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Mostrando postagens de Agosto, 2011
O BALANÇO DE CECÍLIA
Quando a mãe de Cecília perde sua calça preta e a carteira de motorista, não sabe se a carteira está no bolso da calça ou mesmo se estão no mesmo lugar. Sabe apenas que estão perdidas. Procura em lugares possíveis. Também nos impossíveis. Telefona para os filhos e perscruta com afinco seus últimos 6 meses. Nada. Conversando com Cecília, diz: “Filha, olha bem aí na sua casa que eu posso ter deixado cair atrás de algum móvel. Ah, sei. Você arrastou todos os móveis na limpeza da última semana... E aquela bolsa que eu usei quando estive aí? Você lembra? Ah, andou vendo isso ontem mesmo? Não achou nada... Está certo. O quê?”. Ouve a filha dizer o quanto isso é simbólico. “Não vê a contundência do desejo que está expresso nesse sumiço, mãe? A calça, que guarda suas pernas que andam, está desaparecida junto com a carteira de motorista, que é seu passaporte para dirigir e dirigir-se aos lugares. Elementar, caro Watson. É um claro indicativo de que calça e carteira estão ju…
CATARINA E A ECONOMIA
Catarina, a moça que tira cópias de sua monografia na sobreloja de um centro empresarial na cidade, pensa na palavra copiar. Ela lembra, quando era mais nova, que copiar era pedir o caderno emprestado para copiar à mão as aulas que tinha perdido. Era trabalhoso, mas eficiente. Um modo de estudar o conteúdo que havia perdido. Pensa que as coisas no mundo estão ficando bem mais simples desde que inventaram a roda.Até dizem isso em tom de sarro quando alguém está querendo recompor os primórdios de qualquer coisa... e lá vem a frase: “Você quer o quê? Inventar de novo a roda? Na natureza nada se cria, tudo se copia”. Copiam até dinheiro... Nesse ponto ela se assevera. Por vezes lhe parece difícil compreender a economia e as coisas do dinheiro. Ela sabe que quando o governo imprime o papel que todos, inclusive ela, tratam como dinheiro, os juros sobem e acontece a tal matemática que os economistas chamam de inflação. Porque que quando se coloca mais dinheiro no mercado…
CÉLIA É UM MAMÍFERO
Célia, funcionária de uma empresa de telefonia móvel, olhando-se no espelho, admite que é um mamífero. Afinal, tem sangue quente e respira pelos pulmões. Quando está na água e usa o snorkel, sente-se inadvertidamente adaptada e em comunhão com as espécies todas que ela descortina. É sociável dentro e fora da água. Olhando a coisa desse modo, pensa que o que de fato lhe falta são nadadeiras. Olha seu corpo com cuidado, os braços e pernas que podem movê-la. As narinas para respirar. Tudo a contento. O que lhe falta mesmo é uma grande cauda, como as baleias. Algo que dê propulsão ao seu desejo de deslocamento. E mais uma grande camada de gordura para ajudar na flutuação e manter o calor. De posse desses itens, não tem dúvida de que atravessaria o Atlântico e todos os mares. Faria grandes travessias e de quando em quando iria emergir e expelir o ar quente e úmido dos pulmões. Daria um show formando colunas de água cada vez mais altas. Sabe que é bom poder habitar e desa…
DOIS DIAS PARA MARA
Mara está próxima de completar 40 anos e só consegue pensar em princípios de aerodinâmica e combustão. Liga para sua amiga toda afeita em pequenas magias e coisas transcendentais e diz: “Amiga, preciso de uma garrafada! Aquela de aloe vera e formol será que me adianta? Resolve meus problemas?” E a amiga se ri. E se riem juntas. Gisele lhe diz que tudo que ela precisa são dois dias. Sempre e para todas as coisas. Não tem quaisquaisquais. Iniciar um regime, cair na esbórnia, aceitar ou não uma proposta, sair de casa ou mudar de vida. De métodos. Isso principalmente. Dois dias de concentração nessa máxima e não vai ter aloe vera que faça páreo. Formol nem pensar, não é, Mara? Por acaso você deseja, aí bem no seu fundinho, estacionar esse estado de coisas ou qualquer outro? Gisele diz para ela deixar as coisas fluírem, que esse é o segredo. E mais os dois dias, claro. Mara talvez ache muito difícil a transição, o deslocamento. Certas vezes pega seu caderno de angústias,…