Postagens

Mostrando postagens de Março, 2010

CENAS DE ADALGIZA

Imagem
O olhar é algo que acontece no olho. Tudo que entra por ele quando olhamos para alguém. Mesmo quando olhamos no espelho. O olhar desperta coisas. Muda o olhar de quem olha e de quem é olhado. É como diz aquela música, leitor:

“- como é triste seu olhar.
- como assim? A tristeza de um olhar vem de outro olhar, vem de tanto olhar.
- como assim?
- pelo olhar pode haver um motim.
- Não entendi, mas senti que era o fim”.

O olhar também pode vir por detrás de óculos. Óculos trazem para perto o que está longe. Definem o que está embaçado. Também tem o olhar que vem por detrás dos óculos escuros. Óculos quando são escuros escondem os olhos de quem olha e despertam em que quem é olhado “um não saber como se é olhado”. Óculos escuros são cinematográficos e as pessoas quando usam ficam cinematográficas. Olham as outras pessoas de um lugar chamado palco – que é uma espécie de tablado mais alto onde uns ficam distintos dos outros – e as coisas são vistas dessa perspectiva. O palco também pode ser…

VOCÊ TEM SEDE DO QUÊ?

Imagem
Neste mês de março que quase finda, comemorou-se o Dia Nacional da Poesia (14) e o dia Mundial da Água (22). Já foi, mas sempre é tempo para falar de coisas importantes para a nossa vida, certo? E eu, após a descoberta das datas, achei interessante misturar as duas. Misturar coisas às vezes é bom. “Banana com a comida. Geléia doce de pimenta na carne. Pizza de chocolate. Peixe ao molho de carambola. Estar de frente para o mar e morrer de sede”. Água é fonte da vida. Penso que com poesia é assim também. Aliás, poesia é até verbo. Pode e deve ser usada n
o imperativo: POEME-SE. Não importa quem somos, o que fazemos, onde vivemos. Da água certamente, dependemos. E poesia? Bem, a vida pode ficar melhor com poesia. No entanto, por maior que seja a importância da água, as pessoas continuam poluindo os rios e suas nascentes, esquecendo o quanto ela é essencial. E poesia? Bem, muita gente se esquece dela ou nem se lembra e acaba poluindo a vida de coisas que não fazem a alma delirar. A água …

4 MINICASOS FANTÁSTICOS

1. O chocolate está na minha boca. Doce. Você sorri enquanto me olha. Sabe do gosto e das propriedades. Eu engulo. Também a vontade de sorrir de volta. O chocolate, eu, você, tem uma química estranha. Então mesmo assim eu sorrio. Eu nem sei se é o gosto, a química ou seu sorriso. Por dentro eu queria voar no seu pescoço. Queria cantar bem baixinho no seu ouvido: “Você não me provoca nem quando me toca”. E você pega o chocolate, me oferece mais um pedaço e sorri com esse olhar que pensa que me seduz. Não seduz. É só o chocolate que se espalha na minha boca. O marrom que fica entre os dentes e na língua. E o gosto. No mais me sobra o frouxo do seu abraço em cada encontro. Tão frouxo.

2. A cereja que ele me dá está em mim, nos órgãos e glândulas. O olhar é injeção de glicose que sorvo e dissolvo na papila tingida de sabor. O líquido me percorre, depurando, fomentando outras reações, enquanto seu olho me olha. Tudo é vermelho. Enquanto isso ele enxerga a contradição que sou e fica me vari…

SOBRE RIOS, POESIA, AS CIDADES, OS HOMENS E OS PINGUINS

SOBRE RIOS, POESIA, AS CIDADES, OS HOMENS E OS PINGUINS


crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville.





Outro dia lia uma revista e vi uma citação: “Não resta dúvida de que o nosso conhecimento começa pela experiência”, de Emmanuel Kant. Comecei a pensar sobre experiências. A princípio, a experiência envolve uma complexidade de coisas, de possibilidades - mas penso: nossa experiência? Ou a experiência do outro, ou daquele grupo, ou da nossa espécie, ou de outra? Desse mundo e também de mundos distantes, hipotéticos, mitológicos? Do mundo animal? Poderia ser também. Aliás, experimentamos através dos animais muitas coisas: testamos medicamentos, reações, implantes... Penso no quanto necessitamos de cobaias. Não só nós. Li outro dia que já foi demonstrado em observações a pingüins-imperadores da Antártida, um comportamento tipificadamente egoísta. Querem lançar-se na água, mas ficam hesitantes com medo das focas... então existe um movimento para ver quem vai primeiro! Descartado o pe…

EU IA FALAR DE RAVIOLLI

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville.

Eu realmente tinha planejado falar de raviolli, mas desde a publicação da crônica de Adália e Quasar venho recebendo mensagens que me fizeram mudar de idéia. Muito bacana saber das histórias envolvendo cheiros de várias ordens. De perfume, de comida, de lembranças, de fatos. Esse negócio de cheiro dá mesmo o que falar. E embora cheiro de raviolli seja muito bom e traga junto cheiro de amigos em torno da mesa, trabalhando juntos, preparando a massa e comendo, me pus a pensar em outros cheiros. Porque cheiro é um modo de a gente se “orientar”. Também pode ser um modo de a gente se perder. Mas se a gente pode se perder, também dá pra se achar. Como “cheiro da casa da gente”. É bom esse cheiro. Dá conforto. Dá aconchego. Cheiro de beijo na boca quando começa a pegar fogo. Cheiro de roupas limpas secando no varal (nem precisa usar amaciante pra cheirar gostoso). Cheiro da roupa de alguém com restinho de perfume. Cheiro de mar. Cheiro do c…

SOBRE ESPAÇOS, AUSÊNCIAS E COISAS PARA SE FAZER

Imagem
Espaço. Um pedaço de margem branca depois que acaba o texto. Entre um texto e outro também pode ser. Espaço pode ser grande, mas é bom você delimitar. Espaço numa fita para gravar músicas. Como as cassetes de outro dia (porque o espaço entre hoje e o tempo das fitas cassete é muito pequeno). Agora é o espaço do CD, ou do pen-drive e outras tecnologias. É engraçado lembrar das fitas cassetes. O gravador fazendo aquele barulho para rebobinar. E quando a fita enroscava? Ah, era engraçado. Espaço é o que pode haver entre as pessoas quando elas estão com humor alterado. É o que você dá para as pessoas quando permite que entrem na sua vida. Espaço é onde os astronautas flutuam; os planetas todos orbitam no espaço. Espaço é um lugar que você precisa ocupar pra fazer algo melhor:
- me dá mais espaço, por favor. Espaço é o branco do papel, qualquer branco que se queira ou precise vencer. A tela do artista em branco é espaço. A casa inteira é espaço para a criança correr. Quarto é um espaço onde…

O ESPORTE, UM MENINO, UM SONHO

Imagem
O ESPORTE, UM MENINO, UM SONHO

Na tarde do último sábado o programa “caldeirão do Huck” mostrou um pouco da história e do sonho de um menino: surfar no Havaí ao lado de Kelly Slater. O menino Naamã, morador da favela do Morro do Cantagalo no Rio de Janeiro, segue em sua aventura até chegar ao Havaí; o contato com a beleza e o encontro com o astro mundial do surf. Ele se joga no abraço emocionado seguido de conversa e admiração e finalmente os dois no mar. Bonito de se ver. O garoto tem força na expressão, no gesto. Tem um imperativo dentro dele. De volta ao Brasil, Luciano o leva para um passeio de helicóptero pelo Rio. Ele tudo vê lá do alto: a baía da Guanabara, o Pão-de-Açúcar, o morro do Cantagalo onde ele mora, o Cristo. Eu pensava nele vendo sua própria vida de um outro plano. Sobrevoando a própria vida após uma experiência que transformou sua percepção. Seguiram depois para a casa do garoto. Os pais esperavam ansiosos entre paredes sem reboco e a falta de uma geladeira. A famíli…

MADALENA

Imagem
MADALENA  :)                    Crônica publicada no Jornal A NOTÍCIA de Joinville.



Ela levanta todas as manhãs com os olhos rasos – prediz as circunstâncias do dia que se elabora (ainda é incerto se o sol brilhará pela manhã ou só despontará pelo meio da tarde) e põe os pés sobre o tapete. Sente as fibras do junco. Lembra da Bahia. Faz uma prece ao seu santo e ergue-se, bípede que é. Não suspeita das dificuldades de um parto por conta disso! Sermos bípedes e termos cabeça grande. Tudo bem. A seleção natural explica. Ela sabe apenas que pode caminhar sobre duas pernas – isso lhe basta. Lava o rosto e se demora no espelho. Alisa a pele com o creme. Isso a restitui do ontem, do silêncio que agora já não faz eco em seus ouvidos. Deixa escorregar o vestido sobre o corpo que desperta e veste a sandália. Miss, atravessa a sala em direção à cozinha. Para uma vez mais no espelho que há no meio do caminho. Confere. “Está tudo bem”. “Volto logo”. Prepara o café na cafeteira expressa – aguarda …

ESQUISITICES HUMANAS. publicado no jornal AN em 04 de março de 2010.

Imagem
Humanos são seres esquisitamente maravilhosos, maravilhosamente esquisitos. Apaixonada que sou por essa espécie, me vejo por diversas vezes nesse enamoramento. Tudo chama minha atenção. Até as sandices. Os olhares que tudo olham. Examinam com avidez as tragédias. Vivenciam. Geram infortúnios, e igualmente, paciência, arroubos, doações. O olhar que observa a beleza e a fragilidade de seus iguais. Inveja e admira. Deseja o desejo. O próprio e também o dos outros. E nem sabe se, de fato, quer o que deseja. O olhar de um pescador para o mar. Dos surfistas examinando o movimento das ondas, dos ventos. Dos músicos quando cantam suas canções. E sentem. E se vivem outros. Vivem nas palavras. Nas cadências. Também nas pausas. O olhar do cirurgião para um órgão que pulsa em suas mãos. O olhar de uma mãe para o seu bebê. Do bebê para sua mãe. O olhar de um animal à espreita. Olhar de predador. E o olhar de uma presa. Olhar de medo. Olhar que faz outro olhar sorrir. Olhar que vira música. Amo ver…

ARNICA - crônica publicada no caderno ANEXO do jornal A Notícia em 25 de fevereiro de 2010.

Imagem
Em 12 de fevereiro de 2009, quando publiquei minha terceira crônica neste jornal, o leitor Jones Vieira Borges me escreveu um email pedindo que eu falasse sobre cachorros. Ele, que é um apaixonado pelo que chamou de “amigos de quatro patas”, me deu essa sugestão. Pouco mais de um ano, venho aqui para dizer: Chegou a minha cachorrinha, Jones! Da forma mais inusitada possível. Eu resistia à ideia de comprar um cachorro. Sei lá, mas o que há em mim pedia uma legítima guapeca – um termo lindo, que é o mesmo que vira-lata ou SRD, (sem raça definida) e que aprendi quando cheguei por aqui e tive meu primeiro cachorrinho em São Francisco do Sul. Chamei-o de Lupicínio, e o apelido era Lupi. Um guapeca lindo, marrom com olhos verdes. Foi para a casa de uma amiga em Guaramirim quando mudei pra Joinville. Na kit net que alugamos em Joinville não caberíamos nós três. Mas todas as vezes que vou pra Guará vou lá dar uma palavrinha com ele. E o bichinho me reconhece, senta e me dá a patinha igual a a…