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Mostrando postagens de Maio, 2011

O VOO DE LÍDIA

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                                                          ilustração: Marcelo Oliveira


O VOO DE LÍDIA
Lídia, que acaba de despachar suas malas na esteira da companhia aérea, pensa em Pedro e caminha para o café. Ela administra esse mundo que é tão seu. Nenhuma preocupação que risque seu rosto com linhas que não chegam antes do tempo certo. Sabe que há tempo para tudo. Até para as rugas. Tem o olhar de quem conhece essa afirmação e, nele, a paciência para tudo que ocorre a seu tempo.
Foi assim quando deixou de restar perfumada no balanço da rede. Levantou e saiu. Tem Pedro tão dentro dela. Talvez só ele saiba que ela, quando gorjeia, fica nua entre o choro e o riso. Talvez. E talvez, por sentir-se tão inteiramente nua, é que ela finge. Ela se esconde em tudo que veste. Até nas máscaras. Nas tantas que é. Quando canta e sua voz escorre, se vê deslizar por ladeiras, girar em saias e encontrar as águas. Caminhar rios inteiros e desaguar no mar. Sente na boca o sal se misturar ao doce. Lídia…
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ilustração: Marcelo OliveiraO CANTAR DE ISAURA
Isaura está recostada na poltrona de tecido amarelado. Não sabe se é o esmaecido da cor ou se é a própria aura dela que amarelece ainda mais a cena. Ela se apercebe do palco onde atua. Atua? Olha os dedos que tamborilam no colo, nos braços da poltrona. Como se por dentro houvesse uma angústia a devastá-la. Pergunta-se o que poderia fazer para subtrair a dor que vê e sente e que paira sobre a sala, a cozinha ou o quarto. Há uma densidade indevassável que Isaura carrega com ela. Está nos olhos que espiam sua própria vida com rigidez. Uma espécie de dor que ela acalenta e arrasta. Compreende o quanto está misturada com o que vê e silencia. Queria plantar nela própria um desejo que a arrancasse desse lugar. Ver qual sintonia busca enquanto gira o dial da vida. Haverá algo capaz de calar o que fala em mim? Desde pequenina pergunta-se. Nem sabe como cultivou tantas questões e quando desistiu de responder. Desistiu? Há algo que a acalenta enquant…
CARTA PARA FRANCISCO
Querido amigo. Desculpe a formalidade, mas penso que seja essa a melhor maneira de chamá-lo a partir de agora. Espero que esteja feliz e que continue dando consultorias para empresas de marketing. Eu acho essa coisa de marketing meio esquisita, mas tenho que admitir: Você é bom no que faz. Sabe convencer a mais incrédula das criaturas. Tem um tipo bom de se vender. Lembra até aquela piada: Se eu te comprasse pelo que vale e te vendesse pelo que pensa que vale, teria um rendimento sem precedentes! Você morreria de inveja ao me ver tão milionária com o seu passe. Mas sossegue. Não comprei. É certo que fiquei anos parada na vitrine. Acreditaria se eu dissesse que até babei? Babei, baby. Babei mesmo. Mas, como sou muito comunzinha, digo uma frase pronta. Clichê: Não há mal que sempre dure ou bem que nunca se acabe. Eu sou clichê. Fazer o quê? E se não comprei, não vendi. Como poderia vender o que nunca tive? Mas deixa de papo furado. Escrevo pra dizer que não fui para …
NASCE MARIANA
A moça pergunta-se o que é Terra Natal. Escuta dizerem que tal qual o amor, é coisa única. Um só amor por vez. Uma só terra natal para se ter. Dizem. Mas Mariana, que só conhece o mundo e as coisas “de ouvir falar”, não pensa assim. Pois sente-se capaz de abrigar em si muito amor. Amor simultâneo por coisas, cidades e pessoas. Por isso ama Edgar e Rafael. O vestido com estampa de oncinha e os chinelos. Por isso navega nas ruas da cidade e diz: eu nasci aqui. A muitos lugares ela sente pertencer. Lembra-se das aulas do primário, dos símbolos de  pertence e não pertence, no agora Ensino Fundamental. Certas mudanças ela não administra bem. Pensa que fundamental é mesmo o amor. E isso não muda. Escuta a frase que vem de alguém e também outras. Ela não cansa de amar as mudanças. Todas elas. Até do tempo. Talvez porque assim vislumbre possibilidades de recriar-se e sair da mesmice a que todos estão destinados. Estamos todos destinados à mesmice! , diz apocalíptica. De todas as …