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Mostrando postagens de Julho, 2011

AMY WINEHOUSE

AMY WINEHOUSE

É verão. Durante a noite a lua estará em seu quarto minguante no Atlântico Norte. Brilhará, ainda que a temperatura tenha caído. Talvez o vento sudoeste que flanasse a 8 km por hora fosse o suficiente para dar arranque nalgum moinho e talvez isso gerasse energia para alguém em algum lugar. Talvez folhas rodopiassem num canto qualquer fazendo com ele uma valsa, uma reza, um pedido. Talvez pequenos blocos de átomos se movimentassem num jogo de agregar e desagregar moléculas. Não importa. Fechando os olhos parece ser possível escutar um canto que vem da alma. Com todo o drama que pode haver em almas. Talvez fosse uma canção Soul, que ironicamente, significa alma. Um gênero de música que nasceu do rhythm and blues e do gospel durante o final de 1950 e início de 1960. Talvez. Não importa. Talvez tenha escolhido o gênero pela imensidão que ele carrega. E conjugou em si todo o desejo pulsante que flui com a melodia. Torvelinho de caos e dores. E fez isso em primeira pessoa. Nem …
OLÍVIA, ULYSSES E AS MANGAS
Quando Ulysses disse para Olívia que ia embora, ela ficou, assim por dentro, tão feliz. Não demonstrou, é claro, isso para ele. Ao contrário, assustou-se, quase indignada. E essa demonstração não era mentirosa, afinal perguntava-se o que tinha dado nele para dizer isso dessa maneira. Ela não podia encher a boca e dizer: “Sou feliz”. Mas vivia bem, achava. Ontem mesmo foram ao cinema, comeram pipoca e ficaram um longo tempo conversando sobre o filme enquanto tomavam um café. Isso sem contar o fim de semana na praia, o sol aquecendo seus corpos em meio ao inverno que fazia na sombra. Ela quase sente de novo o quanto estava bom. De qualquer modo, volta a si e a seus questionamentos. Isso tudo não tem nexo. “Ulysses, isso não faz nenhum sentido”. Não cabe aqui dizer o que ele disse. Foram tantas palavras simples e definitivas que a Olívia coube responder “tchau” quando ele finalmente se encaminhou para a porta e disse um “eu vou – a gente se fala”. Agora, depois…
SUZANA
Suzana está aguda. Olha-se no espelho e diz com voz firme: É hoje. Olha mais uma vez: De hoje não passa, Su. Afinal, tem que ser carinhosa com ela mesma nessa hora de enfrentamentos. Toma um café mais forte que o habitual e solta todo o verbo de frente para o espelho. Escuta a sonoridade das palavras. Deixa que ocupem o espaço que precisam ocupar. Começa a sentir algo se deslocar dentro dela, mas nem atina com o que vai acontecer. Só dá tempo de empurrar a cachorrinha e se jogar por cima da mesa de canto e dos cacarecos todos que estão lá. Espreme o berimbau contra o canto da parede e sente a haste a lhe esmagar as costelas. Toca o instrumento com as vísceras. Deixa o estrondo gerado pela queda terminar seu ressoar dentro dela e pensa no susto dos vizinhos. Principalmente no de baixo. Fazer o que quê? Armários caem. Isso acontece. Mas não às quinze para as duas da manhã. Continua sobre a mesa pensando o porquê daquele desabar. Será cupim? Bruxaria. Isso sim. Um móvel desse não d…
MARISA E AS PALAVRAS
Marisa é moça leitora, mas não leitora como os leitores de fato. Não lê também como os escritores, que dizem, precisam ler muito. Ela apenas ama as palavras e ama certas formas delas se encadearem. Pensa que algumas palavras têm ímãs para outras, e juntas formam coisas engraçadas. Coisas tristes. Coisas belas. Marisa acha que algumas palavras vêm dentro de uma espécie de saco quando as pessoas nascem. A bolsa estoura e caem o nenê e as palavras... Palavras de tantos tipos. De todos os tipos. De tipos que a gente nem imagina. Talvez nem todas sejam lembradas, mas Marisa acredita que ficam em algum lugar dentro de nós. Um lugar onde procuraremos sempre por elas sem jamais achar. Quais foram mesmo? Essas palavras, Marisa imagina que moram debaixo da pele. Entre a derme e a epiderme. Outras ficam em camadas mais profundas e por isso não se pode pinçá-las a qualquer hora. Diz que é preciso muito cuidado na busca por palavras entranhadas. Os pensamentos por vezes usam as…