fazem sentido para mim ao escutar, elas sobrevivem. É sinal que envelheceram no carvalho, criaram vincos, sulcos e adjacências; caso contrário eu as demito …

MATÉRIA SEM CULPA

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Capto a vida através de instrumentos. Mergulho em diferentes águas e pinço toda sorte de objetos: flutuantes, evanescentes, com mais ou menos contraste entre eles e a água. O critério segue o visgo dentro do olhar. Só o visgo. Ainda assim são objetos fugidios e, através deles, palmilho e desvendo. Depois percorro a orla com os pés descalços. Orla e órbita. Tropeçando em pequenos crustáceos, eu desvelo. Sangro no perímetro das coisas que tem textura, aroma e intensidades. Desenho nós dois sentados na areia. Sentados na beira em volta do buraco. Em volta da beira e da probabilidade. Da possibilidade. Às vezes é como gravidade: Não dá para negociar. Fóssil sem corpo. Afinal, quem dorme com cães, não necessariamente vai acordar com pulgas. Além disso, diante da tv, vejo tudo que pode haver de submerso em Moçambique, e que apenas três moças, antes dos 30 anos, podem desvendar e desvelar em rede para o mundo. Assim eu descubro o que pode haver no fundo só com o visgo do olhar. Sem sair do s…