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Mostrando postagens de Maio, 2009

COISAS VERMELHAS

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Crônica publicada no Jornal A Notícia em 21.05.2009


Para falar de coisas vermelhas devo escrever em preto. Entre outros motivos, facilita a leitura. Mas no meu computador está em vermelho. Então peço ao leitor, imagine-o em vermelho. Até porque, imaginar é vermelho. E se a vida é feita de significações e simbologias, para que omiti-las? A fraternidade é vermelha, a paixão (inclusive quando não correspondida) é vermelha. A boca, a língua depois de comer cerejas. O vermelho também fica nas mãos. A carne quando sangra é vermelha – Campari quando cai na roupa, ela fica vermelha. As gotas que escorrem num pacto de sangue são vermelhas. A árvore quando você corta seu tronco também. Escorre um líquido que é vermelho. Outdoor, placas, anúncios... Tudo para chamar a atenção é vermelho. O sinal que te diz para parar. Vermelho. A flor detrás da orelha da espanhola que dança. O sorriso dela é vermelho. O tango também é. Eu e ele – puro vermelho, puro sangue. Luiz Melodia canta vermelho. O corte …

SOBRE GATOS, RATOS E SONHOS - Crônica publicada no Jornal A Notícia em 07 de maio de 2009.

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SOBRE GATOS, RATOS E SONHOS



Eu sonho. Você sonha. Nós sonhamos. Eles sonham. Esse que conto agora foi ele quem sonhou. Sonhou e depois me contou. Vou contar: assim aconteceu. A gente estava tomando um café, vendo algumas coisas no computador e de repente ele disse:

- Sonhei uma coisa horrível!
- Credo! Conta.
- Eu estava comendo um rato. Eu e minha mulher estávamos jantando, e meu prato era um rato grande, a carne avermelhada, meio morto, meio vivo.
- Que nojo!
- Nem me fale.
- E ela? Comia o rato também?
- Não! Isso é que é incrível. Ela disse: “Eu não quero comer isso não!” e eu disse pra ela (com toda naturalidade do mundo): “Se você não quer o rato, pega esse pedaço de filet mignon que também deve estar muito bom”.
- Só você pra sonhar uma coisa dessas... Já viu na internet o que pode significar sonhar com ratos?
- Não. Vê aí.

Lap top na mão, cliquei: sonhar com ratos. deus Google mandou uma lista de alternativas, mas no geral, referiam-se a perdas financeiras e traições dos amig…
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SOBRE OS SENTIDOS DO TOQUECrônica publicada no Jornal A Notícia em 30 de abril de 2009.



Uma leitora me pediu que escrevesse sobre o toque distraído. Contou que tem alguém, que não sabendo direito como se comunicar com ela, às vezes deixa distraído seu braço tocar no dela. Lendo Fernando Pessoa me deparei com o trecho de um poema que dizia assim:
“Foi um momento em que pousaste sobre o meu braço, num movimento mais de cansaço que pensamento, a tua mão, e a retiraste. Senti ou não? Não sei. Mas lembro e sinto ainda qualquer memória fixa e corpórea onde pousaste a mão que teve qualquer sentido incompreendido, mas tão de leve!... Como se tu, sem o querer, em mim tocasses para dizer qualquer mistério, súbito e etéreo, que nem soubesses que tinha ser.”Pense só: ele escreve esse texto quem sabe com que bases? A partir de um toque, talvez? Um simples toque? Talvez um toque distraído de alguém, como coloca a leitora. E a partir do qual emerge um poema. Emerge o amor. A despeito de todos os noss…