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Mostrando postagens de Fevereiro, 2009
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DA SÉRIE CARTA ENTRE AMIGAS: COISAS QUE NOS ACONTECEM



DA SÉRIE CARTA ENTRE AMIGAS: sobre coisas que nos acontecem 
A outra carta da minha amiga veio, segundo ela, com um componente hormonal (TPM e abstinência sexual), que somado à sua tendência patológica à melancolia resulta numa fossa que não tem tamanho. Louca que é, vasculha possibilidades em todos os fluidos e elementos corporais e no consultório, diante do médico, solicita a bateria de exames mais completa possível. Resultado: Saúde de ferro! É que ela resolveu inventar um novo modo para se posicionar frente à vida. Não ser mais tão orgulhosa, egoísta e durona. E se derreteu, declarou seu amor em prosa e verso, perdoou traições e sentiu o amor à flor da pele. Diz que deu em nada. Diz que deu em desrespeito. Em dor. E quer saber, diante do médico, que remédio tomar para os tremores que vem sentindo, que impeça o coração de doer enquanto bate. Que possa cessar essa alternância de dias de depressão intercalados com dias de euforia. …
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DA SÉRIE CARTA ENTRE AMIGAS: O PÊNDULO DE CHARPY
ILUSTRAÇÃO: OLI

Uma amiga me escreve e diz sobre suas saudades, que gostaria de me ver mas que agora está furiosa atrás de trabalho e também aguardando a resposta de uma senhora para alugar um espaço na casa dela.
Diz que seu irmão mora nesse lugar e tem uma suíte vaga sobre a casa dele com entrada independente. Ela diz que quer esse lugar – ao menos até que saia o resultado de uma próxima batalha que irá enfrentar (despejo de sua inquilina), depois
da qual poderá ficar na casa de sua família e tudo será mais tranquilo. Por ora, a guerra está feia. E pede que eu torça por ela – que pode parecer pouco, mas para quem nunca pensou nessas questões de sobrevivência, o ar fica de guerra mesmo.
Minha doida e querida amiga: “Todo dia acordando para a luta, achando que o inimigo tem arsenal atômico e ela apenas um estilingue”. E a queridíssima continua e me diz que, ainda por cima, como se o tudo já não
bastasse, resolveu nesse momento delicado ler…

CRÔNICA DE ESTRÉIA NO CADERNO ANEXO DO JORNAL A NOTÍCIA EM FEVEREIRO DE 2009

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Olho no olho 

ilustração: PAULO GERLOFF


Sentada em frente ao computador tento extrair de mim a crônica inicial. Aquela que me representará, iniciará o contato com você, leitor, e me colocará definitivamente, de frente para o pelotão – olho no olho, sem véus. Tanto preâmbulo me coloca, incontestavelmente, muda. Assim que assinei o contrato, fui ao café que habitualmente frequento, sentei e saquei o laptop. Procedimentos iniciais, abertura de pasta e o silêncio se derramando pela mesa. Todas as quintas – se eu conseguir escrever uma por semana terão sido 44 em um ano. E toda semana falarei de algo: sapato, carrapato, poesia ou aquele grampeador do banco – sempre sem grampos. Peço um café. Sacar o tema, escrever, burilar, lapidar. Toda semana este processo se dará antes que ela possa nascer, antes que ela possa ser – a crônica.

E toda quinta alguém abrirá o jornal e dará com meu texto. Outros abrirão para ler o meu texto. Alguns me farão críticas, outros irão me elogiar, partilhar comigo …

2009 é bala

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2009 é bala 



De todas as formas de mudança, a que mais gosto é a que não tece motivos para acontecer, não tem razão ou razões que a expliquem ou justifiquem – gosto daquela que se interpõe feito tiro – entre o disparo e o alvo – a razão é o entre – é ser atravessado por ela e não poder nada, a não ser conter o furo provocado, os rastilhos de pólvora e o vazio como constituição permanente de você. Qualquer que seja o lugar, independente de onde a mudança te leve, você se configurará assim, com o vazio da bala. Dar conta desse vazio é experimentar desassossegos, cheiros diferentes, rajadas de vento. É dar a estar no conflito, no sofá de uma sala de espera, somente no aguardo da sua vez de entrar. Dar ou receber o diagnóstico. Assinar ou não o contrato e assumir as prestações que te farão refém ou algoz. Os papéis todos da gaveta espalhados em cima da mesa. Um foco de luz roendo um pedaço do seu chão.
Tem uma frase que diz: coragem não é ausência de medo – é o medo mais o desejo de fazer…