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Mostrando postagens de Fevereiro, 2011
ONDE MORAM AS PAIXÕES
Renata está sentada no banco do carro. Parece confortável. O ar condicionado está ligado, mas ela mantém seu vidro quase todo aberto. Os de trás abre apenas uma fresta. Ela, que não gosta de ambientes climatizados, pensa que assim o carro fica naturalmente ventilado e fresco. Escapa para o ar a fumaça do cigarro que ela traga. A fumaça que entra nela e que depois solta. Sabe que um tanto fica dentro dela. Dizem que se aloja nos pulmões, na corrente sanguínea. Mas ela acredita piamente que se aloja no seu cérebro. Sabe que a massa dentro da cabeça tem sulcos e giros. Acredita que a fumaça se aloja nos sulcos. Nesse mesmo lugar onde acredita que as ideias fixas moram. Você acalenta e acalenta certas ideias e então elas vão aprofundando esses sulcos. Caem lá e vão dando dimensão para esses tantos vazios. O castanho do olho de Renata resvala fora da direção que o carro toma. A compreensão é encantadora. As ideias moram nos sulcos. Criam rasgos na massa do cérebro. Que…

MARIA E O ARQUITETO

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MARIA E O ARQUITETO


Maria anda muito insatisfeita com as coisas que lhe escapam. Pelas mãos e dedos. Olhos e ouvidos. Pela boca que emana silêncios, sorrisos, frases certas e incertas. Repreende-se. Nem sempre é assim. Às vezes vai certeira pro chute. Com ou sem delicadeza, enfia o pé e manda pro gol. Faz cesta, mesmo sendo tão pequenina. Sobe na rede, corta a bola e deixa o adversário estacado. Mas logo depois lhe ocorre a pergunta: Por quê? Eu precisava tanto dar aquela resposta, falar daquele jeito? Mas o que lhe parece mais insuportável são as respostas, certas, erradas, doces ou não, que só lhe vêm na boca ao fim e ao cabo das situações. Na hora, apenas calou, sorriu, falou qualquer bobagem. E o incrível é que são ótimas respostas! Seriam! Se lhe ocorressem a tempo! Mas levam horas, meses, até anos. Maria anda farta de arrastar o peso de não ter, na hora certa, respostas porretas no bolso da casaca. Exausta mesmo. Ainda hoje se lembra de quando ela e os amigos conversavam em torno…
Manoela e a beleza das coisas
Manoela olha as coisas tão bonitas e pensa se são bonitas realmente ou ela é quem assim vê. Tem os olhos tão acostumados que ultimamente tem se debruçado sobre esse costume. Sobre a inocência. Que inocência? Se eu pudesse parar de escrever eu perguntava para Manoela. Perguntava isso para ela. Que inocência? Outro dia mesmo uma voz lhe soprou nos ouvidos essa dúvida. Edgar é tão bonito. Uma alegria que sobe da boca para a linha do nariz e enverga os olhos. O olhar que ele tem fica bonito. Fica ou é? Eu grito daqui: Ora, ora, Manoela. Não vê que é apenas seu olhar? Como a letra de música: “A tristeza de um olhar, vem de tanto olhar, vem do outro olhar”. A alegria também. Não vê? “Como assim?”. Eu queria cantar para ela: “pelo olhar pode haver um motim”. Nada. Manoela sequer me escuta. Como poderia? Está tão absorta. Isso começou a acontecer, precisamente, quando ela não quis usar os óculos. Para quê essa bengala? Para quê me pendurar num foco que não é meu, …
MERGULHO (O segredo de Eugênia)
Em frente ao quiosque do chaveiro, em meio ao movimentado da cidade e o calor, o rapaz diz para Eugênia que chaves antigas, daquelas de quarto, têm que ser feitas à mão. O artesão tem que desenhá-las à mão. Eugênia pensa na palavra esculpir. Pensa em chaves e segredos que podem ser esculpidos. Detém-se nos segredos. É preciso que o artesão se detenha também sobre eles. Que segredo? A moça, com alguns anos de estrada e forte senso de observação, pensa o que desconhece sobre segredos. O que é o segredo que o esculpir pode desenhar? O que o homem talha no metal? Dentes. Pensa que dentes cravados na carne são segredos. Dentre os segredos que uma chave pode conter está o formato. Há que ter um perfil. E mais. Ser colocada na posição correta. Toda uma conexão de pinos e reentrâncias. Quando eles se alinham adequadamente, a trava consegue se encaixar nelas e liberar o gancho. Quando inserida na fechadura, a chave empurra os pinos de trás até à posição correta, …
TEODORA SABE DAS COISASTeodora é moça que sabe das coisas. Sabe e aproveita para “se achar”. Assim mesmo: sem o menor pudor. Humildade? Ah, não senhor. E já que sabe tanto, diverte-se. Olha-se no espelho e ao invés da pergunta “Cinderela” afirma olhando bem dentro dos próprios olhos: Eu sou sim a última bolacha do pacote. Sou mais: sou o gás da Coca-Cola. E ri. Fartamente. Daqui de onde a espio, tenho que admitir: Ela é ótima! Não é à toa que se arvora, sobe no salto e fica por aí dando lição de moral em muita criatura. Feito outro dia que xingou e xingou o rapaz que arremessou uma latinha para fora do carro. Uma pessoa que arremessa latas ou qualquer coisa pela janela do carro não tem a menor consciência de educação e cuidado com o meio ambiente. Eu acho que ela está certa. Já que a maior parte das pessoas é tão condescendente com certos absurdos, ela bota a boca no trombone. E trata de deixar isso muito claro quando acontece perto dela. Também ficou tiririca com Isabel, que sempre f…